Atalhos de Campo


3.5.15

E deixo-te as rosas.

Do mais fundo de ti
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.












Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.




Se soubesses que ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.




Mas tu esqueceste uma coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha- queres ouvir-me?
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
      Era uma vez uma princesa
      No meio de um laranjal...


Mas- tu sabes- a noite é enorme,
e todo o meu coração cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada , mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade/Poema à Mãe
A Mãe na Poesia Portuguesa
Antologia de Albano Martins 

Cerâmica de Ana Canto
Série Budas * Os Quatro Elementos* -Ar  

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