Atalhos de Campo


28.5.15

as vacas adoram comer rosas

Ontem não te telefonei; no ano passado também não. E no entanto não apaguei o teu número, continua na agenda do telemóvel, à cabeceira da cama, sobre o cartão dobrado ao meio com a tua fotografia, onde guardei as duas primeiras ervilhas-de-cheiro do jardim, entre as duas datas. Desculpa agora tratar-te por tu, mas já não me dá jeito de outro modo, não ficaria bem sequer. Tempos houve em que me era insuportável a tua ausência, hoje já não. Reconheço-te em mim, na forma perfeccionista como uso as mãos, ou quando procuro um lugar perto da janela para me sentar a ouvir música, ou na maneira como abro um livro e paro a meio de uma frase para pensar em qualquer coisa, ou na minha incorrigível misantropia. Reconheço-te na melancolia com que me aproximo do fim da tarde e procuro estar só, em frente ao sol. Reconheço-te nos olhos fundos, nos braços compridos, nos pés. E se não quis ver o teu fígado no ecrã do computador, depois da embolização, foi porque sabia que o teu cancro era também o meu. Ontem teria escolhido uma hora para te dizer que as alfazemas já começaram a dar flor, que nasceram dois pavões, e mais dois borregos, que à hora a que os fui ver já tinham sono, e bocejavam à luz pálida do ovil; que limpei as roseiras das flores velhas e do insistente piolho; que os peixes estão enormes, e que as vacas adoram comer rosas. Acharias graça, farias perguntas, pequenas queixas, sorririas. Contudo, não te disse. Em vez disso fui regar a planta que me trouxeste num vaso na tua última festa de aniversário(que teima em te sobreviver), e que em breve terá flores que explodirão como pequenos aneurismas de cor. Foram só quinze dias mais, não estava preparada para não te voltar a ver. Mas agora estou tranquila, porque já sei onde estás.      

4 comentários:

  1. Cara Teresa,
    Quebrando o hábito de visita silenciosa, hoje deixo-lhe um abraço.
    Boa tarde,
    Outro Ente.

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    1. Quero agradecer-lhe o comentário e as visitas, mesmo as silenciosas. Também ando a espreitá-lo, mas não de tão bela e inquietante gárgula.

      Boa noite, Outro Ente.

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  2. Há perdas que nunca serão apagadas.

    Um abraço apertado.

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    1. Não Maria, há dias em que me sobra pai por todos os lados. Muito difícil.

      Um abraço, também.

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