Atalhos de Campo


22.5.15

A Rosa de Walser

Florista: Compra-me uma rosa?
Artur: Não, hoje não.
Florista:É isso que oiço todos os dias da sua boca.
(Para Edgar:)E o senhor?
Edgar(compra a rosa e oferece-a à criada de mesa, com quem está a conversar.)
Artur: Só quero saber de mim e de mais ninguém, estou insatisfeito comigo mesmo, mas isso até produz um belo efeito. Esta criada é muito atraente, sente respeito por mim e está furiosa comigo. É melhor assim, do que se me fizesse sorrisos. Nesta vida, uma pessoa ou é tida por boazinha e tratada com pouca consideração ou é levada a sério e evitada. Eu prefiro a segunda modalidade. Com as mulheres, há que fazer-lhes frente com delicadeza, para causar boa disposição.
Edgar(levanta-se, despede-se e sai).
Artur(dirigindo-se à rosa que a criada de mesa pôs numa jarra): Ele foi o nobre ofertante e eu sou o grosseiro egoísta. A franqueza é simpática, não é?(aspira o perfume da rosa)Como é doce o teu perfume! A criada de mesa (sorrindo divertida): Não são os atenciosos que impressionam as mulheres. Nós, as mulheres, tratamos com todo o respeito aqueles que não nos ligam nenhuma. São os muito ocupados, os comprometidos que nos atraem.(Para Artur:) Tu vieste cá só para matar a fome. O que haverá por detrás desta testa?(Afaga-o.)
Artur: Tu não me tens por desprovido de sentimentos. 
A criada de mesa: Não! Os teus olhos atraiçoam-te com demasiada clareza. Esse teu ar de superficialidade é apenas um disfarce. És alguém  que sabe o que é sofrer, e é por isso que eu te quero bem, um pouco.
Artur: Doravante, passarei a cumprimentar-te com a mais profunda das vénias. É bonita a rosa que aquele homem te ofereceu.
A criada de mesa: Infelizmente, não foste tu quem ma ofereceu.
Artur: A minha, já eu a ofereci e estou preso a isso. A fidelidade impõe-nos obrigações, mas faz-nos felizes.

Robert Walser/ A Rosa

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Notar como, quando queres desacreditar um princípio, dizes que é astúcia. O considerar aceitável ingenuidade o entusiasmo desinteressado, é romantismo. Mas porque recusar um princípio astuto, se é capaz de dar mais felicidade do que qualquer outro? O mal é que, se é astuto, já não dá felicidade, porque já não o cremos absoluto.

Cesare Pavese/ O Ofício de Viver

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