Atalhos de Campo


31.5.15

conselho a uma rosa

Ontem nasceste, e morres amanhã.
Para tão breve ser, quem te deu vida?
Para viver tão pouco estás luzida
e para não ser nada estás louçã?

Se te enganou a formosura vã,
bem depressa a verás desvanecida,
porque em tal formosura está contida
a sina de morreres tão de manhã.

Há-de cortar-te uma robusta mão,
que é lei da agricultura permitida
e num sopro extinguir-se a tua sorte.

Não saias, que te assaltam de roldão.
Dilata o nascimento à tua vida
que antecipas teu ser com tua morte.

Luis de Góngora/[A uma Rosa]
Tradução de David Mourão-Ferreira
  

velas


























Era sempre surpreendente a chegada ao rio. No estuário a promessa do mar era da largura do abraço entre as duas águas, sulcadas pelo aviso pachorrento e aborrecido dos grandes navios, tatuados pela nostalgia de outros portos; a relatividade de tamanhos ali tão perto, eram barcos de cruzeiro com cascos como paredes de betão, sustentando hotéis flutuantes, chegando e partindo pela mão de rebocadores minúsculos, com os passageiros maravilhados no deck, (distraídos com a perspectiva a fazer temer a colisão, que nunca acontecia); os cargueiros entrando no porto eram comboios do mar, chegando finalmente à última estação; era a dança colorida das velas nas regatas; eram pequenos mas rápidos barcos a motor em passeio, cruzando-se com magníficos iates deslizando tranquilamente até ao seu destino, como cisnes brancos mirando o seu reflexo na superfície da água; era a canoa veloz levada pelos braços síncronos dos remadores; era um grande veleiro chegando à outra margem, envolta em bruma. Sentada diante de um sumo de papaia, um croissant e um café duplo, com a leitura do Expresso mil vezes interrompida por aquela festa a entrar pelos olhos, via surgir ao longe o casco azul escuro do Xekmatt. Começava a distinguir a tripulação e finalmente quando te via, esperava que passasses ali mesmo à frente, para te dizer adeus. E nesses dias, havia no ar um cheiro especial a maresia. 

over the ocean I will be silent

Horizonte

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa-
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, longe a abstracta linha.


O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade.



























Fernando Pessoa/ Mensagem

29.5.15

Gémeos (2)

Vou-me aproximando da casa com o cesto dos ovos na mão. Hoje há um ovo de galinha enorme, talvez o maior ovo de galinha que eu já vi. Penso nele estrelado, deve ter duas gemas, saborosas e escandalosamente amarelas. Depois penso que se este ovo estivesse galado(o que é suposto), e a galinha o chocasse, poderia dar dois pintainhos, mas não é o caso, a única câmara de ar do ovo, implica que só um embrião terá oxigénio para sobreviver, o que acaba por matar os dois. Vou comer este ovo de consciência tranquila: evitarei um duplo homicídio(involuntário).

Gémeos


































rosa por cima

Não seja a gente ainda bem segura
  a julgar, como faz alguém que estima
  no campo a seara antes de ser madura;
que todo o Inverno vi qual se aproxima
  mostrando o espinho rígido e feroz;
  e depois lhe brotar rosa por cima;
e lenho vi, direito e bem veloz,
  correr o mar por todo o seu destino,
  e naufragar, quando ia a entrar na foz.

Dante Alighieri/ A Divina Comédia
Paraíso,Canto XIII(Os juízos humanos erróneos)

28.5.15

notícias da quinta (6)




as vacas adoram comer rosas

Ontem não te telefonei; no ano passado também não. E no entanto não apaguei o teu número, continua na agenda do telemóvel, à cabeceira da cama, sobre o cartão dobrado ao meio com a tua fotografia, onde guardei as duas primeiras ervilhas-de-cheiro do jardim, entre as duas datas. Desculpa agora tratar-te por tu, mas já não me dá jeito de outro modo, não ficaria bem sequer. Tempos houve em que me era insuportável a tua ausência, hoje já não. Reconheço-te em mim, na forma perfeccionista como uso as mãos, ou quando procuro um lugar perto da janela para me sentar a ouvir música, ou na maneira como abro um livro e paro a meio de uma frase para pensar em qualquer coisa, ou na minha incorrigível misantropia. Reconheço-te na melancolia com que me aproximo do fim da tarde e procuro estar só, em frente ao sol. Reconheço-te nos olhos fundos, nos braços compridos, nos pés. E se não quis ver o teu fígado no ecrã do computador, depois da embolização, foi porque sabia que o teu cancro era também o meu. Ontem teria escolhido uma hora para te dizer que as alfazemas já começaram a dar flor, que nasceram dois pavões, e mais dois borregos, que à hora a que os fui ver já tinham sono, e bocejavam à luz pálida do ovil; que limpei as roseiras das flores velhas e do insistente piolho; que os peixes estão enormes, e que as vacas adoram comer rosas. Acharias graça, farias perguntas, pequenas queixas, sorririas. Contudo, não te disse. Em vez disso fui regar a planta que me trouxeste num vaso na tua última festa de aniversário(que teima em te sobreviver), e que em breve terá flores que explodirão como pequenos aneurismas de cor. Foram só quinze dias mais, não estava preparada para não te voltar a ver. Mas agora estou tranquila, porque já sei onde estás.      

tecnologia

manda-me uma mensagem onde está escrito que às vezes me visita em modo stealth

sítios



faz-me tanto mal, ir a certos sítios...

Procura a rosa.

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina/A um jovem poeta

27.5.15

dentro da rosa dorme um gato

Dentro da rosa dorme um gato
ao fundo do corredor há um relógio de sol
aproximamo-nos pelo lado de dentro
pelo sítio exacto onde descansam duas pétalas
à sombra do teu cotovelo.
Sobre os teus joelhos
já não se cravam os espinhos da casa;
as tuas mãos já não afagam o medo da prosa.
Mas nos teus olhos 
ainda brilha o céu
dos pássaros impossíveis
que voam agora 
pelo lado de fora
para dentro dos meus olhos. 
Desde que na tua rosa
um gato
adormeceu.

(Recordando Manuel António Pina,
que amava gatos)

Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu» e escrevia «rosa»
mas nada me pertencia,
(...)
Manuel António Pina/ Poesia, Saudade da Prosa

26.5.15

desapontamento

Nunca fui de debates, entediam-me as reuniões, aquele zum-zum da televisão enerva-me; fugi para longe disso tudo. Seria incapaz de viver na vila, mas gosto muito de estar aqui, no meio dos animais e do silêncio. Se o mundo dependesse de mim seria um desastre, sou tímida, pouco interventiva, detesto burocracias, desconfio de organizações. Mas sou e sempre fui bastante firme naquilo em que acredito; não gosto de púlpitos, discursos, verborreias, grupos, mas sei agir quando é preciso, e nunca me sobrou muito tempo. Pressinto que se todos cumprissem a sua pequena parcela na luta contra a entropia, contrariando a segunda lei da termodinâmica, o trabalho produziria ordem e calor, e o calor aconchego, seria tudo mais equilibrado, e, quem sabe, mais justo. Talvez seja egoísta dizer que sinto que cumpri a minha parte e que ensinei quem devia, a cumprir.

apontamento

peguei numa tesoura e fui cortando, não os botões, não as mais velhas e despudoradas, quase frutos, mas aquelas que crescem no meio, e ainda se escondem por baixo das suas sedutoras pétalas...dividi-as por três jarras,(continuaram a observar-se umas às outras), da janela aberta parecem escutar o jardim, equilibrando-se nos bicos dos pés, mergulhados na água fresca de transparentes aquários; no silêncio tranquilo da sala, dir-se-ia que acordaram e fugiram dos livros para resplandecerem do alto do seu vermelho, rosa, salmão, e se eternizarem na pureza dos brancos, na melancolia dos beges, na evasão dos lilases, onde um anjo, que pousou na janela as suas grandes asas de Caravaggio, as observa, com um sorriso maroto

Que rosa


Que rosa esplendente é o amor!
Que maravilha adorar! 

Manoel de Barros

25.5.15

Fui andando...



(...)
Fui andando...
Meus passos não eram para chegar porque não havia
chegada
Nem desejos de ficar parado no meio do caminho.
Fui andando...
(...)
Vadio e evadido
Vagabundeio só.

Manoel de Barros/ Poesia Completa

verbum

esconder-me atrás da minha identidade

pseudónimo

Continuo à procura de rosas. Rosas escondidas entre capas, folhas de rosto, prefácios de autor, dedicatórias, prólogos mais ou menos longos, datas, súplicas, explicações. Silenciosas acordam em dosséis de monótonas letras, e deslizando deixam pétalas perfumadas pelas páginas, primeiro seladas, tímidos botões espartilhados, de longas pernas, desejos sublimados, paixões, pelos próprios espinhos magoadas. Portas entreabertas para jardins ocultos com o céu ao fundo, são a cor que estremece em recônditos dias, na monocromia dos verdes, e morrem-me subtis por entre os dedos, sem contudo revelarem os seus segredos. 

24.5.15

a rosa intacta

Como corpos belos dos que morrem sem ter envelhecido
-e são guardados, em lágrimas, num mausoléu magnífico,
com rosas na fronte e com jasmins aos pés-
assim os desejos são, desejos que esfriaram
sem serem consumados, sem que um só fruísse
uma noite de prazer, ou uma aurora que a lua inda ilumina.

Constantin Cavafy/ 90 e mais quatro poemas
Desejos

enquanto os fazia adormecer

Quando era miúda lembro-me de o Festival da Canção ser um acontecimento nacional. Depois do jantar a família reunia-se toda em frente do aparelho de televisão a preto e branco, os mais novos sentados em almofadas pelo chão, para não tirarem a vista aos mais velhos, sentados atrás. Eram noites divertidas, com licença para ficar acordado a torcer pela música favorita, em enorme excitação durante a pontuação por distritos, um acontecimento só comparável com um dia de eleições nos tempos actuais (nessa altura não era costume haver eleições). As expectativas eram sempre enormes, e quando finalmente íamos ao Festival da Eurovisão já todo o país trauteava a dificílima canção portuguesa. E sucedia-se o fiasco, um ano após o outro na cauda da classificação(salvo raras excepções), com os magros pontos da Espanha por solidariedade Ibérica, e pouco mais. As orquestrações eram tão exuberantes que ofuscavam a voz dos cantores, era tudo muito formal e sem alegria, os coros, por vezes bastante dispensáveis, desequilibravam ainda mais o conjunto já sem graça, quando comparado com o ritmo de algumas das canções do resto da Europa, principalmente do Reino Unido, Irlanda, e Espanha, que ficavam imediatamente no ouvido. Hoje, por causa dos sessenta anos do Festival da Eurovisão, lembrei-me de ir à procura do Sérgio Borges(por quem tive uma paixoneta), e que venceu em 1970. Primeiro fui ouvir a música, que ainda sei de cor, e depois tentei saber o que se teria passado com a carreira dele, que era bastante mais velho do que eu pensava, e que para meu espanto já morreu, aos 68 anos. Imaginava-o grisalho e avô de uma dezena de netos, a cantar-lhes, com aquela voz terna, sobre um rio, um cais, um Norte, enquanto os fazia adormecer. E fiquei com pena.       

23.5.15

Sentence

Blogue é um blogue é um blogue é um blogue.

Os dias vão-se
Os blogues não.

Negação
































Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

(...)

Os dias vão-se
eu não

Adília Lopes/Poesia Reunida

22.5.15

Cristal



todo o dia me acompanha a música dos pássaros;
por isso na Primavera e no Verão oiço menos Schubert,
Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Mahler...de vez 
em quando destaca-se um solista, de voz cristalina,
que tento identificar, maravilhada, pisco, estorninho, 
rouxinol, melro, pintassilgo, tentilhão...

A Rosa de Walser

Florista: Compra-me uma rosa?
Artur: Não, hoje não.
Florista:É isso que oiço todos os dias da sua boca.
(Para Edgar:)E o senhor?
Edgar(compra a rosa e oferece-a à criada de mesa, com quem está a conversar.)
Artur: Só quero saber de mim e de mais ninguém, estou insatisfeito comigo mesmo, mas isso até produz um belo efeito. Esta criada é muito atraente, sente respeito por mim e está furiosa comigo. É melhor assim, do que se me fizesse sorrisos. Nesta vida, uma pessoa ou é tida por boazinha e tratada com pouca consideração ou é levada a sério e evitada. Eu prefiro a segunda modalidade. Com as mulheres, há que fazer-lhes frente com delicadeza, para causar boa disposição.
Edgar(levanta-se, despede-se e sai).
Artur(dirigindo-se à rosa que a criada de mesa pôs numa jarra): Ele foi o nobre ofertante e eu sou o grosseiro egoísta. A franqueza é simpática, não é?(aspira o perfume da rosa)Como é doce o teu perfume! A criada de mesa (sorrindo divertida): Não são os atenciosos que impressionam as mulheres. Nós, as mulheres, tratamos com todo o respeito aqueles que não nos ligam nenhuma. São os muito ocupados, os comprometidos que nos atraem.(Para Artur:) Tu vieste cá só para matar a fome. O que haverá por detrás desta testa?(Afaga-o.)
Artur: Tu não me tens por desprovido de sentimentos. 
A criada de mesa: Não! Os teus olhos atraiçoam-te com demasiada clareza. Esse teu ar de superficialidade é apenas um disfarce. És alguém  que sabe o que é sofrer, e é por isso que eu te quero bem, um pouco.
Artur: Doravante, passarei a cumprimentar-te com a mais profunda das vénias. É bonita a rosa que aquele homem te ofereceu.
A criada de mesa: Infelizmente, não foste tu quem ma ofereceu.
Artur: A minha, já eu a ofereci e estou preso a isso. A fidelidade impõe-nos obrigações, mas faz-nos felizes.

Robert Walser/ A Rosa

                                                     *
Notar como, quando queres desacreditar um princípio, dizes que é astúcia. O considerar aceitável ingenuidade o entusiasmo desinteressado, é romantismo. Mas porque recusar um princípio astuto, se é capaz de dar mais felicidade do que qualquer outro? O mal é que, se é astuto, já não dá felicidade, porque já não o cremos absoluto.

Cesare Pavese/ O Ofício de Viver

21.5.15

a rosa inconveniente



E se um desconhecido lhe oferecer flores...nos anos oitenta aconteceram-me tantas coisas maravilhosas que até um desconhecido me ofereceu flores. Mas nem todas as rosas são convenientes, isto ensina-nos a vida. Há rosas que pesam como chumbo; há rosas interesseiras(outras interessantes); há rosas desmaiadas, que morrem antes de chegar às jarras; há rosas que nunca desabrocharam, conservando intacto o seu mistério, e há rosas que se esperam e nunca chegam. Como lidar com uma rosa inconveniente? As rosas inconvenientes agarram-se a nós, não nos largam, são insistentes, mudam de cor, às vezes são brancas como o sono, outras vermelhas como a paixão. Tenho colecções delas, já morreram, mas voltam, enfiadas nos recantos da memória de amores frustrados, enganos, reconciliações, mas igualmente de alegrias, de serenidades, de realizações. Também eu ofereci rosas, algumas delas compradas aos Qué Frô quando ainda não tinham vendido nada, evitando assim o momento constrangedor da recusa. Naquele mês chegou um ramo de rosas por semana, perante a minha surpresa. Lindo, cada um de cor diferente. Vi-as a definhar, a morrer, impotente, durante um mês inteiro. Sinto que ainda é verdade a frase que ouvi algures, os homens primeiro desejam e depois amam; as mulheres primeiro amam e depois desejam,(pelo menos nos anos oitenta assim era),quando animados por impulsos os homens ofereciam flores às mulheres, que equivocadas achavam que isso era amor. Amor é outra coisa, no amor todas as rosas têm raiz. E nunca me vou esquecer de ti quando entraste em casa com um ramo de rosas no dia da mãe: é que vai haver um dia em que saberei tudo sobre rosas, e já nada sobre mim.

20.5.15

e as rosas são coisas e as coisas são como são

Herberto:

e tu avanças, tu que estremeces, tu que abres
essa porta que as noites multiplicam,
e por uma dessas portas entre todas
sais
ao encontro de outras palavras poucas,
e a dita rosa múltipla nunca encontrada
(ou encontrada enfim entre portas)

Juliet:

What's Montague? It is nor hand, or foot,
Nor arm, nor face, nor any other part
Belonging to a man. O, be someother name!

Herberto:

que é
como quem diz: a multidão de palavras
todas elas esquerdas como se escreve,
e há o impulso de apertar a mão rara com a sua rosa
                                     penta tatuada
Juliet:

What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet;

Herberto:

um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,
escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do
                                                   costume:
Romeo:

I take thee at thy word:
Call me but love, and I'll be new baptized;
Henceforth I never will be Romeo.

Herberto:

colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios
                                                     olhos,
e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,
tudo tão prodigioso que se não entende nada:

Gertrude:

Place in pets.
Night town.
Night town a glass.
Color mahogany.
Color mahocenter.
Rose is a rose is a rose is a rose.

Herberto:

uma rosa é uma rosa é uma rosa- disse ela em inglês
(há quantos anos li isso!)
(há quantos anos fiquei bêbado desse talhão de roseiras!)

Gertrude:

Loveliness extreme.
Sweetest ice-cream.
Page ages page ages page ages.
Wiped Wiped wine wine.
Sweeter than peaches
and pears and cream.
Wiped wine wiped wine.
Extra extreme.
Put measure treasure.
Mesure treasure.

Herberto:

a rose is a rose is a rose et coetera
- mudou-me a vida?
oh faminta ciência da paciência!
coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida,
e então porque não a mudaria uma rosa compactamente
                                           múltipla?
Gertude:

Tables track.
Nursed.
Dough.
That will do.

Herberto:

morrer por uma rosa é que fia mais fino:
que fabuloso fio em que roca e em que fuso,
que segredo do mundo

Romeo:

Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.



Herberto Helder/ Poemas Canhotos
William Shakespeare/Romeo and Juliet
Gertrude Stein/Sacred Emily


19.5.15

Antemanhã



 

No fim dos teus dedos
Começam os olhos das aves

  Não me pergunte a poesia
  Nada mais

  Apenas sei o fim de teus dedos
  
  Não me pergunte a poesia
  Se choram os olhos das aves

  Daniel Faria/Antemanhã

rosa anterior

Para que nasças no mês anterior
Para que nasças muito antes de chegares

Para que amanheças já aberta e recortada
No tempo anterior à tua vinda
Para que amanheças
Ó rosa anterior

Para que venhas
Mesmo antes de seres compreendida. Ainda
Antes da terra te poder gerar. Ó rosa
Já florida

Daniel Faria/Poesia

18.5.15

dos pardais, dos cucos, e das lições de Darwin

A glicínia acabara de acordar a luz lilás e espreguiçava as longas gavinhas num bocejo perfumado, disputando o melhor lugar na pérgula para assistir ao desenrolar do dia. Certifiquei-me de que os gatos ainda estavam a dormir e a recuperar da noitada. Descobri-os deitados no armazém onde escolhem um sítio diferente todas as noites. As cabeças ronronando de ócio tinham deslizado e pendiam ao abandono no conforto do colchão de feno. Sob o enorme dossel que rendilhava a penumbra tépida do celeiro, feito de fios de teias de aranha com dezenas de palhas e de insectos aprisionados, tinham entrelaçado as patas, amarelo com preto, e dos punhos desfaleciam agora dedos inofensivos e macios como luvas, embainhando unhas afiadas como punhais. Foram abrindo um olho de cada vez para que o mundo pudesse girar ao contrário, e atordoados voltaram a adormecer. Fui buscar a gaiola, mantida na clandestinidade no interior de casa, onde acordara um pardal entristecido. Começou a tentar sair, mal viu o céu encoberto de glicínia e não de telhado, e o ar cruzado por fisgas de pássaros iguais, numa algazarra sem janelas. Vi-lhe no olho um cisco de luz que me reacendeu a esperança de o salvar, a pequena cauda empinada como um leme dizia-me que se equilibraria, enquanto se mantinha preso às grades, a desafiar a liberdade. Peguei-lhe com cuidado. Queria escolher um bom sítio para o libertar, mas ele escapou-se-me dos dedos permissos, e pousou no alto da trepadeira cobiçando uma árvore em frente, precisamente a que escondia amoras vermelhas por baixo de grandes parras. O pequeno pardal sentiu que se tinha conseguido libertar de dois predadores no mesmo dia: o que mata e o que aprisiona, e fez-me lembrar que ontem ao fim da tarde ouvi um cuco. O canto é parecido com o de uma rola, mas mais longo e grave. Por cada cuco que se ouve a cantar, cantarão menos três rouxinóis no caniçal. Quando me preparava para entrar em casa vi um rolo de palhas sobre a relva. Era um ninho caído, já sem forma. Dentro dele jaziam quatro pequenos ovos pintalgados, de pardal.    


Cf. Como Darwin pode mudar a sua vida/Atalhos à sombra.19/3/2015

brilha o sol sobre os campos

Ele era a chispa que renovava o incêndio. Quando ele morre volta a paz, brilha o sol sobre os campos:

                 E como disso fizemos juramento
                 A rosa branca uniremos à vermelha.
                 
                 Shakespeare/ Ricardo III

Shakespeare/Giuseppe Tomasi di Lampedusa

17.5.15

notícias da quinta (5)

Já só há duas pavoas no choco, porque uma se assustou com o tractor e abandonou os ovos(três); as duas que restam escolheram sítios diferentes: uma delas está no alto do frascal dentro do casão que confina com o ovil; a outra escolheu um sítio menos seguro quando fez o ninho na berma do caminho, no chão, escondido entre as ervas à sombra de um choupo, mais acessível a predadores. Costuma sair para comer e beber água ao fim da tarde. Primeiro espoja-se nas cinzas da última queimada, sacode-se, e depois grita e vai-se afastando à procura de alimento. Hoje aproveitei a ausência para colocar entre os ovos dela os três ovos enjeitados. Passada uma hora voltou ao ninho e parece não ter dado conta que tinha o dobro dos ovos, continuando a chocar.
                              
                              *
Salvei hoje um pardal acabado de caçar, da boca do Girassol, o gato amarelo. Convenci-o com falinhas mansas a libertá-lo. O pardal ficou apardalado, e foi fácil apanhá-lo. Esta noite fica dentro de casa numa gaiola, com água e farinha de trigo. Vai ser difícil mantê-lo em cativeiro, mas se se aguentasse era bom, porque já percebi que não sabe voar muito bem.    

                               *
Gosto de regar ao fim da tarde. Os agapantos, transplantados há um mês para o canteiro ao longo do espelho de água das traseiras, começaram já a erguer as suas lanças em direcção ao céu. Durante a rega o limoeiro agradece a água com mais flores, perfumando o crepúsculo, enquanto o céu, tingido de azul e magenta sobre os freixos, parece estar à espera das flores brancas dos agapantos, que depois de abertas são como fogo de artifício a mergulhar na noite.

armistício
























Shakespeare: o encontro de uma rosa com um machado...
Cioran

16.5.15

entre as seis e as sete

E, nesse instante, abrindo os olhos, quão frescas lhe pareciam as rosas, como linho metido em cestas de vime e acabado de chegar da lavandaria. E o vermelho-escuro dos cravos, muito ufanos, de cabeça erguida; e as ervilhas-de-cheiro, espalhadas em vasos, tingidas de roxo, de branco, pálidas- como se tudo aquilo fosse um fim de tarde e raparigas vestidas de musselina saíssem, após um soberbo dia de Verão, debaixo de um céu azul-escuro, para colher rosas e ervilhas-de-cheiro, e também delfíneos, cravos, açucenas; e fosse o momento, entre as seis e as sete, em que cada flor- rosa, cravo, íris, lilás- brilha mais intensamente; branco, vermelho, violeta, laranja carregado; esse momento em que cada flor parece arder sozinha, suave e pura nos seus canteiros de bruma;(...)

Virginia Woolf/ Mrs. Dalloway

Lençol de linho com bordado haiku

























Lavam mulheres
sobre linho curvadas
livros antigos.

As ervas crescem:
em tanques esquecidos,
abrem postigos.

Morrem pecados,
desvelos confessados
com alvo sabão.


























De tempos idos
lençóis imaculados
guardados estão.

Nos adereços
brocados, fragmentos, e
sonhos perdidos.















15.5.15

A rosa de Versalhes


E depois o sol levantou-se. Uma ave atravessou o terraço ao longo da parede da casa. Pensava que a casa estava vazia e chegou tão perto que esbarrou numa rosa, numa daquelas a que eu chamo de Versalhes. Foi brutalmente um movimento, o único do parque abaixo do nível da luz do céu. Ouvi a rosa amarfanhada pela ave no veludo do seu vôo. E olhei para a rosa. Primeiro moveu-se, como se estivesse animada de vida, e depois a pouco e pouco voltou a ser uma rosa comum.

Marguerite Duras/ Textos Secretos

Stormy Friday

Às vezes lembro-me daquele concerto do B.B.King no Coliseu a que assisti sozinha, de pé na galeria por já não haver bilhetes na plateia quando finalmente me decidi a ir. Estive a tentar recordar-me do ano, julgo que foi em 1996, Rui Veloso, ainda fininho e tímido, foi a certa altura tocar com o monstro sagrado do blues, enquanto eu dava cotoveladas num energúmeno que viera colocar-se atrás de mim. Nunca deixei de ir a concertos por não ter companhia, e na música o Rui tinha razão quando cantava o Tê, não se ama alguém que não ouve a mesma canção. E era verdade, foi sempre verdade.

14.5.15

mujeres al borde de un ataque de nervios (6)

Não é que eu pretenda depreciar a coragem das mulheres; vi-as, em certos momentos, superiores aos homens mais corajosos. É apenas necessário terem um homem para amar; como só sentem através dele, o perigo directo e pessoal mais atroz torna-se para elas como uma rosa a colher na sua presença.

Do Amor/Stendhal

Francamente, se não fosse a rosa...


a sexta emenda

este blogue só respeitará o acordo ortográfico em caso de distracção.

Receita de Espiga

Em primeiro lugar precisas de sol com margens de Inverno esquecido. Arranja trigo que dê para fazer um pão; à paz e ao sumo de oliveira junta bravura de zambujeiro; coloca um bom ramo de papoilas no lugar do coração; por fim salpica a gosto com malmequeres, mas não exageres, são ouro e dinheiro. Ata tudo muito bem e pendura, por um ano terás fartura.

Que me perdoem as rosas


13.5.15

Belos, limpos, e bons


























A Lei de Jante é basicamente uma norma social repressiva. Julgo que é comum a todas as vilas ou cidades pequenas, mesmo noutras partes do mundo, embora seja, de facto, um princípio fundamental da sociedade escandinava. Segundo esta norma, não se pode ser diferente, não se é único, mas apenas "um de nós". Mas a Lei de Jante também tem um lado positivo. Está na base do modelo do Estado social escandinavo, face ao qual todos os indivíduos são iguais e devem ser tratados de igual forma, a começar pela família real. Neste sistema, o normal é que se esconda o que se é, para não se ser rejeitado. Mostrar é motivo de crítica e de vergonha. Mas a nova geração está a desafiar a norma. A dada altura, comecei a pensar em escrever sobre mim, sobre o que não é aceitável em mim, sobre as coisas que normalmente não se mostram mas se escondem. E escrevi. E o que descobri como escritor é que a transgressão não acontece no momento em que se escreve mas quando se publica. A minha história tornou-se a história de todos, passou a ser colectiva. Não é especial, mas comum, e essa tem sido, para mim, uma ideia muito forte.

Karl Ove Knausgard
(em entrevista ao Expresso, por Cristina Margato)

Lei de Jante

Passa-se por esses campos fora, olha-se para uma vara como no 
princípio dos tempos, mas...tudo o resto é diferente.



natureza morta com rosa e copo

(...)
Uma mulher pôs num copo uma rosa amarela; o homem murmura os versos inevitáveis que ele próprio, para falar com franqueza, já enfastiam um pouco:

          
           Púrpura do jardim, pompa do prado,
           Gema de Primavera, olho de Abril...


Então ocorreu a revelação. Marino viu a rosa, como Adão a pôde ver no Paraíso, e sentiu que ela estava na sua eternidade e não nas suas palavras e que podemos mencionar ou aludir mas não expressar e que os altos e soberbos volumes que formavam num ângulo da sala uma penumbra de ouro não eram(como a sua vaidade sonhou)um espelho do mundo, mas uma coisa mais agregada ao mundo.
Esta iluminação alcançou Marino na véspera da sua morte, e Homero e Dante porventura também a alcançaram.

Jorge Luís Borges


                      
Há dias assim: eu hoje mencionei uma rosa.

12.5.15

João

O João faz hoje anos. Disse-me que amanhã tem que apanhar um avião de Faro para o Porto, vai estar numa formação. Adora motores, o João. E motos. E velocidade. A sua voz parece-me triste. Pergunto-lhe se vai a algum sítio comemorar, mas não vai, tem que se levantar às quatro da manhã para ir apanhar o avião. Vive com a família, e com os motores, peças minúsculas que manuseia com eficiência de relojoeiro. Aplica-se nesse silêncio concentrado desde que nasceu, talvez não tivesse ainda dois anos quando desaparafusou um bidé da casa de banho do camarote do barco onde viajávamos. Visita-me uma vez por ano. Chega de moto, equipado de cabedal negro dos pés à cabeça. Falamos mais agora, por vezes abre-se comigo sobre a vida, enquanto almoçamos no alpendre. Vou percebendo que não o conheço, que, enquanto me encerrava no quarto a ler e a estudar, ele fazia com os amigos protótipos motorizados, e punha várias vezes a vida em risco, entre as  páginas tranquilas do meu livro. Velejava bem, até se apaixonar perdidamente pelos motores. Quero apanhar esse tempo, apercebo-me dele como se visse um filme mudo, em que o João é agora o narrador, quero muito acrescentá-lo à minha parte, para que o passado consiga fazer mais sentido. A cada gesto lhe adivinho o meu pai, na ironia também, calado vai desatarraxando o tempo com perícia, e depois liberta-o numa frase mordaz, numa gargalhada, que acaba quase sempre a morrer num trejeito triste. Já teve um desastre enorme, o João. Quando fui vê-lo estava irreconhecível, todo partido, ligado como uma múmia. O amigo, a quem deixara conduzir a moto, morrera no acidente. Temi que tivesse sido ele. Há uma fotografia tirada à porta do hospital com toda a família, ele ainda numa cadeira de rodas. Da última vez que cá veio pedi-lhe para irmos dar um passeio de moto. Afinal nem tudo estava perdido. Numa manhã bem cedo, volta a equipar-se e faz a viagem de regresso, palmilhando centenas de quilómetros, corpo e alma cosidos com o seu bólide, luminoso, a voar sobre o asfalto. Talvez só pare quando o conta-quilómetros virar num número com muitos zeros, para tirar uma fotografia.   

rosas epistolares

Tudo o que nos comove, tu partilhas,
mas o que acontece- é um enigma.
Era preciso sermos cem borboletas
para te ler todas as páginas.

Há, entre vós, algumas que são como dicionários;
quem as colhe,
sente o impulso de as encadernar.
Eu, por mim, amo as rosas epistolares.

Rainer Maria Rilke/ As Rosas

11.5.15

Tratado de Tordesilhas



Deitada ao longo do muro esperava pelo avião de regresso. Só havia o céu e a noite. A imensa abóbada estrelada aguardava-a com a mesma indiferença do mar que ficava. A sua toada monótona de marés desde o início do mundo, começara por turvar-se pelo canto dos olhos e invadira-a um soluço gigante, uma onda interior que lhe morria no peito, sem rebentar, contida, mortal. Morria-lhe aquele mar mergulhado nas ilhas do corpo, nas ondas largas do cabelo, na espuma do sorriso, morriam as rosas de areia na pele tisnada pelo sol, murchavam-lhe flores de Sal por entre os dedos. Ficaria ali para sempre esse corpo que lhe morria agora, sepultado naquele chão que o muro dividia ao meio, e que passara a ser seu. Tinha ficado nas rochas negras, na ermida isolada na ilha da Boavista, nos peixes que voavam como olhos do mar, na vadiagem pelos bares, swingando por entre as cordas dos cavaquinhos e rabecas, bebendo cortados, no mercado cheirando a gente de Espargos, na casa feita com as mesmas tábuas do pontão, erguida entre o céu e o mar e pintada com a cor do sangue do espadarte, que brilhara ao pôr-do-sol num barco de pescadores; tinha ficado nas mornas e nas coladeiras, dançadas de pés descalços na praia. O mundo dividira-se em dois, aquele que ficava, e o que a esperava, a rua íngreme de estendais ao sol, o espreguiçar sonolento dos gatos nas calçadas, as sardinheiras às janelas, e aquele mesmo fado nas asas das pombas, voando entre as ilhas de nuvens com o Tejo ao fundo. Passaram tantos anos, e agora me lembro que ela me contou que só voltara uma vez a Cabo Verde, um tanto inesperadamente, quando, num dia de aniversário, o filho a surpreendeu com um almoço num sítio único, em que se comia cachupa e se dançava por entre mesas corridas, abandonando os pratos ao som da música ao vivo, que desaguava na Avenida da Liberdade daquela quinta-feira abafada de Outono. O filho dissera-lhe de manhã que nunca tinha dançado com ela. Foi no dia em que fez quarenta anos. Ficara com a certeza, que, também a ele, nascera uma roseira no peito. 

Fragrâncias

Extraídos são- os Óleos Essenciais-
A Essência da Rosa
Não se exprime somente- pelos Sóis
É dos Tornos a oferta-

A Rosa mais Vulgar- decai-
Mas- no Armário da Dama
Em Rosmaninho Perene- Faz o Verão
Quando a Dama se deita-

Emily Dickinson


10.5.15

Ao Poeta


Era António
e em seus Ramos dormia
uma Rosa chamada Poesia.

Omni rosae spina



























(...)
Acontece que a rapariga não é minha
como a rosa a rapariga
existe em mim (rosa mihi est)
ninguém possui ninguém
(...)

Adília Lopes/Flores de Papel