Atalhos de Campo


25.4.15

vinte e cinco branco


























Perguntei ao meu avô o que eram os vermelhos, quando li Tolstoi, e ele, monárquico e até um pouco germanófilo, vermelho só havia um, o seu Benfica, de que era adepto ferrenho, e a cor do BMW( porque é que os homens, costumam escolher carros da cor dos clubes de futebol, nunca percebi), respondeu-me explicando muito bem, o que era a esquerda e a direita, e o centro, o parlamento e as ideias, as causas, as consequências, a História, de que era muito sabedor. Eu assimilei essa sabedoria como matemática em estado puro, em casa nunca assisti a machismos, ou a faltas de respeito pelos empregados, antes pelo contrário, e fui vivendo no limbo os conceitos apreendidos. O vinte e cinco de Abril aconteceu-me quando era adolescente, idealista, e, sem aparente explicação, instalou-se-me na alma uma euforia, uma alegria revolucionária, uma adesão à rua, à igualdade, à fraternidade, à libertação dos presos políticos, à música, à paz. Entrei pela esquerda de olhos fechados, com o coração, pus a razão ao lado da democracia, a minha excepção na família próxima trouxe-me alguns dissabores, nada demais, ninguém me proibiu nada, uma vez distribuí um planfleto ao meu pai, que me disse baixinho, à porta da Casa Inglesa, vem lá dentro tomar uma Coca-cola, para conversarmos. Tivemos todos muito tempo para aprender a conduzir exemplarmente aquilo que outros tinham iniciado, mas passados os primeiros anos, e sem saber bem exactamente qual o momento em que derrapou, foi-se-me instalando, enraizando, florindo, digo bem, uma enorme decepção, e digo florindo porque quem teve a sorte de viver aqueles dias e anos de Abril, se engrandeceu como pessoa. Agora cultivo cravinas, algumas vermelhas, outras brancas e perfumadas, com esse tempo intacto na memória, uma aventura, branda e morena, à espera que um neto, ou uma neta, me façam a mesma pergunta que formulei há mais do de quarenta anos, num dia de Primavera.   

2 comentários:

  1. Que saudades eu tenho do teu avô, meu querido pai, com todo o seu vermelho - o Benfica, o BMW e o vinho tinto (o branco só dava para fazer xixi).
    Todos nós, de uma maneira ou de outra, rejubilámos com o "25 de abril" e, grande maioria dos que, mais perto ou mais longe, o viveram, agora estamos desiludidos e perguntando se foi para alimentar esta cáfila de parasitas que fizeram a revolução.
    Infelizmente eu penso que sim. O anterior regime, com os seus 48 anos, estava podre. A tropa, tendo cometido uma proeza que as grandes potências não foram capazes de alcançar, tinha vencido o terrorismo, pelo menos em Angola e Moçambique, mas, como tudo em Portugal, não quiseram consolidar (ou não souberam). O novo regime nascido da revolução dita dos cravos apodreceu logo à nascença. E se alguém tem duvidas leia, por exemplo, o livro de Rui Mateus (Contos proibidos - Histórias de um PS desconhecido). Infelizmente a vilanagem ainda não está farta.
    Tudo isto para te dizer - o teu avô era monárquico mas também tinha um pouco de anarquista (no bom sentido) e tinha razão.
    Um beijo do teu tio.

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  2. Tio, acabei de perceber de onde vem o meu lado anarka!
    Beijinhos

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