Atalhos de Campo


11.4.15

venho falar-te de amor

Sei que nunca te disse isto. Esta manhã, enquanto o concerto de Beethoven fugia pelas janelas, e o sol quente se entranhava na terra perfumada acordando as sementes, senti o quanto te amo. Não tentes tirar vantagem disso, este é um amor de pequenos gestos e de nadas, de olhos e de mãos, de pássaros escondidos que cantam alto e voam o mais alto que podem, porque só sabem voar. Flutua o amor sobre as folhas de nenúfar, treme no primeiro verde dos freixos, é ninho antes da postura escondido entre a folhagem, perfeito como uma pequena obra de arte. Tenho para te oferecer os botões das rosas de que não sei a cor, o rosmaninho que floriu sem eu dar por isso, as frésias que tombaram na terra pelo peso das flores cheias de chuva. Um dia, há quase cem anos, ela, ainda muito jovem, plantou a palmeira, e ofereceu-a ao céu, às andorinhas, ao luar, à casa caiada  com o pé do azul secreto dos seus olhos; não poderíamos saber que quando morresse, a palmeira também morreria. Ainda na Primavera passada, fiel ao seu posto(o centro da janela do quarto que era o teu), brilhava ao sol, protectora como um pára-raios, abrigo para dezenas de pássaros ao anoitecer. Morreu, devagar e inteira. Primeiro abateu-se o lado que dá para a curva da estrada, e as folhas aproximaram-se tristemente do tronco como braços cansados, enquanto as que estão voltadas para a casa se mantiveram erguidas a liderar o vento, fazendo-se escutar ao longe, como um almuadem no minarete de outros tempos. Secou paulatinamente, ostentando com feroz dignidade as pontas aguçadas junto ao tronco, em defesa dos cachos de frutos que ainda restavam, até que por fim, já exausta, se foi deixando cair. Quando há dias o centro ruiu lá do alto e se desfez sobre a relva, reparei que no canteiro, por entre as túlipas e o alyssum, havia renascido um pequeno palmar, que ela própria semeara. Faltará provar a semelhança entre o código genético de certas árvores e o de alguns homens. 

Para a Inês e para o Eduardo, que tinham uma bisavó que gostava de árvores altas, de flores do campo, e da terra onde plantou esta palmeira
Em memória da minha avó, que morreu faz hoje quinze anos

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