Atalhos de Campo


10.4.15

o misterioso pio do entardecer

Ao crepúsculo começa a ouvir-se uma espécie de assobio, monótono, cadenciado. No Guia das Aves está escrito melancólico. A primeira vez fiquei muito intrigada, pareceu-me um som de electrónica, mas era pouco possível, quase tão pouco como ser de um pássaro. Andei à procura, afinando o ouvido, vi debaixo do banco junto ao lago, no canteiro da cica, que à altura tinha folhas e ervas, junto à sebe de heras e vinha virgem, e nada. Concluí que se calava com a proximidade(talvez, não de certeza), o que parecia excluir a hipótese da electrónica. O assobio ia-se estendendo pelo anoitecer, e uma vez enquanto me fui deixando ficar, aproveitando a lua para continuar de volta dos canteiros, ouvi um grito lancinante e estranho, aterrador e perto. Não havia acordo em relação à proveniência, era de um pássaro e vinha das árvores, não, eu achava que não, vinha do chão e talvez não fosse um pássaro. Em casa parecia vir do interior, fora de casa percebia-se que era do exterior, e que vinha do chão, parecia ser um sinal, que poderia até emitir luz, ser um ovo de Marte depositado sobre a Terra, era bom não tentar demasiadamente encontrá-lo, era melhor a convivência pacífica, tu aí marciano, eu Jane jardinando, tu assobiando, eu também, a fazer de contas. Agora sei o que é, aqui chamam-lhe alarvão, um pássaro, mas como podem adulterar o nome, disse e muito bem o senhor que aqui trabalha (e que tem nome de Papa), ficou mais uma dúvida. Foi assim que descobrimos o Alcaravão (Burhinus oedicnemus), um pássaro pernalta, de olho amarelo, 40 cm de altura, de penas castanhas que se confundem com a terra, e os olhos amarelos, como os malmequeres do campo. Faz o ninho numa cova no chão, reveza-se por turnos a cuidar dos ovos( 2 a três em cada postura, pintados, para passarem despercebidos no solo), donde saem umas belezas riscadas de penugem preta e branca, que os pais defendem e alimentam. O assobio monocórdico, mais uma vez não é de Marte, é mesmo daqui, e na Primavera parece um chamamento, entristecido pela lonjura das planícies. Ainda não vi o Alcaravão, que teima em se fazer notar num pio insistente. Mas talvez já tenha estado perto, tão perto que o confundi com as folhas de choupo, esquecidas desde o Outono. Acasalam para a vida, referem os ornitólogos; assim sendo, poderá ser um canto de solidão.    

Sem comentários:

Enviar um comentário