Atalhos de Campo


26.4.15

Étoile























Aos Domingos descia a rua com um cão, uma cadela Chow-Chow de orelha curta e espetada, forte de osso e de mandíbula larga, cauda felpuda a dançar sobre o lombo, olhar míope emergindo das arcadas do scowl, andar rígido, característico, e focinho negro e brilhante, que sobressaía da vasta juba cor de canela. Encaminhavam-se a passo rápido, parecendo decididas a não perder a manhã, a sombra dos ginckos, a beleza estrelada das flores da sumaúma, a ala dos plátanos seculares, à sombra dos quais cresciam fetos arbóreos, o longo canteiro dos cactos e das piteiras, tatuadas a canivete pelos namorados. Depois de percorrer o jardim, de visitar o lago dos bambus, de contemplar uma vez mais a bela guardadora de patos, dava a volta ao coreto em ferro forjado, e sentava-se a tomar o pequeno-almoço, lendo o jornal com o cão aos pés, o mais perto possível do lago, onde os patos se entretinham a fazer o pino, desaparecendo debaixo de água, por entre o casal de cisnes de pescoço periscópico, e as carpas coloridas de bocas sempre ávidas, filtrando a superfície. Ouviam-na dizer, quando lhe telefonavam, que estava na Étoile. Levantava-se para dar mais uma volta antes de sair pelo portão principal, quando no relógio da basílica soava a uma hora. Primeiro desapareceu o cão, depois nunca mais ninguém a viu, mas ela, sempre que a olaia está em flor, lembra-se daquela tarde em que o cão, sentado em cima de centenas de flores caídas sobre a relva, a olhara parecendo sorrir, arfando de calor e de contentamento, com a língua pendente, do mesmo rosa envelhecido pela longínqua Primavera, que trouxera consigo da Mongólia.    

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