Atalhos de Campo


16.4.15

El quirófano, e el pantof de luz de luna de enero

O arrumador acabava de me colocar no lugar privativo, com direito a cortina de plástico, depois de me ter conduzido pelos corredores que andavam ao contrário da minha vontade, até ao elevador blindado, só para mim, que se abria para a antecâmara do bloco operatório. Por uma porta, de cor amarelo-limão, envidraçada à altura dos olhos, passavam seres diáfanos, longilíneos e femininos, para o mundo das bactérias e vírus, como aparições de El Greco, usando pijamas lisos e barretes às flores, e cujos dedos compridos e pálidos manipulavam agulhas, introduziam cateteres que queimavam as veias, que lhes tentavam fugir, fixando-os depois com adesivos à pele, pondo soros a correr, de composições químicas rebuscadas, gotejando controladamente, como torturas suspensas, e depois desapareciam em silêncio, sem lhes conseguirmos captar o olhar. Surgiu à minha cabeceira alguém que eu poderia confundir com um chef, o meu jejum prolongado começava a trazer-me miragens do suculento e tardio bife do Café de São Bento. Envergava um barrete com malaguetas, mas afinal era o anestesista, que me perguntou se eu tinha tido um problema com a telefonia, referindo-se ao rádio, o osso partido. E onde morava eu, perto de Évora?, em Évora come-se maravilhosamente, conhece o restaurante Luar de Janeiro, cheguei a ir de propósito lá jantar, mas eu não conhecia, e prometi, enquanto olhava de soslaio para a sua imponente barriga, já invejosa das iguarias, que lá iria, se lhe sobrevivesse, talvez numa noite de luar de Agosto. Marcou-me com um asterisco feito a caneta, do lado que eu confirmei que era para operar,(o braço estava imobilizado com uma tala gessada, mas podia dar-se o caso de ser o outro, o bom, o motivo da cirurgia). Quando ultrapassei a porta amarelo limão para o mundo esterilizado, apareceu um motard, apeado da sua Harley-Davidson, com barba grisalha e gorro com caveiras e fémures, parecendo encarregue do audio-visual de um mega concerto de rock, afinando a parafernália de aparelhos, ecrãs e botões, enquanto o homem da cabeça picante me injectava sonhos intra-venosos, à luz do lustre veneziano no centro do tecto, e eu, na minha pré-paralisia consciente, não conseguia deixar de me sentir ridícula, dentro das meias anti-tromboembolia rematadas por elástico nas coxas e culottes rendadas a condizer, que me tinham vestido por baixo da bata, e me faziam lembrar as montras da Pigalle. Ao fundo da sala, na parede de betão, apareceu de repente a enorme janela do Grande Auditório da Gulbenkian, para o jardim daquele fim de tarde em que Cecilia Bartoli cantou divinamente Maria Malibran. Quando acordei, o concerto tinha acabado, e o meu braço jazia sobre a cintura, pesado como um nado-morto, amortalhado num penso de Robert Jones. 

Nota posterior: A fractura foi grave, e a impossibilidade de reconstituição levou a que tivesse que ser colocada uma prótese da cabeça do rádio. Por ordem do cirurgião nunca tive o braço imobilizado, a não ser nas primeiras vinte e quatro horas. Ao segundo dia já tomava banho sozinha, ao terceiro conseguia comer com faca e garfo, ao quarto fui tirar fotografias para o campo, e ontem, aos oito dias, estive seis horas seguidas a jardinar, usando moderadamente o braço.(24/4/2015) 

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