Atalhos de Campo


5.4.15

A visita Pascal

Por esta hora talvez estivesse a chegar o padre. Um bom homem, já de meia idade, corria as freguesias complacente e a pé por recônditos caminhos, afogueado pelos paramentos, levando Cristo a todas as casas, abençoando todos os lares. Anunciava a sua presença com um toque de sineta, entrava com o sacristão e os mordomos, ficando uma enorme comitiva a aguardá-lo. Quando ali chegava já vinha esfalfado dos lados da ermida da Senhora dos Prazeres, e ainda tinha a aldeia à espera, por isso era breve. Lembro-me que essas visitas me impressionavam, e o alerta a todo o momento dos que estavam de vigia de - Vem aí o Sr Padre! - revestia a cerimónia de alguma ansiedade. O ritual era entre o sagrado e o profano, Cristo era oferecido a beijar, no meio de iguarias, bebidas e bênçãos, em ambiente de festa. Eu nunca sabia muito bem o que fazer com aquele corpo mutilado, confesso que se pudesse fugiria, tinha dúvidas em beijar-lhe os pés, os joelhos esfolados ou a coroa de espinhos, e o que poderia significar isso, essa urgência de sentir alguma coisa, e o que seria suposto sentir. Depois o cortejo lá seguia para a próxima casa, com o sacristão um pouco bebido, carregando o crucifixo, que era um perigo de saúde pública, mas certamente que Jesus faria o milagre de não disseminar bactérias e vírus, causando epidemias por esse país fora. Sei que nalguns concelhos ainda se fazem visitas pascais, mas fico com a sensação que a gestão das cerimónias religiosas, nas Igrejas e Paróquias, se assemelha cada vez mais a franchisings, com minutas de, tempos cronometrados, pró-formas que a pouco e pouco têm vindo a substituir as tradições. Há muitos anos, enquanto se iam acendendo as luzes da aldeia, no Domingo de Páscoa, e as visitas terminavam, parecia ter descido sobre as famílias uma paz na qual se acreditava, e eu deitava-me com a certeza de que Jesus ressuscitara, e de que isso era bom.  

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