Atalhos de Campo


30.4.15

a escada

Maio. Chegava sempre atrasado. Ainda não havia telemóveis, portanto ela ia esperando tranquilamente, tinha a certeza que ele vinha. Tocava à campainha e subia as escadas com ligeireza, de dois em dois degraus. As botas alentejanas com protectores nas solas, ecoavam como sapateado na escada iluminada pelas janelas altas, e pelos vitrais que filtravam a luz do fim da tarde, vigiando-lhe as pegadas inconfundíveis, marcadas na madeira primorosamente encerada. Ao nível do primeiro andar, passava a correr pelo painel de azulejos que dizia: Limpe os pés descuidadão, bem sei que não reparou, mas o seu peço perdão, não limpa o que já sujou, pelo tapete de cairo, e continuava a subir, sem reparar, num entusiasmo cego, nessa altura já a esconder o ramo de botões de rosa atrás das costas, talvez vinte, muito bem atadas com fio de sapateiro encerado, que ela já vira, com um sorriso, ao espreitar do alto da escada. Era Maio, ela tinha a certeza, porque Maio era o mês das rosas.                       

2 comentários:

  1. Que importa a sujidade num tapete quando se adivinha o perfume das rosas?

    Boa noite, Teresa. :)

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  2. Que importa, quando se leva o perfume?

    Bom mês de Maio, Maria. :)

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