Atalhos de Campo


30.4.15

a escada

Maio. Chegava sempre atrasado. Ainda não havia telemóveis, portanto ela ia esperando tranquilamente, tinha a certeza que ele vinha. Tocava à campainha e subia as escadas com ligeireza, de dois em dois degraus. As botas alentejanas com protectores nas solas, ecoavam como sapateado na escada iluminada pelas janelas altas, e pelos vitrais que filtravam a luz do fim da tarde, vigiando-lhe as pegadas inconfundíveis, marcadas na madeira primorosamente encerada. Ao nível do primeiro andar, passava a correr pelo painel de azulejos que dizia: Limpe os pés descuidadão, bem sei que não reparou, mas o seu peço perdão, não limpa o que já sujou, pelo tapete de cairo, e continuava a subir, sem reparar, num entusiasmo cego, nessa altura já a esconder o ramo de botões de rosa atrás das costas, talvez vinte, muito bem atadas com fio de sapateiro encerado, que ela já vira, com um sorriso, ao espreitar do alto da escada. Era Maio, ela tinha a certeza, porque Maio era o mês das rosas.                       

29.4.15

Nelken

Chegámos a casa, eu trazia comigo os cravos do palco de Pina, que ainda guardo, cravos de plástico made in China, pisados pelos bailarinos, cravos dançados, tornados relíquias. Foi nessa noite, antes de nos deitarmos, quando imitavas Dominique Mercy na perfeição, e nos ríamos tanto, ainda eufóricos com o espectáculo, que me fizeste lembrar de Tudo sobre a minha Mãe, e do horror da perda.

Dancem-me, até ao fim do amor



Penso que, para mim, é importante escolher bailarinos
que sejam seres humanos. É evidente que procuro seres
humanos portadores de um impulso que os leve a expri-
mirem-se com o corpo todo, um corpo que é preciso fa-
zer falar, com que eles querem falar.

Pina Bausch/ Pina Bausch: Falem-me de Amor
Um colóquio
                        
                         *

No bailado há uma coisa que me comove e que é, apesar
de tudo, um dos seus símbolos: aquela perpétua tentati-
va, e sempre frustrada , de levantar voo.

Federico Fellini

notícias da quinta (2)

Nymphaea alba






















Acordam alvas ninfas no jardim 
Quando adormecem da-noite-rainhas,
As flores intensas e brancas- do jasmim.

27.4.15

o crochet e a batalha naval

Ressentimentos abertos, e fechados
labirínticos mares  
por secretos submarinos navegados
em cérebros matemáticos
doces lares 
com brilhantes cabelos disfarçados,
e alegres decorações. 
De pauzinhos a três, e a dois,
porta-aviões, barcos de quatro lugares
na ponta dos belos indicadores
assomam guerras
ocultos amores,
e sobre novelas 
jazem bélicos napperons,
feitos de entrelinhas às cores.   
É PRECISO REABILITAR O CROCHET,
estava escrito à janela da Casa do Povo.
Chochet que rima com psishé
(e penteadeira)
E não é que a Joana se lembrou
de vestir o par-lamento,
em ruidosa ovação,
E a Adília, que é de outra família
fechou os ministros lá dentro
com nós cegos
e pregadeiras,
e se riu muito,
das suas asneiras.

26.4.15

Étoile























Aos Domingos descia a rua com um cão, uma cadela Chow-Chow de orelha curta e espetada, forte de osso e de mandíbula larga, cauda felpuda a dançar sobre o lombo, olhar míope emergindo das arcadas do scowl, andar rígido, característico, e focinho negro e brilhante, que sobressaía da vasta juba cor de canela. Encaminhavam-se a passo rápido, parecendo decididas a não perder a manhã, a sombra dos ginckos, a beleza estrelada das flores da sumaúma, a ala dos plátanos seculares, à sombra dos quais cresciam fetos arbóreos, o longo canteiro dos cactos e das piteiras, tatuadas a canivete pelos namorados. Depois de percorrer o jardim, de visitar o lago dos bambus, de contemplar uma vez mais a bela guardadora de patos, dava a volta ao coreto em ferro forjado, e sentava-se a tomar o pequeno-almoço, lendo o jornal com o cão aos pés, o mais perto possível do lago, onde os patos se entretinham a fazer o pino, desaparecendo debaixo de água, por entre o casal de cisnes de pescoço periscópico, e as carpas coloridas de bocas sempre ávidas, filtrando a superfície. Ouviam-na dizer, quando lhe telefonavam, que estava na Étoile. Levantava-se para dar mais uma volta antes de sair pelo portão principal, quando no relógio da basílica soava a uma hora. Primeiro desapareceu o cão, depois nunca mais ninguém a viu, mas ela, sempre que a olaia está em flor, lembra-se daquela tarde em que o cão, sentado em cima de centenas de flores caídas sobre a relva, a olhara parecendo sorrir, arfando de calor e de contentamento, com a língua pendente, do mesmo rosa envelhecido pela longínqua Primavera, que trouxera consigo da Mongólia.    

25.4.15

folhas soltas

Durante três meses precisei de caminhar sozinha pelos meus atalhos. Ao longo desse tempo percebi que um texto, qualquer texto, carece de trabalho e de silêncio para amadurecer, até estar pronto para o libertarmos, e se tornar numa entidade independente, para cada pessoa que o ler. Talvez alguns tenham atingido esse objectivo, outros certamente que não, mas de uma coisa tenho a certeza, gostei muito desta experiência, embora sinta que tenho ainda um longo caminho a percorrer. Os atalhos de campo começaram em Maio de 2014, e vão continuar, sempre que me apeteça sair da estrada principal. 

vinte e cinco branco


























Perguntei ao meu avô o que eram os vermelhos, quando li Tolstoi, e ele, monárquico e até um pouco germanófilo, vermelho só havia um, o seu Benfica, de que era adepto ferrenho, e a cor do BMW( porque é que os homens, costumam escolher carros da cor dos clubes de futebol, nunca percebi), respondeu-me explicando muito bem, o que era a esquerda e a direita, e o centro, o parlamento e as ideias, as causas, as consequências, a História, de que era muito sabedor. Eu assimilei essa sabedoria como matemática em estado puro, em casa nunca assisti a machismos, ou a faltas de respeito pelos empregados, antes pelo contrário, e fui vivendo no limbo os conceitos apreendidos. O vinte e cinco de Abril aconteceu-me quando era adolescente, idealista, e, sem aparente explicação, instalou-se-me na alma uma euforia, uma alegria revolucionária, uma adesão à rua, à igualdade, à fraternidade, à libertação dos presos políticos, à música, à paz. Entrei pela esquerda de olhos fechados, com o coração, pus a razão ao lado da democracia, a minha excepção na família próxima trouxe-me alguns dissabores, nada demais, ninguém me proibiu nada, uma vez distribuí um planfleto ao meu pai, que me disse baixinho, à porta da Casa Inglesa, vem lá dentro tomar uma Coca-cola, para conversarmos. Tivemos todos muito tempo para aprender a conduzir exemplarmente aquilo que outros tinham iniciado, mas passados os primeiros anos, e sem saber bem exactamente qual o momento em que derrapou, foi-se-me instalando, enraizando, florindo, digo bem, uma enorme decepção, e digo florindo porque quem teve a sorte de viver aqueles dias e anos de Abril, se engrandeceu como pessoa. Agora cultivo cravinas, algumas vermelhas, outras brancas e perfumadas, com esse tempo intacto na memória, uma aventura, branda e morena, à espera que um neto, ou uma neta, me façam a mesma pergunta que formulei há mais do de quarenta anos, num dia de Primavera.   

22.4.15

Beleza

Quem é escolhido pela beleza, é substituído pela beleza.

A noite da Terra


(...)
Elle connaissait les sourires de cet homme, ses précautions d'amant, mais non, dans l'orage, ses divines colères. Elle le chargeait de tendres liens: de musique, d'amour, de fleurs; mais, à l'heure de chaque départ, ces liens, sans qu'il en parût souffrir, tombaient. 
(...)
Elle restait là. Elle regardait, triste, ces fleurs, ces livres, cette douceur, qui n'étaint pour lui qu'un fond de mer.
(...)
Saint-Éxupéry/ Vol de nuit

21.4.15

notícias da quinta (1)

o dinheiro da venda dos ovos, é guardado no velho estojo do clarinete, até chegar ao Adagio de Mozart

no meio das papoilas

19.4.15

por entre a aveia


























Saias rodadas escondem 
os rostos corados por entre a aveia
de jovens papoilas ao vento.


pelas feridas das papoilas


Contempla o campo semeado,
onde as searas parecem,
ao inclinar-se diante do vento,

esquadrões de cavalaria,
que fogem derrotados,
sangrando pelas feridas das papoulas.

Ibn ´Ijâd (1083-1149)/As Searas
Tradução David Mourão-Ferreira


Papoilas








18.4.15

tacícula

Se eu soubesse que tinha uma tacícula
de porcelana Imari 
no topo da articulação
teria o dobro do cuidado
parti-a, distraída
tirando água do lago.
O restauro estava fora de questão,
e outra igual, não havia no Japão.
Mas eis que o cirurgião, desesperado
ao limpar todos os cacos,
se lembrou da solução:
uma nova taça, em aço escovado.

Cf. Rolo da massa/Atalhos ao sol(12/11/14)
  

16.4.15

os gatos


Do alto dos seus templos intactos 
celebram sete vezes o corpo
e lavam sua alma única, os gatos.


El quirófano, e el pantof de luz de luna de enero

O arrumador acabava de me colocar no lugar privativo, com direito a cortina de plástico, depois de me ter conduzido pelos corredores que andavam ao contrário da minha vontade, até ao elevador blindado, só para mim, que se abria para a antecâmara do bloco operatório. Por uma porta, de cor amarelo-limão, envidraçada à altura dos olhos, passavam seres diáfanos, longilíneos e femininos, para o mundo das bactérias e vírus, como aparições de El Greco, usando pijamas lisos e barretes às flores, e cujos dedos compridos e pálidos manipulavam agulhas, introduziam cateteres que queimavam as veias, que lhes tentavam fugir, fixando-os depois com adesivos à pele, pondo soros a correr, de composições químicas rebuscadas, gotejando controladamente, como torturas suspensas, e depois desapareciam em silêncio, sem lhes conseguirmos captar o olhar. Surgiu à minha cabeceira alguém que eu poderia confundir com um chef, o meu jejum prolongado começava a trazer-me miragens do suculento e tardio bife do Café de São Bento. Envergava um barrete com malaguetas, mas afinal era o anestesista, que me perguntou se eu tinha tido um problema com a telefonia, referindo-se ao rádio, o osso partido. E onde morava eu, perto de Évora?, em Évora come-se maravilhosamente, conhece o restaurante Luar de Janeiro, cheguei a ir de propósito lá jantar, mas eu não conhecia, e prometi, enquanto olhava de soslaio para a sua imponente barriga, já invejosa das iguarias, que lá iria, se lhe sobrevivesse, talvez numa noite de luar de Agosto. Marcou-me com um asterisco feito a caneta, do lado que eu confirmei que era para operar,(o braço estava imobilizado com uma tala gessada, mas podia dar-se o caso de ser o outro, o bom, o motivo da cirurgia). Quando ultrapassei a porta amarelo limão para o mundo esterilizado, apareceu um motard, apeado da sua Harley-Davidson, com barba grisalha e gorro com caveiras e fémures, parecendo encarregue do audio-visual de um mega concerto de rock, afinando a parafernália de aparelhos, ecrãs e botões, enquanto o homem da cabeça picante me injectava sonhos intra-venosos, à luz do lustre veneziano no centro do tecto, e eu, na minha pré-paralisia consciente, não conseguia deixar de me sentir ridícula, dentro das meias anti-tromboembolia rematadas por elástico nas coxas e culottes rendadas a condizer, que me tinham vestido por baixo da bata, e me faziam lembrar as montras da Pigalle. Ao fundo da sala, na parede de betão, apareceu de repente a enorme janela do Grande Auditório da Gulbenkian, para o jardim daquele fim de tarde em que Cecilia Bartoli cantou divinamente Maria Malibran. Quando acordei, o concerto tinha acabado, e o meu braço jazia sobre a cintura, pesado como um nado-morto, amortalhado num penso de Robert Jones. 

Nota posterior: A fractura foi grave, e a impossibilidade de reconstituição levou a que tivesse que ser colocada uma prótese da cabeça do rádio. Por ordem do cirurgião nunca tive o braço imobilizado, a não ser nas primeiras vinte e quatro horas. Ao segundo dia já tomava banho sozinha, ao terceiro conseguia comer com faca e garfo, ao quarto fui tirar fotografias para o campo, e ontem, aos oito dias, estive seis horas seguidas a jardinar, usando moderadamente o braço.(24/4/2015) 

12.4.15

h(ortopedia)

hoje, Domingo, parti o braço esquerdo, enquanto andava a jardinar. agora tenho o braço imobilizado com a prata da casa: uma tala para cão, fixada com dois punhos elásticos, um cinto largo de algodão, de umas velhas calças, que o suspende ao peito, e um saco de ervilhas congelado, sobre o cotovelo). amanhã volto para as mãos dos ortopedistas, profissão com algumas técnicas semelhantes às que uso no jardim; e na horta.

ser e não ser

tenho estado para aqui enclausurada nos textos, escreve, emenda, lê; emenda, apaga, escreve, o que me faz pensar que o talento não dá trabalho nenhum. se os meus dedos fossem alfabéticos como os da Sylvia Plath, já tinha concluído isto há muito, mas como nasci no mesmo dia que ela, devo ter herdado no mínimo a sua teimosia, tão característica do simpático escorpião... 

Asas

11.4.15

Delichon urbicum



venho falar-te de amor

Sei que nunca te disse isto. Esta manhã, enquanto o concerto de Beethoven fugia pelas janelas, e o sol quente se entranhava na terra perfumada acordando as sementes, senti o quanto te amo. Não tentes tirar vantagem disso, este é um amor de pequenos gestos e de nadas, de olhos e de mãos, de pássaros escondidos que cantam alto e voam o mais alto que podem, porque só sabem voar. Flutua o amor sobre as folhas de nenúfar, treme no primeiro verde dos freixos, é ninho antes da postura escondido entre a folhagem, perfeito como uma pequena obra de arte. Tenho para te oferecer os botões das rosas de que não sei a cor, o rosmaninho que floriu sem eu dar por isso, as frésias que tombaram na terra pelo peso das flores cheias de chuva. Um dia, há quase cem anos, ela, ainda muito jovem, plantou a palmeira, e ofereceu-a ao céu, às andorinhas, ao luar, à casa caiada  com o pé do azul secreto dos seus olhos; não poderíamos saber que quando morresse, a palmeira também morreria. Ainda na Primavera passada, fiel ao seu posto(o centro da janela do quarto que era o teu), brilhava ao sol, protectora como um pára-raios, abrigo para dezenas de pássaros ao anoitecer. Morreu, devagar e inteira. Primeiro abateu-se o lado que dá para a curva da estrada, e as folhas aproximaram-se tristemente do tronco como braços cansados, enquanto as que estão voltadas para a casa se mantiveram erguidas a liderar o vento, fazendo-se escutar ao longe, como um almuadem no minarete de outros tempos. Secou paulatinamente, ostentando com feroz dignidade as pontas aguçadas junto ao tronco, em defesa dos cachos de frutos que ainda restavam, até que por fim, já exausta, se foi deixando cair. Quando há dias o centro ruiu lá do alto e se desfez sobre a relva, reparei que no canteiro, por entre as túlipas e o alyssum, havia renascido um pequeno palmar, que ela própria semeara. Faltará provar a semelhança entre o código genético de certas árvores e o de alguns homens. 

Para a Inês e para o Eduardo, que tinham uma bisavó que gostava de árvores altas, de flores do campo, e da terra onde plantou esta palmeira
Em memória da minha avó, que morreu faz hoje quinze anos

10.4.15

o misterioso pio do entardecer

Ao crepúsculo começa a ouvir-se uma espécie de assobio, monótono, cadenciado. No Guia das Aves está escrito melancólico. A primeira vez fiquei muito intrigada, pareceu-me um som de electrónica, mas era pouco possível, quase tão pouco como ser de um pássaro. Andei à procura, afinando o ouvido, vi debaixo do banco junto ao lago, no canteiro da cica, que à altura tinha folhas e ervas, junto à sebe de heras e vinha virgem, e nada. Concluí que se calava com a proximidade(talvez, não de certeza), o que parecia excluir a hipótese da electrónica. O assobio ia-se estendendo pelo anoitecer, e uma vez enquanto me fui deixando ficar, aproveitando a lua para continuar de volta dos canteiros, ouvi um grito lancinante e estranho, aterrador e perto. Não havia acordo em relação à proveniência, era de um pássaro e vinha das árvores, não, eu achava que não, vinha do chão e talvez não fosse um pássaro. Em casa parecia vir do interior, fora de casa percebia-se que era do exterior, e que vinha do chão, parecia ser um sinal, que poderia até emitir luz, ser um ovo de Marte depositado sobre a Terra, era bom não tentar demasiadamente encontrá-lo, era melhor a convivência pacífica, tu aí marciano, eu Jane jardinando, tu assobiando, eu também, a fazer de contas. Agora sei o que é, aqui chamam-lhe alarvão, um pássaro, mas como podem adulterar o nome, disse e muito bem o senhor que aqui trabalha (e que tem nome de Papa), ficou mais uma dúvida. Foi assim que descobrimos o Alcaravão (Burhinus oedicnemus), um pássaro pernalta, de olho amarelo, 40 cm de altura, de penas castanhas que se confundem com a terra, e os olhos amarelos, como os malmequeres do campo. Faz o ninho numa cova no chão, reveza-se por turnos a cuidar dos ovos( 2 a três em cada postura, pintados, para passarem despercebidos no solo), donde saem umas belezas riscadas de penugem preta e branca, que os pais defendem e alimentam. O assobio monocórdico, mais uma vez não é de Marte, é mesmo daqui, e na Primavera parece um chamamento, entristecido pela lonjura das planícies. Ainda não vi o Alcaravão, que teima em se fazer notar num pio insistente. Mas talvez já tenha estado perto, tão perto que o confundi com as folhas de choupo, esquecidas desde o Outono. Acasalam para a vida, referem os ornitólogos; assim sendo, poderá ser um canto de solidão.    

9.4.15

a voz

- Tem o meu número?- perguntou.
-Tenho, e por acaso já lhe tentei ligar uma vez, para o avisar que não podia vir à consulta, fui operada no mesmo dia, mas não me chegou a atender...
- Ah, isso deve ter sido porque não registei o seu número. Já sabe, se precisar liga-me - dizia-me, enquanto testava se o número que eu lhe dera estava correcto, telefonando-me.
Mas eu fiquei curiosa com aquela lista telefónica, misto de doentes, família e amigos, e quis saber como reconhecia as pessoas, se à frente do nome punha o diagnóstico... Ele respondeu-me, pela voz, que era pela voz que reconhecia as pessoas. 

7.4.15

glicínias
























há um perfume, fica a dúvida, se vem dos junquilhos e é da terra, se vem das glicínias, e é do céu

o ninho




















































Entregou-me o ninho com um sorriso, e disse:- Este foi acabado de fazer, ainda não está sujo, caiu da árvore, não ficou bem preso e voou com o vento. Deve ser de pintassilgo. Peguei-lhe, maravilhada com a perfeição: as várias camadas de gravetos e de folhas, os filamentos enrolados, ao centro, o edredon de penas, por fim. Trabalho perdido, lamentei com o ninho entre as mãos,  e pensei se teriam ainda tempo para fazer outro. O senhor Bonifácio, continuou:- Há quem os vá buscar às árvores, com os passarinhos acabados de nascer. Põem o ninho numa gaiola, perto da árvore onde estava, com a porta aberta. Os pais entram e saem e continuam a alimentá-los até crescerem. Antes que comecem a voar levam a gaiola, os pintassilgos são muito cobiçados, afirmou. Ai sim, disse eu, e o que lhes dão para comer?, os pintassilgos gostam de cardos...O Sr Bonifácio respondeu que lhes dão alpista, e depois acrescentou que os pais voltam mais uns dias ao sítio onde estava pendurada a gaiola, até se desimaginarem. - Tem que se fazer assim, acrescentou, porque senão eles sentem os filhos presos e matam-nos, dando-lhes a comer uma semente venenosa.     

5.4.15

A visita Pascal

Por esta hora talvez estivesse a chegar o padre. Um bom homem, já de meia idade, corria as freguesias complacente e a pé por recônditos caminhos, afogueado pelos paramentos, levando Cristo a todas as casas, abençoando todos os lares. Anunciava a sua presença com um toque de sineta, entrava com o sacristão e os mordomos, ficando uma enorme comitiva a aguardá-lo. Quando ali chegava já vinha esfalfado dos lados da ermida da Senhora dos Prazeres, e ainda tinha a aldeia à espera, por isso era breve. Lembro-me que essas visitas me impressionavam, e o alerta a todo o momento dos que estavam de vigia de - Vem aí o Sr Padre! - revestia a cerimónia de alguma ansiedade. O ritual era entre o sagrado e o profano, Cristo era oferecido a beijar, no meio de iguarias, bebidas e bênçãos, em ambiente de festa. Eu nunca sabia muito bem o que fazer com aquele corpo mutilado, confesso que se pudesse fugiria, tinha dúvidas em beijar-lhe os pés, os joelhos esfolados ou a coroa de espinhos, e o que poderia significar isso, essa urgência de sentir alguma coisa, e o que seria suposto sentir. Depois o cortejo lá seguia para a próxima casa, com o sacristão um pouco bebido, carregando o crucifixo, que era um perigo de saúde pública, mas certamente que Jesus faria o milagre de não disseminar bactérias e vírus, causando epidemias por esse país fora. Sei que nalguns concelhos ainda se fazem visitas pascais, mas fico com a sensação que a gestão das cerimónias religiosas, nas Igrejas e Paróquias, se assemelha cada vez mais a franchisings, com minutas de, tempos cronometrados, pró-formas que a pouco e pouco têm vindo a substituir as tradições. Há muitos anos, enquanto se iam acendendo as luzes da aldeia, no Domingo de Páscoa, e as visitas terminavam, parecia ter descido sobre as famílias uma paz na qual se acreditava, e eu deitava-me com a certeza de que Jesus ressuscitara, e de que isso era bom.  

Domingo de Páscoa

 

O cordeiro Pascal

Josefa de Óbidos
Museu de Évora

4.4.15

fricassé de pescada

Ontem, Sexta-feira Santa, era já de noite quando entrei em casa, depois de três horas de jardinagem. O jardim começa a recompor-se e deu as duas primeiras rosas amarelas. Terminei com uma rega porque achei que íamos ter mais um dia sem chuva, e não me arrependi, hoje esteve um dia particularmente quente. A lua, acabada de se levantar no lugar onde o sol nascera, parecia um gato amarelo, enorme e tranquilo enroscado no horizonte, a acordar com as vozes que enchem a casa por estes dias, depois do recolher perfumado pelos primeiros cachos de glicínia, pela lavanda molhada, e pelas frésias. Enfiei-me na cozinha já atrasada, a pescada tinha um aspecto tão fresco que quase apetecia cozê-la e pronto, mas os miúdos não gostam de peixe, muito menos cozido, por isso lá deitei mãos à obra e preparei um fricassé. Correu tudo muito bem até quase ao fim, quando juntei as gemas sem as misturar bem com o limão. O resultado foi ver o ovo a cozer às farripas e o molho a ficar aguado, com um aspecto horrível. Mas resolvi não desistir de salvar o jantar, aumentei o lume e com a colher de pau fui mexendo sempre por entre as postas, até concentrar mais o molho. O resultado foi um elogio, servido com puré de batata e uma belíssima salada de alface e coentros. A quinta já vai dando tudo, menos pescadas.

boas intenções...

3.4.15

a quinta emenda

este blogue rege-se pelo princípio da recíprocidade:
não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. 
                             *
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles
Sermão da Montanha Mateus 7.12

Pessach



























gosto da ideia de Páscoa como festa de libertação. Quantas vezes comi pão ázimo por me ter esquecido do fermento, ou pão do coração, e me pus a caminho para lugares onde nunca cheguei; quantas vezes deixei a minha passagem assinalada com lírios sobre portas que não eram as minhas, e onde nunca mais voltei, quantas me ficou na boca o sabor amargo das ervas


gosto dessa ideia de passagem, uma ideia já muito antiga e da sua palavra, pessach, e também de anastasis, erguer, levantar

2.4.15

A Visita



Surpreendente, Manoel de Oliveira deixou um filme 
inédito guardado mais de trinta anos, com o título 
«Visita ou Memórias e Confissões», para ser exibido 
apenas após a sua morte, por ter carácter pessoal. 
Fica-se com uma ideia da importância que ele dava 
à privacidade. 

Para mim, a não perder. 

Garden party



Belo

rendição



Rendição









Campo dei Fiori


Não sei que tempo duram as frésias
a rendição de um corpo
é sempre tão inesperada

José Tolentino Mendonça/Campo dei Fiori
De Igual para Igual

Frésias







1.4.15

o dia das petas

Todas as pessoas mentem, mentiras inofensivas e até caridosas; li algures que dizemos, em média, vinte mentiras(dessas) por dia; mas conheci algumas pessoas(poucas, felizmente), especializadas em mentiras, de tal modo que hoje devem estar a comemorar o próprio dia, em verdade.

viver no campo

E viver no campo é: acordar em sobressalto com o grito dos pavões, em vez da sirene das ambulâncias; observar dois estorninhos e três pintassilgos em coexistência pacífica no meio do prado amarelo, em vez de usar os binóculos para espiar os vizinhos da frente; fotografar as flores deitada na relva, em vez de fugir aos olhos reprovadores da cidade sem conseguir tirar fotografia nenhuma; plantar gerânios em vasos, em vez de ter flores de plástico nas varandas; apanhar a fruta(e o bicho) das árvores, em vez de comprar fruta estragada (e sem bicho), no supermercado; chegar a casa com uma carraça na perna, em vez de ter uma carraça à perna; encontrar um sapo no hall de entrada, em vez de publicidade ao SAPO; ter um gafanhoto pela manhã no abat-jour do candeeiro, em vez de ir levando com gafanhotos ao longo do dia; ver uma víbora no alpendre, em vez de ser mordida por uma, sem nunca a ter visto; salvar um ratinho na piscina, em vez de dar um gritinho em casa a pedir que o matem; não ter um vizinho giro a quem pedir um limão, por já não saber o que fazer aos limões; ter o colesterol elevado por comer demasiados ovos biológicos, em vez de ter o colesterol elevado por comer demasiado fora... 
(continua?)



(...)