Atalhos de Campo


25.3.15

Os Bicos-de-lacre


Deparara com aquilo no regresso da praia. 

Era fim de Setembro e as manhãs já tinham esfriado, mas a partir das onze horas o sol começava a penetrar por entre os galhos dos pinheiros mansos, envernizando-lhes as pontas aguçadas que brilhavam como aço, parecendo acendalhas em redor da casa. A essa hora ia buscar a gaiola feita em canas macias com dois bicos-de-lacre, e pendurava-a num ramo acessível. O seu pimpepin piepepen, cueen, cueen, cueen monótono, era apaziguador, gostava daquele canto enrouquecido e exótico na frescura das sombras, enquanto se entretinha a brincar com o filho de dois anos, numa manta estendida sobre a relva. 

Mas naquele dia tudo fora um pouco precipitado, a maré estava de feição, e decidira acompanhar o António no último minuto, esquecendo-se da gaiola pendurada no jardim. Na praia extensa e deserta, tinha feito uma caminhada contra o vento, de pés descalços sobre a areia lisa, enquanto o marido colocava as canas de pesca, e lançava os anzóis iscados com casulo para bem longe, entrando nas ondas pequenas da rebentação com botas de borracha. À volta o olhar fixara-se-lhe nas silhuetas sumidas na neblina de areia, seguindo os movimentos da criança, sentada perto da caixa de pesca a brincar com o balde - o chapéu de lona branca ainda enterrado na cabeça, e a camisola de lã grossa arregaçada nas mangas - enquanto António esperava, atento ao mar. 

Já estava perto quando ele correu para uma das canas de pesca, vergada pelo peso da captura. A linha cortava o ar em elipses iridescentes, enquanto o carreto, ora enrolando, ora desenrolando o fio em etapas precisas, puxava ou dava tréguas ao peixe, num jogo de músculos, pernas flectidas, barbatanas a lutar contra a corrente, bolhas de ar afligindo-se à superfície, pegadas na areia avançando, recuando e desaparecendo nas ondas, a coluna vertebral a contrariar a força oceânica, enquanto a cana de pesca, atraída pela magia do mar, mais parecia uma vara segura pelas mãos de um vedor que dominasse habilmente o spinning, ignorando o medo de partir a linha. No fim da esgrima de maxilares serrados entre ambos, surgiu a cabeça, e o corpo metalizado e brilhante de um robalo, deslizou como uma espada obediente, rasgando a água até à orla de finas rugas da maré vaza. O pescador segurou feliz no troféu, retirou-lhe o anzol da boca em apneia, fazendo planos para o jantar perante a excitação do garoto, que batia palmas e espalhava alegria pelo vento. Continuaram na praia para assistir ainda a um encore, que aconteceu pouco antes do regresso. No calor aconchegante do automóvel, um último relance garantia que a conquista dos robalos apaziguara a imensidade Atlântica, onde fora sacrificada uma laranja, derramando sangue e maresia à tona acutilante do poente.

Quando chegaram a casa, tinha anoitecido.

A gaiola abandonada no jardim era um espectáculo desolador, uma sombra incompleta que a fragilidade dividira ao meio, a cúpula a balouçar pendurada no ramo, enquanto a parte inferior fora arrastada pelo vento até ficar presa num tronco. Dos pássaros nem vestígio. Teresa voltou a montar a gaiola, olhando em redor com desalento. Temendo o pior, imaginava os passarinhos na boca de um gato, ou a morrerem de frio e fome, mas, num súbito acesso de esperança, manteve-a pendurada no mesmo sítio. Encheu o comedouro, colocou novamente água, e deixou a porta aberta, admitindo que pudessem entrar quando tivessem fome. No dia seguinte nem queria acreditar quando viu os bicos-de-lacre lá dentro, a saltar de poleiro em poleiro, piando no frio da madrugada.   

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