Atalhos de Campo


8.3.15

Olhos azuis, cabelo branco


Reinar pelo coração é ter o coração 
nas Mãos e entornar bondade 
e Misericórdia à sua volta, 
sem medida, sem cansaço e...
sem olhar a quem!  Maria Borges do Canto


O cabelo escuro já encanecera, mas recordo-me muito bem dos seus olhos muito azuis e da pele muito branca. No ano passado achei interessante uma coisa que li, escrita por Tolentino Mendonça no Atual: quando deram a escolher a um grupo de crianças salvar apenas dez pessoas num barco, a grande maioria escolheu em primeiro lugar salvar os avós. Talvez tenha sido a mesma razão que me levou hoje, no Dia da Mulher, a pensar primeiro na minha avó materna. Tento em vão descobrir em mim características herdadas dessa mulher abundante(em todos os sentidos), crente, de génio, teatral, expansiva, alegre, de gargalhada fácil, e de lágrima também, amante, amiga, e com muitos amigos, porque detestava estar só (se fosse hoje teria quinhentos amigos no Facebook, embora fizesse muito bem a distinção entre amigos e conhecidos). A minha avó era boa, porque praticava a bondade, era generosa com toda a gente, era essa a sua postura perante a vida, - Pega, era a sua palavra, dar, o seu desígnio, e tanto podia ser um abraço, como um almoço, como ajuda monetária, como um quarto para pernoitar, como atenção, como um conselho, como um tabefe. Não consigo dizer quantas pessoas lhe passaram pela vida, nem por quantas vidas ela passou. Para os sobrinhos era a tia boa, e não havia festa sem jogos, sem teatros, sem canções. 


Educada como interna no Colégio de Odivelas, era a terceira rapariga de sete irmãos que perderam a mãe muito cedo. Defendia a educação esmerada das meninas, por isso enquanto vivi com os meus avós, em adolescente, aprendi (e com que sacrifício) a bordar, a coser, a tricotar e a usar convenientemente uma saia, mas também a rezar, a agradecer, a partilhar. Em casa, pondo em prática as tecnologias que aprendera no colégio, fazia-se manteiga com a nata do leite, enchidos e presunto quando era a matança do porco, conservas em calda, doces, marmelada. Durante o período de aulas permanecíamos na Pampilhosa, mas o Natal era passado em Lisboa, os Verões e alguns fins-de-semana na Praia de Mira, a Páscoa e as vindimas em Setembro, no campo. Havia sempre muita gente a ajudar, uma costureira que nos fazia a roupa e os arranjos, uma ou duas empregadas internas e uma mulher a dias. Nunca vi a minha avó pegar num pano do pó, no entanto adorava cozinhar e tinha sempre um trabalho de tricot entre mãos. A sua enorme sensibilidade reflectia-se nos poemas que fazia, quase sempre dedicados ao meu avô (que ela adorava), e aos netos; quando queria dizer alguma coisa em privado era usual fazê-lo em francês, rematando com à cause des enfants. 



Por alguma razão inexplicável tinha especial perspicácia para perceber quem estava com problemas, ou precisava de ajuda. Pertenceu à Obra das Mães, trabalhou como chefe de Secretaria do liceu de Luanda, e a boa relação que mantinha com as alunas valeu-lhe o convite para encabeçar e orientar, mais do que uma vez, os cruzeiros que se fizeram ao continente com as raparigas dos liceus de Angola, organizando a maioria das actividades. Voltei a viver com a minha avó quando fui para a faculdade. O meu avô tinha entretanto morrido, e ela mudara-se definitivamente para Lisboa. A viuvez, a idade a avançar, e alguma falta de saúde, deixaram-na melancólica e mais carente. Nessa altura a nossa ligação estreitou-se bastante. Vivíamos só as duas, apoiando-nos uma à outra. Lembro-me que se preocupava porque eu comia pouco, e me fazia bolos deliciosos que colocava estrategicamente perto da mesa onde eu estudava. Foram tempos tranquilos e felizes. 


No mês em que ia fazer noventa anos, adoeceu gravemente e teve que ser hospitalizada. Ao sair de casa disse-me com lágrimas nos olhos que já não ia voltar. Entrou em coma depois da segunda intervenção cirúrgica, morrendo pouco depois. Quando o carro funerário chegou a Alcafache, a sua terra natal, foi rodeado por uma procissão comovente da Nossa Senhora dos Prazeres conduzida pelo padre da freguesia, que ostentava a faixa da Irmandade a que ela pertencera, por caminhos entre aldeias e muros de pedra, orientando os cânticos e as orações de homens e mulheres, que brotavam como a água nas Beiras, límpida e fresca das fontes de granito, se escapavam como as lágrimas, por entre as casas para o ar lavado da paisagem e se perdiam, arrastadas pelo vento agreste desse dia, nas vinhas antigas, pequenas hortas, quintas e olivais seculares. A Igreja austera não foi suficiente para acomodar todos os que lhe quiseram prestar a última homenagem, na missa mais bonita a que já assisti e que terminou com a Salve Rainha, a sua oração preferida. Foi nessa manhã fria de Abril carregada de nuvens densas, tão diferentes dos seus olhos, que tomei consciência de como tanta gente sentira a sua perda, e eu mais que toda a gente, por ter sido a sua menina grande.

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