Atalhos de Campo


29.3.15

Diáfano


























Dançam borboletas hesitantes
Poisam laboriosas abelhas
Ao sol desbotam flores


Saímos da herdade das Murteiras e fomos descendo devagar com o atrelado, pela estrada em terra batida até ao fim da propriedade. Lá no alto estava mais fresco, as andorinhas faziam acrobacias aéreas em volta das chaminés do monte em ruínas, e do antigo forno onde tinham construído os ninhos. Um miradouro natural mostrava terras e montados perdidos pelo olhar dentro, até que a muralha levantara a linha do horizonte e nela erguera uma cidade, sobranceira ao vasto condado. O pastor tinha escolhido e carregado as seis borregas de chanfro sarapintado pelo castanho do outro condado, o de Suffolk (Inglaterra), e agora apontava para tão longe quanto a memória lhe lembrava, agasalhado com o pelico que só vai tirar na próxima tosquia. Ali ficou parado a despedir-se, onde o tempo por momentos também nos parou. Invejei-lhe o pelico, hei-de ter um, e umas botas alentejanas, e um chapéu como o dele, que deixa o rosto trigueiro e os olhos sem fundo. Ao passarmos pelos prados da Lázara, estremeciam lírios azuis virados para o sol poente, o campo parecia o de Ipswich(onde Mrs Lylibanks de Highsmith observava os pássaros, recordas-te?), lembrei-me do chapéu de Mija(Yoon Jeong-hee) a deslizar pelo rio fora, do seu caderninho sem palavras, como as gotas de chuva, dos poemas que deixara pendurados pelas folhas das árvores, do cão que já não brincava com a criança, porque a criança já tinha morrido. As borregas foram compradas a bom preço, a preço de carne, mas quando chegámos correram em liberdade até se juntarem às outras, que pareciam esperá-las. Valem o mesmo que seis pares de Converse All Star, dos mais baratos, lá para a cidade. Mas aqui valem as cangochas que derem os filhos delas, nas brincadeiras da próxima Primavera. 


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