Atalhos de Campo


13.3.15

mãos à obra

Nunca pude ficar doente, ou nunca fiquei doente a sério. Lembro-me de várias fases da minha vida em que me apeteceu adoecer só para que alguém cuidasse de mim, mas a verdade é que me arriscaria a ter que ser eu própria a fazê-lo. Por isso fui adiando, dei consultas com febre, negligenciei exames médicos, curei gripes em quarenta e oito horas, não me lembro de ter faltado um dia. 


Tive que sobreviver num mundo competitivo e masculino com a expressão *é uma médica* na ordem do dia, curiosamente dita sobretudo por mulheres. Hoje é um problema que penso que já não existe, que as mulheres já não desconfiam da sua capacidade para exercer medicina veterinária, profissão em que somos maioritárias, ou então já se habituaram. Mas nem sempre foi assim, a consideração era conquistada a pulso, a competência posta em causa, com o espectro da comparação masculina sempre iminente, por vezes acintosamente. Conciliar a exigência do trabalho com um filho a crescer (até ao metro e oitenta e...oito?!), e uma casa para gerir (com os horários e as dificuldades económicas), foi uma luta que durou anos. Tive que prescindir das folgas e das férias e trabalhar em mais do que uma clínica, para poder fazer face a todas as despesas, tive que me desdobrar nas funções parentais, tive que me adiar por tempo indeterminado. Não fui infeliz, muito pelo contrário, a sensação de ter conseguido vencer num meio hostil, e ainda por cima realizada, foi largamente compensadora. 


Mas um dia, ao fazer um balanço da minha vida, verifiquei que tinha deixado muitas outras coisas de que gostava pelo caminho, e resolvi pôr em prática uma ideia antiga, que aliás passa pela cabeça de muita gente, passar a viver no campo. Dediquei-me afincada e apaixonadamente a fazer um jardim, que ficou maravilhoso, apesar das adversidades características do Alentejo. Agora olho para ele e para os meus pés incapazes, operados faz hoje exactamente um mês, e sei que este ano não vou conseguir cuidá-lo como gostaria, com as muitas variedades de flores e de cores em explosão primaveril. Depois deste Inverno rigoroso fico decepcionada porque vou ter que começar tudo de novo, em desvantagem, é certo, mas com mais uma experiência: não insistas em plantar ou semear alguma coisa contra o curso da natureza, se suspeitares que sem ti não vai conseguir sobreviver.

Cf. Saber esperar/ A retalho(9/5/2014)

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