Atalhos de Campo


12.3.15

As Pedras Negras de Pungo Andongo

O soba disse que o rio Lucala é um filho calmo do rio Kwanza
O soba disse que o rio Kwanza é forte como as Pedras Negras

O primeiro poeta disse: o rio Kwanza é o nosso mar*
O segundo poeta disse: o rio Lucala atira-se do morro para não morrer

O soba disse que o homem não deve ir ver essa queda sozinho*

O segundo poeta disse: a queda é uma sereia que chama*

O soba disse que a sereia é perigosa porque gosta de sangue*

O primeiro poeta disse: lá no fundo vivem dois arco-íris lado a lado, um homem e uma mulher*

O soba disse que depois só fica um*

O primeiro poeta disse: fica o amor

O soba disse que não, que só fica o homem*
O soba disse, Kalandula significa primeiro o branco, o preto vai atrás do branco*

O segundo poeta disse: o rio branco que cai é filho do rio preto
O primeiro poeta disse: eu vi Kalandula a cair do céu, e a estrada ficou um rio negro
O segundo poeta disse: eu vi o céu negro todo branco até ao chão que era um rio
O primeiro poeta disse: eu morri nas Pedras Negras

O soba disse, Pungo Andongo é a nossa fortaleza

O primeiro poeta disse: Pungo Andongo é lindo como uma obra de Deus*
O segundo poeta disse: Pungo Andongo assusta como uma obra de Deus*

O soba disse que era onde vivia a rainha Ngola*

O segundo poeta disse: as sereias são os arcos enfeitiçados pelas íris do rio 
O segundo poeta disse: a rainha é a mulher que fugiu do arco-íris
O primeiro poeta disse: eu nasci de uma pegada de mulher

O soba disse que a rainha era uma mulher grande
O soba disse que em Pungo Andongo não há pedras brancas

O segundo poeta disse: há um rio que chora em Kalandula 
O primeiro poeta disse: há um silêncio que reina nas Pedras Negras. 


Nota: No fim-de-semana passado o meu filho foi a Malange ver as cataratas de Kalandula no rio Lucala, principal afluente do rio Kwanza. Visitou também as Pedras Negras de Pungo Andongo, local onde viveu a rainha Ginga( Ngola), grande opositora à colonização portuguesa e onde havia um forte português. Uma pegada da rainha pode ser vista marcada nas pedras. O meu filho reparou que a pegada é enorme e comentou o facto comigo. Grande parte da viagem de regresso(de 420km até Luanda)foi feita a trinta km por hora, debaixo de um temporal tremendo. Resolvi ver alguns vídeos sobre estas belezas naturais angolanas, e fiquei agradavelmente surpreendida com a qualidade dos programas e com a sabedoria (e poesia) dos sobas entrevistados. Tirei alguns tópicos e compus o texto, em que as frases marcadas com asterisco foram retiradas das vozes dos sobas em as *7 Maravilhas Naturais de Angola*(Youtube). 

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