Atalhos de Campo


19.3.15

A Palmeira de Oamock



Era sempre noite quando o meu pai me ia buscar. Eu já tinha arrumado tudo, e ficava a brincar com o cachorro. Às vezes era tão tarde que receava que ele se tivesse esquecido. Então sentava-me quieta, à entrada, com a pasta aos pés, muito séria, à espera. Ainda o jipe vinha longe, e já eu me pusera de pé num salto, radiante, a dizer que o meu pai estava a chegar. A professora espantava-se por não ter ouvido nada, contudo ele não demorava muito a aparecer. Era tudo tão escuro, só as luzes do jipe se viam ao longe, a balouçar na estrada de terra batida, mas eu pressentia o barulho solitário do motor, que ia aumentando até que parava subitamente junto à casa, e os faróis se apagavam. O toque da campainha era urgente, e o meu pai aparecia à porta com ar cansado, o corpo moído pelo peso do material às costas, nas caminhadas sobre pistas por entre o capim, e pelos solavancos do carro o dia inteiro nas picadas mato fora parando para marcar as cotas do terreno, por sítios inacessíveis sob o sol abrasador. Perguntava se eu me tinha portado bem, e sim eu portara-me bem, ainda enfraquecida, convalescente de um acesso agudo de paludismo. Dava-me a mão e ajudava-me a subir para o jipe, com a traseira cheia de material de topografia, e os vidros repletos de pó, com dois óculos desenhados a limpo, para podermos ver o caminho. Passávamos pela palmeira enorme que emprestava o nome à localidade, e enfiávamos por uma estrada secundária. Pai, esta é a maior palmeira do mundo? - perguntei-lhe uma vez, e ele respondeu-me que talvez ainda houvesse maiores, mas que aquela era uma Palmeira-africana com mais do que vinte e cinco metros, era mesmo muito alta, e por isso já era também muito velha. Nessa noite mergulhada na escuridão, quando seguíamos tranquilamente para casa, com o meu pai a contar histórias e a voltar o rosto sorridente para mim, lembro-me de olhar para ele com medo, mas tanto medo, que, um dia, ele morresse.

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