Atalhos de Campo


21.3.15

A Canção de Agnes















Como é isso aí?
Sentes-te muito só?

Ainda vês o clarão avermelhado
Do anoitecer?
Os pássaros ainda cantam
A caminho da floresta?
Ainda os ouves?

Aceitas esta carta 
Que não me atrevi a mandar?
Posso transmitir-te
A confissão que não ousei fazer?

Passará o tempo?
Fenecerão as rosas?

É chegada a hora 
De dizer adeus
Como a brisa que se demora
Para depois partir
Tal como as sombras
Às promessas que nunca chegam
Ao amor selado até ao fim
Às ervas 
Que me beijam os tornozelos
Aos minúsculos passinhos 
Que me seguem

É chegada a hora 
De dizer adeus

Agora que a noite cai
Voltar-se-á a acender alguma vela?

Aqui rezo

Ninguém derramará lágrimas
Ninguém mais sofrerá
E para que saibas
Quanto te amei
A longa espera
Em pleno escaldante dia de Verão
Um velho caminho
Que lembra o rosto do meu pai

Até a mais solitária flor silvestre
Timidamente se recolherá

Quão profundamente amei
Ao ouvir tua ténue canção
Como estremeceu o meu coração

Abençoo-te

Antes de atravessar este sombrio rio
Com o último fulgor da minha alma
Começo a sonhar
Com uma soalheira 
E luminosa manhã
Onde mais uma vez acordo
Ofuscada pela luz
Para te encontrar
À minha frente.


Lee Chang-dong/A Canção de Agnes 

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