Atalhos de Campo


30.3.15

mujeres al borde de un ataque de nervios (5)


- Como lhe hei-de dizer? - disse ele e encolheu os ombros. 
- A mamã, no fundo, nunca está bem de saúde. É mulher,
 e às mulheres Nikolai Iliitch, dói-lhes sempre qualquer coisa.

Tchékhov/ Insignificâncias da Vida
Contos de. Volume I

Como me dói hoje a cabeça, pensou, levantando os olhos do livro; 
e acabou de ler o conto, mesmo antes de pôr a mesa para o jantar.

29.3.15

Diáfano


























Dançam borboletas hesitantes
Poisam laboriosas abelhas
Ao sol desbotam flores


Saímos da herdade das Murteiras e fomos descendo devagar com o atrelado, pela estrada em terra batida até ao fim da propriedade. Lá no alto estava mais fresco, as andorinhas faziam acrobacias aéreas em volta das chaminés do monte em ruínas, e do antigo forno onde tinham construído os ninhos. Um miradouro natural mostrava terras e montados perdidos pelo olhar dentro, até que a muralha levantara a linha do horizonte e nela erguera uma cidade, sobranceira ao vasto condado. O pastor tinha escolhido e carregado as seis borregas de chanfro sarapintado pelo castanho do outro condado, o de Suffolk (Inglaterra), e agora apontava para tão longe quanto a memória lhe lembrava, agasalhado com o pelico que só vai tirar na próxima tosquia. Ali ficou parado a despedir-se, onde o tempo por momentos também nos parou. Invejei-lhe o pelico, hei-de ter um, e umas botas alentejanas, e um chapéu como o dele, que deixa o rosto trigueiro e os olhos sem fundo. Ao passarmos pelos prados da Lázara, estremeciam lírios azuis virados para o sol poente, o campo parecia o de Ipswich(onde Mrs Lylibanks de Highsmith observava os pássaros, recordas-te?), lembrei-me do chapéu de Mija(Yoon Jeong-hee) a deslizar pelo rio fora, do seu caderninho sem palavras, como as gotas de chuva, dos poemas que deixara pendurados pelas folhas das árvores, do cão que já não brincava com a criança, porque a criança já tinha morrido. As borregas foram compradas a bom preço, a preço de carne, mas quando chegámos correram em liberdade até se juntarem às outras, que pareciam esperá-las. Valem o mesmo que seis pares de Converse All Star, dos mais baratos, lá para a cidade. Mas aqui valem as cangochas que derem os filhos delas, nas brincadeiras da próxima Primavera. 


Valsa de Domingo



28.3.15

a primeira papoila


























A dona Delfina morava naquele monte onde fui hoje. Ainda lá estão os canteiros cuidados por ela, com maciços de lírios e malmequeres, mas a dona Delfina morreu este ano. Ao longo do caminho, já perto da casa, vi as primeiras papoilas, poucas, quatro ou cinco. Consta que a dona Delfina toda a vida se curvara, para tocar nas flores do campo com o seu olhar muito azul. Com o tempo foi-se aproximando delas, e deixando o céu, que guardava nos olhos. No Outono já não vou comer os seus bolinhos de erva-doce, que vinha entregar com um sorriso aromático, a terra molhada.    

27.3.15

memória. curta # 6

Péssimo, uma cosipadela, dizia a minha avó ao telefone, sobre a bainha da minha bata, quem terá feito aquilo, e eu a esperar para lhe dizer que tinha sido eu, que não culpasse ninguém. Na verdade sempre me entediou a caixa da costura (que eu mantinha criteriosamente arrumada), com as linhas de todas as cores, as agulhas de vários tamanhos, os alfinetes, um dedal, duas tesouras, uma fita métrica, tudo, tudo o que era preciso, rezando para não ter que a abrir. Mas sempre gostei de suturar, e as minhas suturas, contrariamente às minhas bainhas, sempre foram o meu orgulho.

Flor-de-lis (luz)



26.3.15

para clara (schumann)

a caixa negra




























(...)
Nesta primavera há duas primaveras- perfume,
ferocidade. Turbilhão azul sem nome.
O sonho irrompe como hastes de cactos, pélago
desordenado.
            - Eu sou a árvore e o céu,
faço parte do espanto, vivo e morto.

Vem a noite. Os céus nocturnos parecem
ter gelado em azul. Vem a noite,
e com a noite interrogo-me:- Existe?
O que existe é monstruoso.
Por trás de mim há uma coisa
que apavora.
            -Ouves o grito dos mortos?
(...)
Herberto Helder/ Húmus 

Airbus A320 da Germanwings, cai nos Alpes franceses
vitimando 150 pessoas, pelo acto suicida do co-piloto 
Andreas Lubitz, de 28 anos.

(...)
Houve crepúsculos do azul dos olhos dessas crianças da escola.

Houve essa cor azul no céu, desse azul que era o do mar. Houve todas as árvores que tinham sido assassinadas. E havia também o céu. Olhei-o. Cobria com a sua lentidão o todo das coisas, com a sua indiferença de cada dia. Insondável.
(...)
Marguerite Duras/ A Morte do Jovem Aviador Inglês

25.3.15

bico-de-lacre

é um belo nome, um dos mais bonitos nomes de pássaros que eu conheço, e dá que pensar, o lacre como um selo inviolável, o bico vermelho da cor do sangue; sabendo calar, manter um segredo

Os Bicos-de-lacre


Deparara com aquilo no regresso da praia. 

Era fim de Setembro e as manhãs já tinham esfriado, mas a partir das onze horas o sol começava a penetrar por entre os galhos dos pinheiros mansos, envernizando-lhes as pontas aguçadas que brilhavam como aço, parecendo acendalhas em redor da casa. A essa hora ia buscar a gaiola feita em canas macias com dois bicos-de-lacre, e pendurava-a num ramo acessível. O seu pimpepin piepepen, cueen, cueen, cueen monótono, era apaziguador, gostava daquele canto enrouquecido e exótico na frescura das sombras, enquanto se entretinha a brincar com o filho de dois anos, numa manta estendida sobre a relva. 

Mas naquele dia tudo fora um pouco precipitado, a maré estava de feição, e decidira acompanhar o António no último minuto, esquecendo-se da gaiola pendurada no jardim. Na praia extensa e deserta, tinha feito uma caminhada contra o vento, de pés descalços sobre a areia lisa, enquanto o marido colocava as canas de pesca, e lançava os anzóis iscados com casulo para bem longe, entrando nas ondas pequenas da rebentação com botas de borracha. À volta o olhar fixara-se-lhe nas silhuetas sumidas na neblina de areia, seguindo os movimentos da criança, sentada perto da caixa de pesca a brincar com o balde - o chapéu de lona branca ainda enterrado na cabeça, e a camisola de lã grossa arregaçada nas mangas - enquanto António esperava, atento ao mar. 

Já estava perto quando ele correu para uma das canas de pesca, vergada pelo peso da captura. A linha cortava o ar em elipses iridescentes, enquanto o carreto, ora enrolando, ora desenrolando o fio em etapas precisas, puxava ou dava tréguas ao peixe, num jogo de músculos, pernas flectidas, barbatanas a lutar contra a corrente, bolhas de ar afligindo-se à superfície, pegadas na areia avançando, recuando e desaparecendo nas ondas, a coluna vertebral a contrariar a força oceânica, enquanto a cana de pesca, atraída pela magia do mar, mais parecia uma vara segura pelas mãos de um vedor que dominasse habilmente o spinning, ignorando o medo de partir a linha. No fim da esgrima de maxilares serrados entre ambos, surgiu a cabeça, e o corpo metalizado e brilhante de um robalo, deslizou como uma espada obediente, rasgando a água até à orla de finas rugas da maré vaza. O pescador segurou feliz no troféu, retirou-lhe o anzol da boca em apneia, fazendo planos para o jantar perante a excitação do garoto, que batia palmas e espalhava alegria pelo vento. Continuaram na praia para assistir ainda a um encore, que aconteceu pouco antes do regresso. No calor aconchegante do automóvel, um último relance garantia que a conquista dos robalos apaziguara a imensidade Atlântica, onde fora sacrificada uma laranja, derramando sangue e maresia à tona acutilante do poente.

Quando chegaram a casa, tinha anoitecido.

A gaiola abandonada no jardim era um espectáculo desolador, uma sombra incompleta que a fragilidade dividira ao meio, a cúpula a balouçar pendurada no ramo, enquanto a parte inferior fora arrastada pelo vento até ficar presa num tronco. Dos pássaros nem vestígio. Teresa voltou a montar a gaiola, olhando em redor com desalento. Temendo o pior, imaginava os passarinhos na boca de um gato, ou a morrerem de frio e fome, mas, num súbito acesso de esperança, manteve-a pendurada no mesmo sítio. Encheu o comedouro, colocou novamente água, e deixou a porta aberta, admitindo que pudessem entrar quando tivessem fome. No dia seguinte nem queria acreditar quando viu os bicos-de-lacre lá dentro, a saltar de poleiro em poleiro, piando no frio da madrugada.   

24.3.15

Sobre os cotovelos a água


olha o dia sobre os cotovelos
(...)
Herberto Helder/Canção em Quatro Sonetos













O Poeta vivo

Recebo uma mensagem no telemóvel com a notícia da morte de Herberto Helder, um poeta que descobri tarde, e que entendi ainda mais tarde. Até que chegou o tempo certo, em que Amei devagar os seus livros que são tristes, com cinco dedos de cada lado; hoje fui buscá-los e reparei como a morte ganhou com a vida, o seu mestre.




(...)
dentre os nomes mais internos o mais intenso de todos
a que dias mortais infunde vida
que indefensável coisa lhe promete
(mas no seu corpo nada se levanta
quando estremece ao ar da revoada)
que morte e vida troca ele em tudo
e a que obscura glória se refere?

Herberto Helder/ A Morte sem Mestre 

23.3.15

O Pavão-azul, sobre o primeiro verde











É isso: foi-se o Inverno.

É isso: vai-se o Inverno...Um vento anima a terra;
outro as águas aquece...É isso vai-se o Inverno.

Os campos vão parir: a terra já tem febre,
a germinar começa...Os campos vão parir.

Jocunda, rompe a erva. Há já folhas nas árvores;
e nos vales, ao sol, jocunda rompe a erva.

Dos montes cai a água; e seu rumor, nas pedras,
ouve-se ao longe, pois dos montes cai a água...

De inumeráveis flor's pintalga a brisa o chão,
e fica a cheirar bem de inumeráveis flores.



























Nas cavernas ecoa o mugido dos bois;
e a nossa própria voz nas cavernas ecoa...

Infladas já de vinho as vides vão agora
aos olmos enlaçar-se, infladas já de vinho...

Nas traves habituais lá 'stão as andorinhas:
seus ninhos vão fazer nas traves habituais...

Sob o plátano verde apetece dormir;
ou grinaldas tecer sob o plátano verde...

Mesmo talvez morrer...Tornar à juventude
e então, nos braços teus, mesmo talvez morrer!

Pentádio (sé.III-IV)/À chegada da Primavera
Vozes da Poesia Europeia/ Tradução David Mourão-Ferreira

21.3.15

shi

Que significado tem escrever poesia quando as pessoas já não a lêem? 
Esta é a minha questão para o público. É também uma questão para mim: 
o que significa fazer filmes quando os filmes estão a morrer?
Lee Chang-dong

A Canção de Agnes















Como é isso aí?
Sentes-te muito só?

Ainda vês o clarão avermelhado
Do anoitecer?
Os pássaros ainda cantam
A caminho da floresta?
Ainda os ouves?

Aceitas esta carta 
Que não me atrevi a mandar?
Posso transmitir-te
A confissão que não ousei fazer?

Passará o tempo?
Fenecerão as rosas?

É chegada a hora 
De dizer adeus
Como a brisa que se demora
Para depois partir
Tal como as sombras
Às promessas que nunca chegam
Ao amor selado até ao fim
Às ervas 
Que me beijam os tornozelos
Aos minúsculos passinhos 
Que me seguem

É chegada a hora 
De dizer adeus

Agora que a noite cai
Voltar-se-á a acender alguma vela?

Aqui rezo

Ninguém derramará lágrimas
Ninguém mais sofrerá
E para que saibas
Quanto te amei
A longa espera
Em pleno escaldante dia de Verão
Um velho caminho
Que lembra o rosto do meu pai

Até a mais solitária flor silvestre
Timidamente se recolherá

Quão profundamente amei
Ao ouvir tua ténue canção
Como estremeceu o meu coração

Abençoo-te

Antes de atravessar este sombrio rio
Com o último fulgor da minha alma
Começo a sonhar
Com uma soalheira 
E luminosa manhã
Onde mais uma vez acordo
Ofuscada pela luz
Para te encontrar
À minha frente.


Lee Chang-dong/A Canção de Agnes 

20.3.15

parcial


Saberão as flores 
que a Primavera começa 
no eclipse do sol?

Primavera

Florir -o Resultado- encontrar uma Flor
E olhá-la de relance
Muito pouco faria suspeitar
Da curta Circunstância

Que ajuda à Aventura Fulgurante
Feita tão intrincada
Dada depois, igual a Borboleta,
Ao sol ardente-

Fabricar o botão-lutar com a Lagarta-
Ter direito ao Orvalho-
Ajustar o Calor- furtar-se ao Vento-
Escapar da Abelha à espreita

E não frustrar a Grande Natureza
Que nesse dia A aguarda-
Ser uma Flor, é funda
Responsabilidade-

Emily Dickinson/ Duzentos Poemas 



Atalho de flores

Primeiro dia de primavera:
que distante me parece
o inverno

José Tolentino Mendonça




19.3.15

Como Darwin pode mudar a sua vida


Quando ouvires o canto de um cuco
Lembra-te do rouxinol-dos-caniçais

A Palmeira de Oamock



Era sempre noite quando o meu pai me ia buscar. Eu já tinha arrumado tudo, e ficava a brincar com o cachorro. Às vezes era tão tarde que receava que ele se tivesse esquecido. Então sentava-me quieta, à entrada, com a pasta aos pés, muito séria, à espera. Ainda o jipe vinha longe, e já eu me pusera de pé num salto, radiante, a dizer que o meu pai estava a chegar. A professora espantava-se por não ter ouvido nada, contudo ele não demorava muito a aparecer. Era tudo tão escuro, só as luzes do jipe se viam ao longe, a balouçar na estrada de terra batida, mas eu pressentia o barulho solitário do motor, que ia aumentando até que parava subitamente junto à casa, e os faróis se apagavam. O toque da campainha era urgente, e o meu pai aparecia à porta com ar cansado, o corpo moído pelo peso do material às costas, nas caminhadas sobre pistas por entre o capim, e pelos solavancos do carro o dia inteiro nas picadas mato fora parando para marcar as cotas do terreno, por sítios inacessíveis sob o sol abrasador. Perguntava se eu me tinha portado bem, e sim eu portara-me bem, ainda enfraquecida, convalescente de um acesso agudo de paludismo. Dava-me a mão e ajudava-me a subir para o jipe, com a traseira cheia de material de topografia, e os vidros repletos de pó, com dois óculos desenhados a limpo, para podermos ver o caminho. Passávamos pela palmeira enorme que emprestava o nome à localidade, e enfiávamos por uma estrada secundária. Pai, esta é a maior palmeira do mundo? - perguntei-lhe uma vez, e ele respondeu-me que talvez ainda houvesse maiores, mas que aquela era uma Palmeira-africana com mais do que vinte e cinco metros, era mesmo muito alta, e por isso já era também muito velha. Nessa noite mergulhada na escuridão, quando seguíamos tranquilamente para casa, com o meu pai a contar histórias e a voltar o rosto sorridente para mim, lembro-me de olhar para ele com medo, mas tanto medo, que, um dia, ele morresse.

18.3.15

morangos

Comíamos morangos. Perguntaste-me se ainda me lembrava (da botânica) que o morango é um aquénio, como o figo ou o ananás. As inflorescências originam infrutescências, recordavas-te, e o aquénio é uma infrutescência. Mas eu já não me lembrava, e fui tentar saber mais acerca desse tal fruto, que afinal são muitos frutos num só. Eis o que encontrei:

BOTÂNICA fruto seco, monospérmico, indeiscente, cuja semente é erecta.   
Infopédia/Dicionários Porto Editora(sem acordo ortográfico)

e afrodisíaco, dizem.

imprensismo

O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor. Ao oferecer-nos a opinião dos deseducados, mantém-nos em dia com a ignorância da comunidade.
Oscar Wilde/ A sabedoria e o humor de

17.3.15

o dr. Sapindus mukorossis, irritado:



-,nove em cada dez, percebeu bem? Agora vá dar banho ao cão.

memória. curta # 5

trapézio                            hamato    
escafóide  trapezóide capitato    pisiforme
           semilunar        piramidal       


pegava nos ossos do carpo e punha-se a brincar com eles, a misturá-los; depois atirava-os ao ar e agarrava-os com destreza; em menos de um minuto voltava a colocá-los todos ordenados, encaixados uns nos outros nas duas filas, proximal e distal, e dizia pausadamente: Senhores alunos, quem não souber reconhecer e orientar convenientemente os ossos do carpo, chumba.

16.3.15

o cubo de rubik


Comparo a minha relação com a blogosfera com um cubo de Rubik que nunca mais consigo resolver. Ora vejamos: porque é que algumas pessoas se escondem atrás de múltiplas faces e heterónimos( alguns tão cómicos que nenhum de nós quereria, se lhe fosse imposto), e outras mantêm vários blogues como certas dietas, uma linha premium e mais uma ou duas, de mais baixa qualidade? Porque se fazem seguidores do que não gostam e comentam com deselegância propositada, arranjam intrigas, abrem blogues e fecham blogues para abrirem blogues como se não fossem eles? Porque é que se formam grupos herméticos, embora disfarçados, em que se percebe que há hierarquias? E que pensar dos condomínios fechados, com publicidade abjecta? Fazer um blogue é catártico, ou pode tornar-se exactamente no contrário? E o que fazem os anónimos num mundo de gente que usa várias máscaras, inclusive a de anónimo, para além de desvalorizar a palavra? Porque é que os blogues (supostamente) de mulheres têm muito mais seguidores e comentadores masculinos, e o inverso também é verdadeiro(com o supostamente); haverá género...virtual? Porque é que publicar um livro do blogue é o mais secreto desejo de muitos bloggers, quando a internet permite a divulgação de um trabalho a nível global, muito mais dinâmico, e que pode morrer numa edição em livro? Dou a este cubo mais voltas do que ele merece, um quebra-cabeças, com pelo menos uma face obscura, que a ter alguma magia, é bem capaz de ser negra. É possível que a solução esteja na frase lá de cima: aquela sonata pode não ser uma performance de Glenn Gould, mas devo dizer que é tão boa como Gold; a homofonia é que interessa, Ah, Ah, Ah!
Assinado: Homer(ic) Simpson, (e se alguém disser que sou eu, nego, N.E.G.O.).

Cf. voando sobre um ninho de cucos/ Noite(5/12/2014)  

a quarta emenda

este blogue só utilizará vernáculo na
transcrição de textos de autores consagrados 

15.3.15

Valsa de Domingo

mujeres al borde de un ataque de nervios (4)


Os homens, esses seres de velhos hábitos, com um pragmatismo único, invejável, que não demoram nada a escolher um presente, e aparecem radiantes com um ramo de flores, um anel, um livro, um CD, que não é, jamais seria do nosso agrado, mas sim com o que se habituaram a oferecer,...à ex. Claro que também se enganam. 

14.3.15

os louboutins e a enxada

Toda a gente sabe que os sapatos não são nada parecidos com os homens, nessa coisa da alma. Uma vez um sapateiro disse-me, foi a alma, precisa de uma alma nova; por momentos pensei que se estivesse a referir a mim mas não, era ao sapato, porque depois acrescentou, está pronto daqui a dois dias, e na verdade ficou como novo. O que eu não imaginava é que as enxadas também tivessem alma, e essa sim é parecida com a nossa, quando começa com problemas não há corpo que lhe valha, a terra não as respeita, os regos ficam mal feitos, os torrões rebolam-se a rir, as toupeiras fazem comícios, os canteiros acabam mal amanhados, os pulsos é que sofrem, e por fim lá lhes rezamos pela alma. Mas fiquei com uma dúvida impertinente, será que os sapatos são todos iguais, que os louboutins também partem a alma, ou são como certas mulheres, que venderam a alma ao criador? 

13.3.15

mãos à obra

Nunca pude ficar doente, ou nunca fiquei doente a sério. Lembro-me de várias fases da minha vida em que me apeteceu adoecer só para que alguém cuidasse de mim, mas a verdade é que me arriscaria a ter que ser eu própria a fazê-lo. Por isso fui adiando, dei consultas com febre, negligenciei exames médicos, curei gripes em quarenta e oito horas, não me lembro de ter faltado um dia. 


Tive que sobreviver num mundo competitivo e masculino com a expressão *é uma médica* na ordem do dia, curiosamente dita sobretudo por mulheres. Hoje é um problema que penso que já não existe, que as mulheres já não desconfiam da sua capacidade para exercer medicina veterinária, profissão em que somos maioritárias, ou então já se habituaram. Mas nem sempre foi assim, a consideração era conquistada a pulso, a competência posta em causa, com o espectro da comparação masculina sempre iminente, por vezes acintosamente. Conciliar a exigência do trabalho com um filho a crescer (até ao metro e oitenta e...oito?!), e uma casa para gerir (com os horários e as dificuldades económicas), foi uma luta que durou anos. Tive que prescindir das folgas e das férias e trabalhar em mais do que uma clínica, para poder fazer face a todas as despesas, tive que me desdobrar nas funções parentais, tive que me adiar por tempo indeterminado. Não fui infeliz, muito pelo contrário, a sensação de ter conseguido vencer num meio hostil, e ainda por cima realizada, foi largamente compensadora. 


Mas um dia, ao fazer um balanço da minha vida, verifiquei que tinha deixado muitas outras coisas de que gostava pelo caminho, e resolvi pôr em prática uma ideia antiga, que aliás passa pela cabeça de muita gente, passar a viver no campo. Dediquei-me afincada e apaixonadamente a fazer um jardim, que ficou maravilhoso, apesar das adversidades características do Alentejo. Agora olho para ele e para os meus pés incapazes, operados faz hoje exactamente um mês, e sei que este ano não vou conseguir cuidá-lo como gostaria, com as muitas variedades de flores e de cores em explosão primaveril. Depois deste Inverno rigoroso fico decepcionada porque vou ter que começar tudo de novo, em desvantagem, é certo, mas com mais uma experiência: não insistas em plantar ou semear alguma coisa contra o curso da natureza, se suspeitares que sem ti não vai conseguir sobreviver.

Cf. Saber esperar/ A retalho(9/5/2014)

12.3.15

através da palavra


(...)
- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para outra palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

Herberto Helder/ poesia completa 

As Pedras Negras de Pungo Andongo

O soba disse que o rio Lucala é um filho calmo do rio Kwanza
O soba disse que o rio Kwanza é forte como as Pedras Negras

O primeiro poeta disse: o rio Kwanza é o nosso mar*
O segundo poeta disse: o rio Lucala atira-se do morro para não morrer

O soba disse que o homem não deve ir ver essa queda sozinho*

O segundo poeta disse: a queda é uma sereia que chama*

O soba disse que a sereia é perigosa porque gosta de sangue*

O primeiro poeta disse: lá no fundo vivem dois arco-íris lado a lado, um homem e uma mulher*

O soba disse que depois só fica um*

O primeiro poeta disse: fica o amor

O soba disse que não, que só fica o homem*
O soba disse, Kalandula significa primeiro o branco, o preto vai atrás do branco*

O segundo poeta disse: o rio branco que cai é filho do rio preto
O primeiro poeta disse: eu vi Kalandula a cair do céu, e a estrada ficou um rio negro
O segundo poeta disse: eu vi o céu negro todo branco até ao chão que era um rio
O primeiro poeta disse: eu morri nas Pedras Negras

O soba disse, Pungo Andongo é a nossa fortaleza

O primeiro poeta disse: Pungo Andongo é lindo como uma obra de Deus*
O segundo poeta disse: Pungo Andongo assusta como uma obra de Deus*

O soba disse que era onde vivia a rainha Ngola*

O segundo poeta disse: as sereias são os arcos enfeitiçados pelas íris do rio 
O segundo poeta disse: a rainha é a mulher que fugiu do arco-íris
O primeiro poeta disse: eu nasci de uma pegada de mulher

O soba disse que a rainha era uma mulher grande
O soba disse que em Pungo Andongo não há pedras brancas

O segundo poeta disse: há um rio que chora em Kalandula 
O primeiro poeta disse: há um silêncio que reina nas Pedras Negras. 


Nota: No fim-de-semana passado o meu filho foi a Malange ver as cataratas de Kalandula no rio Lucala, principal afluente do rio Kwanza. Visitou também as Pedras Negras de Pungo Andongo, local onde viveu a rainha Ginga( Ngola), grande opositora à colonização portuguesa e onde havia um forte português. Uma pegada da rainha pode ser vista marcada nas pedras. O meu filho reparou que a pegada é enorme e comentou o facto comigo. Grande parte da viagem de regresso(de 420km até Luanda)foi feita a trinta km por hora, debaixo de um temporal tremendo. Resolvi ver alguns vídeos sobre estas belezas naturais angolanas, e fiquei agradavelmente surpreendida com a qualidade dos programas e com a sabedoria (e poesia) dos sobas entrevistados. Tirei alguns tópicos e compus o texto, em que as frases marcadas com asterisco foram retiradas das vozes dos sobas em as *7 Maravilhas Naturais de Angola*(Youtube). 

11.3.15

distinção

é com frequência que tropeço nisto: 
não entenderem que simples não é simplório,
e que humildade não significa humilhação.

mas agora já não caio.

Cf. O pó dos caminhos/ A retalho(30/8/2014)

Inquietação



Alma inquieta...nos teus vinte anos
Queres descobrir a vida, queres descobrir o amor!
Lembras-me uma borboleta
Esvoaçando de flor em flor!


Tem calma, querida, Espera...
A vida te dará tudo,...
é quando menos se espera
Que tudo virá, tudo!

Amor, alegria, risos, cantigas
Música, muita música
A adormecer-te os sentidos.
     Tudo virá, tudo!...

As lágrimas, os desenganos
As horas de amargura
As que ferem a alma, deixando espinhos!
     Tudo virá, tudo!


Mas tudo brilhará de novo
E sorrirás
E cantarás
E terás novas horas de alegria
E sentirás de novo toda a alegria de Viver
      Porque a vida é assim
      E porque és Mulher!

Para a minha neta Maria Teresa, no dia dos seus vinte anos
Maria Borges do Canto

10.3.15

o dia da noite

20ºC de amplitude térmica

espelhos



































Porque teria ela aquela obsessão por espelhos, cismara 
ele durante muito tempo, até que ganhou coragem e lhe 
perguntou. Ah, nada de especial, respondera-lhe a rir, 
é que vivo sozinha neste casarão enorme, e assim sempre 
vejo alguém a passar, de vez em quando.

                                               

9.3.15

mujeres al borde de un ataque de nervios (3)

Quando começamos a viver com uma mulher, depressa deixamos de ver aquilo que nos levou a amá-la; apesar de ser verdade que os dois elementos apartados podem ser reunidos através do ciúme.

Marcel Proust

8.3.15

Olhos azuis, cabelo branco


Reinar pelo coração é ter o coração 
nas Mãos e entornar bondade 
e Misericórdia à sua volta, 
sem medida, sem cansaço e...
sem olhar a quem!  Maria Borges do Canto


O cabelo escuro já encanecera, mas recordo-me muito bem dos seus olhos muito azuis e da pele muito branca. No ano passado achei interessante uma coisa que li, escrita por Tolentino Mendonça no Atual: quando deram a escolher a um grupo de crianças salvar apenas dez pessoas num barco, a grande maioria escolheu em primeiro lugar salvar os avós. Talvez tenha sido a mesma razão que me levou hoje, no Dia da Mulher, a pensar primeiro na minha avó materna. Tento em vão descobrir em mim características herdadas dessa mulher abundante(em todos os sentidos), crente, de génio, teatral, expansiva, alegre, de gargalhada fácil, e de lágrima também, amante, amiga, e com muitos amigos, porque detestava estar só (se fosse hoje teria quinhentos amigos no Facebook, embora fizesse muito bem a distinção entre amigos e conhecidos). A minha avó era boa, porque praticava a bondade, era generosa com toda a gente, era essa a sua postura perante a vida, - Pega, era a sua palavra, dar, o seu desígnio, e tanto podia ser um abraço, como um almoço, como ajuda monetária, como um quarto para pernoitar, como atenção, como um conselho, como um tabefe. Não consigo dizer quantas pessoas lhe passaram pela vida, nem por quantas vidas ela passou. Para os sobrinhos era a tia boa, e não havia festa sem jogos, sem teatros, sem canções. 


Educada como interna no Colégio de Odivelas, era a terceira rapariga de sete irmãos que perderam a mãe muito cedo. Defendia a educação esmerada das meninas, por isso enquanto vivi com os meus avós, em adolescente, aprendi (e com que sacrifício) a bordar, a coser, a tricotar e a usar convenientemente uma saia, mas também a rezar, a agradecer, a partilhar. Em casa, pondo em prática as tecnologias que aprendera no colégio, fazia-se manteiga com a nata do leite, enchidos e presunto quando era a matança do porco, conservas em calda, doces, marmelada. Durante o período de aulas permanecíamos na Pampilhosa, mas o Natal era passado em Lisboa, os Verões e alguns fins-de-semana na Praia de Mira, a Páscoa e as vindimas em Setembro, no campo. Havia sempre muita gente a ajudar, uma costureira que nos fazia a roupa e os arranjos, uma ou duas empregadas internas e uma mulher a dias. Nunca vi a minha avó pegar num pano do pó, no entanto adorava cozinhar e tinha sempre um trabalho de tricot entre mãos. A sua enorme sensibilidade reflectia-se nos poemas que fazia, quase sempre dedicados ao meu avô (que ela adorava), e aos netos; quando queria dizer alguma coisa em privado era usual fazê-lo em francês, rematando com à cause des enfants. 



Por alguma razão inexplicável tinha especial perspicácia para perceber quem estava com problemas, ou precisava de ajuda. Pertenceu à Obra das Mães, trabalhou como chefe de Secretaria do liceu de Luanda, e a boa relação que mantinha com as alunas valeu-lhe o convite para encabeçar e orientar, mais do que uma vez, os cruzeiros que se fizeram ao continente com as raparigas dos liceus de Angola, organizando a maioria das actividades. Voltei a viver com a minha avó quando fui para a faculdade. O meu avô tinha entretanto morrido, e ela mudara-se definitivamente para Lisboa. A viuvez, a idade a avançar, e alguma falta de saúde, deixaram-na melancólica e mais carente. Nessa altura a nossa ligação estreitou-se bastante. Vivíamos só as duas, apoiando-nos uma à outra. Lembro-me que se preocupava porque eu comia pouco, e me fazia bolos deliciosos que colocava estrategicamente perto da mesa onde eu estudava. Foram tempos tranquilos e felizes. 


No mês em que ia fazer noventa anos, adoeceu gravemente e teve que ser hospitalizada. Ao sair de casa disse-me com lágrimas nos olhos que já não ia voltar. Entrou em coma depois da segunda intervenção cirúrgica, morrendo pouco depois. Quando o carro funerário chegou a Alcafache, a sua terra natal, foi rodeado por uma procissão comovente da Nossa Senhora dos Prazeres conduzida pelo padre da freguesia, que ostentava a faixa da Irmandade a que ela pertencera, por caminhos entre aldeias e muros de pedra, orientando os cânticos e as orações de homens e mulheres, que brotavam como a água nas Beiras, límpida e fresca das fontes de granito, se escapavam como as lágrimas, por entre as casas para o ar lavado da paisagem e se perdiam, arrastadas pelo vento agreste desse dia, nas vinhas antigas, pequenas hortas, quintas e olivais seculares. A Igreja austera não foi suficiente para acomodar todos os que lhe quiseram prestar a última homenagem, na missa mais bonita a que já assisti e que terminou com a Salve Rainha, a sua oração preferida. Foi nessa manhã fria de Abril carregada de nuvens densas, tão diferentes dos seus olhos, que tomei consciência de como tanta gente sentira a sua perda, e eu mais que toda a gente, por ter sido a sua menina grande.

Valsa de Domingo

7.3.15

poema para uma coreografia



De noite acorda presa
Ao pensamento acordado
E entrega na curva dos braços 
Ao acordeão a tristeza.
Liberta-se a alma vencida   
Voam pernas em gancho trocadas
Que depois são arrastadas
Ao ritmo da submissão. 
E os pés sofrem em pontas
Com os olhos bem fechados 
O oito desenhado a compasso 
Nos passos unidos no chão.
Em contas milongas a vida
Equilibra essa dor altiva
Que tango é valsa perdida  
No fervor de uma paixão.