Atalhos de Campo


19.2.15

Pai, desenhe um barco

Ontem, antes da meia-noite, desci as escadas de costas e com cuidado agarrada ao corrimão, assentando bem cada pé no degrau, sei que o fiz por ti, e abri a porta para o jardim que dá para a noite. Procurei o sítio no céu onde tenho a certeza que estás, sentei-me num banco à espera (dez minutos?) que chegasse o perfume da Via Láctea, de olhos postos na zona nebulosa e lacrimosa onde estão agora as tuas mãos,- e onde me ensinaste que Exupéry apagara o seu asteróide, antes de cair devagar, Andersen fizera desaparecer a pequena sereia, e Nodi escondeu a borracha mágica- e pedi-te, como fazia tantas vezes em pequena quando me sentava ao teu colo: Pai, desenhe um barco. E vi o barco a navegar pelo canal iluminado entre a Ursa Menor e Cassiopeia, o mesmo paquete que desenhavas nas folhas brancas de Domingo. Nimbos e cirros escondiam o sol do outro lado do céu, chuvas torrenciais, ventos e tempestades naufragavam o outro lado da terra, até avistar em segurança o Cruzeiro do Sul, do lugar onde sabias que eu tinha perdido o sonho.  

Ao meu pai     

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