Atalhos de Campo


20.2.15

na bolsa de Fabritius

Quando li O Pintassilgo lembrei-me muitas vezes de quando estive na Frick Colletion à frente do maravilhoso quadro do holandês Carel Fabritius, e de como me transmitiu a sensação de transitoriedade. A vida representada por um pequeno pássaro primorosamente bem pintado, ao mesmo tempo efémera mas eternamente prisioneira do voo sem asas daquele olhar triste, que após breve  momento voltaria a ocupar o seu lugar em qualquer livro de naturezas-mortas. Ler Donna Tartt deixou-me com nostalgia das minhas histórias com pássaros, uma delas há muitos anos, exactamente com um pintassilgo. Ainda no ano passado, a vontade de homenagear esse pássaro, e a liberdade, me fez voltar a folhear os livros de arte com quadros da pintura de género do século XVII, na qual me inspirei para pintar uma parede de casa. Ao longo da leitura de O Pintassilgo pensei muito em qual teria sido o rumo do meu filho se eu tivesse desaparecido quando ele era ainda um miúdo de treze anos, como o Theo Decker, Potter como lhe chamava Boris, o seu melhor amigo; Potter de Harry Potter, um miúdo que se vestia como um nova-iorquino caído sem pára-quedas em Las Vegas, e que era alvo da troça dos colegas de T-shirt e havaianas. Descobri há pouco tempo que pintassilgo em holandês se escreve putter, e que Fabritius poderá ter pintado o quadro para o seu amigo e comerciante de sedas, Abraham de Potter, que também retratou. Parece-me plausível que Tartt se tenha deixado inspirar por essa amizade de Fabritius, transformando o, de Potter, do século XVII, no Potter do Século XX. Carel Fabritius morreu cedo, e quase parece ter tido uma premonição ao fazer uma obra-prima acorrentada ao seu destino, num quase auto-retrato no ano da sua morte. E já agora e apenas por curiosidade, os pintassilgos têm anatomicamente (como de resto, as outras aves) uma Bolsa de Fabricius, órgão importante na resistência às infecções. Não há coincidências, diria Freud.

Cf. Apolo70  24/1/15 A retalho

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