Atalhos de Campo


25.2.15

e ela, que queria apenas uns binóculos

Não era preciso muito mais do que atravessar o hall de entrada, para assomar ao seu novo mundo, um universo de handicaps. A este planisfério chega-se lentamente, pensava, quando não se entra pela porta da urgência. Sorriu a uma rapariga agarrada a um par de canadianas, que apoiava só a ponta do pé direito no chão. Mal acabara de se cruzar com ela, e já o sorriso lhe fugia até ao casal vagaroso à sua frente, pousando na senhora que amparava cuidadosamente o marido, enquanto alguém os ultrapassava numa cadeira de rodas. Como ainda era cedo conseguiu facilmente um lugar e sentou-se a ler. Não passou muito tempo até começarem a surgir pacientes envergando muletas, baruks, botas ortopédicas aparatosas, que mais pareciam espaciais,- mas nada de gessos, coisa antiga(que os grafitti são definitivamente para os muros),- gente ligeira, que ficava de pé com um braço ao peito, senhoras de certa idade acompanhadas por familiares, uma delas, linda, que levava na cabeça um chapelinho preto, acabara de sair de um dos gabinetes, e seguia na sua cadeira rolls-royce, conduzida em cruise control por chauffeur experiente, já com muitos quilómetros de corredores de hospital. 


Teresa sabia que aparecer pela mão, ou pelos próprios pés, não era garantia de sair de lá a usá-los, que isto dos ossos é como um jardim, é preciso estacas para que as árvores cresçam direitas, para que tudo fique mais harmonioso, e para que se prossiga com menos dor; por isso lhes entregamos o sofrimento juntamente com as mãos, as pernas, os braços, os pés, os joelhos, os dedos. Entretinha-se com estes pensamentos observando o grupo silencioso, as incapacidades e as claudicações lado a lado com as ortóteses, as talas, os pensos, as ligaduras elásticas e os exames, resignadamente à espera da sua vez, cada pessoa com esperança de se libertar do seu próprio desconforto, e da sua dor, que as há avassaladorasa amarinharem por nós acima, até conquistarem cada traço do rosto, cada gestocada movimento


No final ela tinha a certeza que lhe diriam que tinha corrido tudo muito bem, que agora só faltavam mais dois meses, e que regressaria contente para casa, porque acreditava que sim, que aquele era um mundo transitório, tal como este, em que estamos habituados a viver. E foi então que recordou o rapaz alto e muito pálido, que não sorria, curvado sobre a perna flectida que sustentava com dificuldade, rodeado pelos abraços das irmãs e mimos da namorada, e se lembrou da expressão de preocupação dos pais ao abandonarem o elevador no mesmo piso que ela, na primeira noite que passou no hospital.

Cf.Um diário de campo(5/5/2014).A retalho(1º post do blogue)

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