Atalhos de Campo


16.2.15

blogue só para leitores convidados

Faltavam-lhe (ainda) duas estações para cumprir o desafio que fizera a si própria: o rigoroso Inverno e a radiosa Primavera. Depois? Depois logo se veria. Tinha coisas para dizer, (mas a quem, era a grande interrogação), provavelmente só a ela mesma, e para isso precisava de sossego. Não propriamente de silêncio, mas de paz de espírito, de tranquilidade, enfim, da que fosse possível. Este era o diário que tinha falhado na juventude, o diário que fechara à chave, porque na verdade ele tinha uma chave que persuadia a que pensassem que lhe apanhariam confidências, e que agora ameaçava falhar pela segunda vez, mas pela razão oposta, já que este era um diário virtual. Não que fizesse confidências, não que as tivesse feito, afinal o que é uma confidência, a arte esconde a verdade, vai buscar o teu diário, e ela a trazê-lo da gaveta da cómoda, sem chave, mas para que servia um diário que não se podia abrir, para que servia uma vida que não fosse um livro aberto, a chave, vai buscar a chave, e as saudades dos pais que viviam noutro continente, com um oceano de lágrimas no meio, marcadas como chuva nas folhas, letras que transbordavam das palavras e escorriam pelas páginas, como se a saudade tivesse fermento e crescesse sempre, os desabafos escritos em cursivo como avenidas sobre a almofada que ao atravessarem a garganta sufocavam e queimavam como lava incandescente, e no escuro da noite a fotografia da mãe à porta de casa, aparição por entre os lençóis, a olhar para o jardim que ela não via há quatro anos, é preciso ter atenção à juventude, o amor é perigoso na adolescência e uma bofetada bem dada faz milagres. E foi o que aconteceu; durante trinta anos não escreveu mais nada. Agora tem continuado a escrever desde que colocou uma tabuleta na janela, um blogue privado não é um blogue, é uma snobeira ou uma anedota, mas um diário fechado à chave continua a ser um diário, matou um blogue para salvar um diário, foi o que fez, e já quase se livrou do Inverno. E é claro que não fez um único convite; quem é que ia convidar para um velório?

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