Atalhos de Campo


10.2.15

A Quinta das três datas



































                       Ao Pedro D., que nunca desistiu.

Quando dou a morada, perguntam-me o lote, a seguir faz-se um silêncio quando digo que aqui não há porta, mas portão, nem número ou andar, nem esquerda nem direita. Acham estranho que alguém viva numa quinta que não esteja dividida em lotese em que a rua é na verdade uma estrada. Também têm dificuldade em encontrar o código postal. E não há carteiro faz anos; a correspondência é trazida duas vezes por semana pelo senhor que aqui trabalha. Nesse aspecto é bem possível que esteja tudo tão imutável como na primeira data inscrita, 1910, o ano da implantação da República, quando terminou a construção do tanque, (feito pelo dono antigo), em que as crianças da família se lembram de vir mergulhar nos Verões de há cinquenta anos, os velhos da vila contam como a pé, e à socapa, atravessavam os campos para aqui chapinharem sem pé, em bandos clandestinos, e onde a certa altura se criaram achigãs.


Durante a construção do tanque foi erguido um muro alto rematado a telha e caiado de branco, e um sistema de canais e de comportas por onde corria a água tirada do poço por uma nora com a ajuda de um muar. O muro secular continua a delimitar a ribeira em cujas margens crescem freixos, caniçais e silvas, e a proteger a área onde era antigamente a horta com os seus criadores, e o pomar. Na união entre o muro e a nora surgiu a pequena casa do hortelão, para guardar utensílios agrícolas, e uma chaminé exterior garantia o almoço aquecido aos trabalhadores que variavam, dependendo da sazonalidade das tarefas. Embora a quinta não se possa considerar grande quando medida pelos padrões das herdades alentejanas, consta que abastecia a vila mais próxima, até meados do século passado. Era frequente a visita de carroças puxadas por mulas, que saíam carregadas de fruta e de legumes para distribuir pelos arredores. Várias outras construções de maiores dimensões e um casão agrícola, prestavam apoio às outras actividades, que incluíam a criação de porcos. Numa delas encimada por um terraço, destacava-se uma enorme chaminé, e no interior uma grande salgadeira e um fumeiro, fariam pensar numa cozinha para conservar as carnes e confeccionar  enchidos. 


Mas nem sempre foi assim. Quando mudou de mãos, por herança, ainda houve a tentativa de manter as mesmas actividades até ser arrendada no princípio dos anos setenta. Com o 25 de Abril o que era arrendamento passou a ser ocupação, que só viria a terminar no final dos anos oitenta. Durante esses anos, a quinta já anteriormente em decadência, esteve praticamente ao abandono. Quando foi recuperada pelo irmão do anterior proprietário, a horta tinha sucumbido à invasão de silvas e caniços pelas margens da ribeira, a nora já não funcionava, e as construções estavam parcialmente em ruínas. 


A reconstrução terminou em 1992. A data da segunda inscrição com o monograma do ferro da nova família, foi gravada na chaminé principal da actual casa, construída a partir da anterior cozinha, à qual foi acrescentado um andar e em cujas paredes ainda se fazem sentir os vestígios da antiga salgadeira. Um projecto de jovem agricultor veio dinamizar novamente a propriedade, os porcos foram substituídos por ovelhas, e a aveia, o trevo, a erva do Sudão e a tremocilha, passaram a ser cultivados alternadamente para pastagem e forragem. Uma área não cultivada foi usada para fazer um montado. Em volta da casa, a antiga aridez deu lugar a um relvado com pinheiros mansos e pimenteiras; ao longo das veredas, plantaram-se loendros, palmeiras-das-canárias, amoreiras, freixos, áceres e choupos. 


Seguiram-se períodos  de mais ou menos actividade, as árvores foram crescendo, os pássaros aproximaram-se, atraídos por abrigo e frescura, tornando encantadora toda a envolvência, mas a horta nunca mais recuperou o dinamismo de outros tempos. Há dois anos começou um novo ciclo: aquela zona foi novamente desmatada, arada e semeada, os freixos podados e a ribeira limpa. O loureiro reganhou perfume em Agosto, a nespereira deu uma cesta de nêsperas em Junho, a nogueira ressuscitou do matagal em Julho, e as oliveiras e marmeleiros surgiram da sombra contra os muros caiados de novo, em Setembro. Replantou-se o antigo pomar: laranjeiras, tangerineiras, macieiras, ameixeiras e diospireiros. Rosas trepadeira cobriram a nora de cachos de flores, em Maio. A beleza da ribeira e o canto dos rouxinóis nas noites de Primavera fizeram repensar a casinha do hortelão. O telhado foi consertado, as paredes rebocadas, e a chaminé que estava a cair foi restaurada. Os canteiros antigos delimitados a tijolo reapareceram por entre terra e folhas mortas como achados arqueológicos, e este ano já vai haver favas. A bica em pedra voltará a encher o lago, e o tanque(onde as mulheres lavavam roupa há muitos anos) irá competir com o som da água na ribeira que ainda corre límpida sobre os seixos.

« (...)para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. » 
Giuseppe Tomasi di Lampedusa/ O Leopardo

Nota: Este texto foi inspirado na excelente crónica de Paulo Varela Gomes, Marfalopublicada no livro Ouro e Cinza, e dedicado ao trabalho continuado de um homem exemplar.

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