Atalhos de Campo


28.2.15

a porta do cavalo








E Polo:- O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver e dar-lhe lugar.

Italo Calvino/ As Cidades Invisíveis 



coreografia para um poema



Onde mora a memória obscura, onde
esse cavalo persiste como um relâmpago de pedra,
onde o corpo se nega, onde a noite ensurdece,
caminho sobre pedras na minha casa pobre.

Não conheço esse lago, não fui a esse país.
Mas aqui é um termo ou um princípio novo.
Com a baba do cavalo, com os seus nervos mais finos
reconstruí o corpo, silenciei os membros.

Não se estancou a sede, no mesmo caos de agora,
mas a língua rebenta, as vértebras estalam
por uma nova língua, por um cavalo que una

a terra à tua boca, e a tua boca à água.

António Ramos Rosa/Ciclo do Cavalo(1975)

Cf. Memória de Alcatruz/Atalhos ao vento(9/9/2014)

memória. curta # 3

Levou um Schnauzer à vacina e contou que quando era pequena já tinha tido um cão da mesma raça, mas gigante, e que nessa altura iam a uma outra clínica. Com o evoluir da conversa, depreendi que também eu tinha sido a veterinária desse cão. Ela pediu-me desculpa por não me ter reconhecido, mas em contrapartida lembrava-se muito bem das minhas mãos, que eram muito limpinhas. Entretanto já tinham passado quinze anos, e eu ainda me lembrava do nome do outro cão.

verniz

o verniz tem dois problemas: às vezes é só uma camadinha, outras até salta.

27.2.15

do pecado



  Sonho com um confessor ideal, a quem dissesse tudo,
 a quem revelasse tudo, sonho com um santo insensível.
 Cioran/Do Inconveniente de ter Nascido  

per apressarm'al ciel dond io derivo

15
Dite me veggo e di lontan mi chiamo
per apressarm'al ciel dond io derivo,
e per le spezie all'esca a te arrivo,
come pesce per fil tirato all'amo.
E perc'un cor fra dua fa picciol segno
di vita, a te s'è dato ambo le parti;
ond'io resto, tu'l sai, quant'io son, poco.
E perc'un'alma infra duo va'l più degno,
m'è forza, s'i' voglio esser sempre amarti;
ch'i' son sol legno, e tu se' legno e foco.

Michelangelo Buonarroti/Rime(XVI secolo)



26.2.15

Só uma pergunta:



- Como é que te chamas?

viagem de inverno



Where are you going?
                 
                              *                  

As a stranger I arrived
As a stranger I shall leave
(...)
Wilhelm Müller/Schubert
Winterreise

a terceira emenda

este blogue é voluntariamente privado; 
os seus conteúdos não interessam nem ao menino jesus.  

momento

Passamos juntos pelo meio-dia,
a esta hora todos os pássaros se calam; 
estarão só a dormir a sesta?

Teresa Borges do Canto

25.2.15

e ela, que queria apenas uns binóculos

Não era preciso muito mais do que atravessar o hall de entrada, para assomar ao seu novo mundo, um universo de handicaps. A este planisfério chega-se lentamente, pensava, quando não se entra pela porta da urgência. Sorriu a uma rapariga agarrada a um par de canadianas, que apoiava só a ponta do pé direito no chão. Mal acabara de se cruzar com ela, e já o sorriso lhe fugia até ao casal vagaroso à sua frente, pousando na senhora que amparava cuidadosamente o marido, enquanto alguém os ultrapassava numa cadeira de rodas. Como ainda era cedo conseguiu facilmente um lugar e sentou-se a ler. Não passou muito tempo até começarem a surgir pacientes envergando muletas, baruks, botas ortopédicas aparatosas, que mais pareciam espaciais,- mas nada de gessos, coisa antiga(que os grafitti são definitivamente para os muros),- gente ligeira, que ficava de pé com um braço ao peito, senhoras de certa idade acompanhadas por familiares, uma delas, linda, que levava na cabeça um chapelinho preto, acabara de sair de um dos gabinetes, e seguia na sua cadeira rolls-royce, conduzida em cruise control por chauffeur experiente, já com muitos quilómetros de corredores de hospital. 


Teresa sabia que aparecer pela mão, ou pelos próprios pés, não era garantia de sair de lá a usá-los, que isto dos ossos é como um jardim, é preciso estacas para que as árvores cresçam direitas, para que tudo fique mais harmonioso, e para que se prossiga com menos dor; por isso lhes entregamos o sofrimento juntamente com as mãos, as pernas, os braços, os pés, os joelhos, os dedos. Entretinha-se com estes pensamentos observando o grupo silencioso, as incapacidades e as claudicações lado a lado com as ortóteses, as talas, os pensos, as ligaduras elásticas e os exames, resignadamente à espera da sua vez, cada pessoa com esperança de se libertar do seu próprio desconforto, e da sua dor, que as há avassaladorasa amarinharem por nós acima, até conquistarem cada traço do rosto, cada gestocada movimento


No final ela tinha a certeza que lhe diriam que tinha corrido tudo muito bem, que agora só faltavam mais dois meses, e que regressaria contente para casa, porque acreditava que sim, que aquele era um mundo transitório, tal como este, em que estamos habituados a viver. E foi então que recordou o rapaz alto e muito pálido, que não sorria, curvado sobre a perna flectida que sustentava com dificuldade, rodeado pelos abraços das irmãs e mimos da namorada, e se lembrou da expressão de preocupação dos pais ao abandonarem o elevador no mesmo piso que ela, na primeira noite que passou no hospital.

Cf.Um diário de campo(5/5/2014).A retalho(1º post do blogue)

24.2.15

Biombo

uma dor na cabeça

Eu amo-te
je t'aime/Eu-a-mo-te

Ao ler estas palavras Madeleine sentiu-se inundada de felicidade. Olhou para Leonard, a sorrir. Com um dedo, ele fez-lhe sinal de que continuasse a ler: A figura não se refere à declaração de amor, à confissão, mas à proferição repetida do grito de amor. Imediatamente a felicidade de Madeleine diminuiu, usurpada pela sensação de perigo. Quem lhe dera não estar nua. Encolheu os ombros e cobriu-se com o lençol enquanto, obedientemente, continuava a ler. Passada a primeira confissão, «eu amo-te» deixa de ter significado...Sentado nos calcanhares, Leonard tinha no rosto um sorriso trocista.
Foi então que Madeleine lhe atirou o livro à cabeça.

Jeffrey Eugenides/O Enredo Conjugal

Nota:a propósito de uma leitura de Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes



Cf. Dual(18/10/2014).Atalhos ao sol 
    Testosterona(20/10/2014).Noite
     

Panela de pressão

objecto arcaico,(com uma válvula de escape para impedir a explosão), precursor da bimby

em memória da Marmita de Papin,1679
Cf. Rolo da massa(12/11/2014).Atalhos ao sol

23.2.15

fragmento

Eu-amo-te não tem utilidade. Esta palavra, tal como a utiliza uma criança, é encarada sem qualquer constrangimento social; pode ser uma palavra sublime, solene, ligeira, pode ser uma palavra erótica, pornográfica. É uma palavra socialmente oscilante.

Roland Barthes/ Fragmentos de um Discurso Amoroso/ EU AMO-TE

manolo "de baruk"


de acordo (com os pássaros)

o canto dos estorninhos descreve deliciosos arcos nas madrugadas, depois esgota-se em linha recta por entre os ramos mais ínfimos do silêncio

Cf. Sturnus unicolor(29/1/15).Atalhos ao sol; 
    O estorninho(30/1/15).Noite 

20.2.15

na bolsa de Fabritius

Quando li O Pintassilgo lembrei-me muitas vezes de quando estive na Frick Colletion à frente do maravilhoso quadro do holandês Carel Fabritius, e de como me transmitiu a sensação de transitoriedade. A vida representada por um pequeno pássaro primorosamente bem pintado, ao mesmo tempo efémera mas eternamente prisioneira do voo sem asas daquele olhar triste, que após breve  momento voltaria a ocupar o seu lugar em qualquer livro de naturezas-mortas. Ler Donna Tartt deixou-me com nostalgia das minhas histórias com pássaros, uma delas há muitos anos, exactamente com um pintassilgo. Ainda no ano passado, a vontade de homenagear esse pássaro, e a liberdade, me fez voltar a folhear os livros de arte com quadros da pintura de género do século XVII, na qual me inspirei para pintar uma parede de casa. Ao longo da leitura de O Pintassilgo pensei muito em qual teria sido o rumo do meu filho se eu tivesse desaparecido quando ele era ainda um miúdo de treze anos, como o Theo Decker, Potter como lhe chamava Boris, o seu melhor amigo; Potter de Harry Potter, um miúdo que se vestia como um nova-iorquino caído sem pára-quedas em Las Vegas, e que era alvo da troça dos colegas de T-shirt e havaianas. Descobri há pouco tempo que pintassilgo em holandês se escreve putter, e que Fabritius poderá ter pintado o quadro para o seu amigo e comerciante de sedas, Abraham de Potter, que também retratou. Parece-me plausível que Tartt se tenha deixado inspirar por essa amizade de Fabritius, transformando o, de Potter, do século XVII, no Potter do Século XX. Carel Fabritius morreu cedo, e quase parece ter tido uma premonição ao fazer uma obra-prima acorrentada ao seu destino, num quase auto-retrato no ano da sua morte. E já agora e apenas por curiosidade, os pintassilgos têm anatomicamente (como de resto, as outras aves) uma Bolsa de Fabricius, órgão importante na resistência às infecções. Não há coincidências, diria Freud.

Cf. Apolo70  24/1/15 A retalho

memória. curta # 2

Consultar um pato é raro, e ainda mais na cidade; o certo é que uma vez foi um pato à consulta. E não era um pato qualquer, era uma das estrelas de um circo russo, que precisava de um atestado de sanidade para poder viajar para a Rússia, depois de uma digressão do circo pela Europa. Lembro-me de que era muito bonito embora vulgaríssimo - daqueles para arroz de - e deveras estimado por ser uma vedeta. Na altura julgo ter ficado aliviada por ele não ser de Pequim, e de temer que me tivessem vindo pedir uma receita, em vez de um atestado.  

19.2.15

do silêncio dos pássaros


também há pássaros que dão árvores


do canto dos pássaros

The goldfinch, according to Isidorus, that is a small 
bird which lives on thistles, and it is a great miracle
that this bird should sing so well yet be nourished by
the sharp stings of the thistles. It is then compared to 
Christ: you yuorself sang on earth until bitter death.

Norbert Schneider/ Still Life



horns and thistles it shall bring forth for you;
and you shall eat plants of the field.
Genesis 3.18

da inteligência dos pássaros

Abraham Mignon
(1640-1679)
pormenor
Furthermore, it is its nature that as soon as it is captured and put in a cage, it uses its beak to draw water from a vessel suspended by a thread which it holds for hours by its foot while it is drinking. It is a miracle of nature that it should have imparted so much skill to a little bird, a degree of intelligence unsurpassed by cattle or donkey or any large animal.

Norbert Schneider/ Still Life

 

de a dor

Pain- has an Element of Blank-
It cannot recollect
When it begun- or if there were
A time when it was not-

It has no Future- but itself-
Its Infinite contain
Its Past- enlightened to perceive
New Periods- of Pain.

Emily Dickinson/ Duzentos Poemas

Pai, desenhe um barco

Ontem, antes da meia-noite, desci as escadas de costas e com cuidado agarrada ao corrimão, assentando bem cada pé no degrau, sei que o fiz por ti, e abri a porta para o jardim que dá para a noite. Procurei o sítio no céu onde tenho a certeza que estás, sentei-me num banco à espera (dez minutos?) que chegasse o perfume da Via Láctea, de olhos postos na zona nebulosa e lacrimosa onde estão agora as tuas mãos,- e onde me ensinaste que Exupéry apagara o seu asteróide, antes de cair devagar, Andersen fizera desaparecer a pequena sereia, e Nodi escondeu a borracha mágica- e pedi-te, como fazia tantas vezes em pequena quando me sentava ao teu colo: Pai, desenhe um barco. E vi o barco a navegar pelo canal iluminado entre a Ursa Menor e Cassiopeia, o mesmo paquete que desenhavas nas folhas brancas de Domingo. Nimbos e cirros escondiam o sol do outro lado do céu, chuvas torrenciais, ventos e tempestades naufragavam o outro lado da terra, até avistar em segurança o Cruzeiro do Sul, do lugar onde sabias que eu tinha perdido o sonho.  

Ao meu pai     

18.2.15

cocoon

Falava há pouco tempo com o meu médico acerca das mulheres, no final de uma consulta. Encantado, dizia que não havia nada mais maravilhoso do que as mulheres, mas confirmava aquela tendência que nós temos para preferirmos as mulheres mais jovens. Pois, ironizei eu, as mulheres deviam morrer todas aos trinta e cinco anos, a idade em que vocês acham que nós perdemos definitivamente a validade. Assim éramos todos felizes, nós sempre jovens, e vocês sempre rodeados de ninfetas. Ele, parecendo-me chocado, sublinhou : com estas análises, você tem no mínimo mais trinta anos de vida, enquanto eu pensava no que ia fazer com mais trinta anos, de velha.

mujeres al borde de un ataque de nervios (1)

As mulheres estão mais bem preparadas do que os homens para superar as dificuldades. Vivem das suas emoções. Não pensam senão nelas. Quando escolhem os amantes, é simplesmente para ter alguém a quem possam armar escândalos.

Oscar Wilde/A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde

Após uma desavença e disputa pessoal entre uma mulher e um homem, uma parte sofre mais com a ideia de ter magoado a outra; enquanto esta sofre mais com a ideia de não ter magoado o outro o bastante, e por isso se empenha depois, com lágrimas, soluços e caras feias, em lhe amargurar o coração.

Friedrich Nietzsche/100 Aforismos sobre o Amor e a Morte

latitude e longitude


é sempre possível encontrar em Nietzsche 
uma ideia e o seu contrário, razão porque 
é tão lato. Tratou logo disso, desse jogo
espacial entre ordenadas e abcissas.


brânquia(mento)



 Cf./Riefensthal debaixo de água (10/5/2014).Atalhos ao sol

caminhar


17.2.15

o que não mata (engorda)


na versão de Nietzsche:
aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes

cf./ Luar remasterizado(14/9/2014);Ao luar

o silêncio
























A história relata o que aconteceu
o silêncio narra 
o que acontece

José Tolentino Mendonça

a somatização da alma


às vezes as dores no corpo são amputações da alma, resistentes aos analgésicos 

o anjo e a asa amputada

ao som do vento



Quando o vento da terra 
nos pinheiros é mar, 
do céu mergulham aves



Teresa Borges do Canto
(haiku ocidental)

Litania



Queres saber o que rezo nas orações?
troncos secos, gravetos
cercas e barro vermelho

José Tolentino Mendonça

16.2.15

blogue só para leitores convidados

Faltavam-lhe (ainda) duas estações para cumprir o desafio que fizera a si própria: o rigoroso Inverno e a radiosa Primavera. Depois? Depois logo se veria. Tinha coisas para dizer, (mas a quem, era a grande interrogação), provavelmente só a ela mesma, e para isso precisava de sossego. Não propriamente de silêncio, mas de paz de espírito, de tranquilidade, enfim, da que fosse possível. Este era o diário que tinha falhado na juventude, o diário que fechara à chave, porque na verdade ele tinha uma chave que persuadia a que pensassem que lhe apanhariam confidências, e que agora ameaçava falhar pela segunda vez, mas pela razão oposta, já que este era um diário virtual. Não que fizesse confidências, não que as tivesse feito, afinal o que é uma confidência, a arte esconde a verdade, vai buscar o teu diário, e ela a trazê-lo da gaveta da cómoda, sem chave, mas para que servia um diário que não se podia abrir, para que servia uma vida que não fosse um livro aberto, a chave, vai buscar a chave, e as saudades dos pais que viviam noutro continente, com um oceano de lágrimas no meio, marcadas como chuva nas folhas, letras que transbordavam das palavras e escorriam pelas páginas, como se a saudade tivesse fermento e crescesse sempre, os desabafos escritos em cursivo como avenidas sobre a almofada que ao atravessarem a garganta sufocavam e queimavam como lava incandescente, e no escuro da noite a fotografia da mãe à porta de casa, aparição por entre os lençóis, a olhar para o jardim que ela não via há quatro anos, é preciso ter atenção à juventude, o amor é perigoso na adolescência e uma bofetada bem dada faz milagres. E foi o que aconteceu; durante trinta anos não escreveu mais nada. Agora tem continuado a escrever desde que colocou uma tabuleta na janela, um blogue privado não é um blogue, é uma snobeira ou uma anedota, mas um diário fechado à chave continua a ser um diário, matou um blogue para salvar um diário, foi o que fez, e já quase se livrou do Inverno. E é claro que não fez um único convite; quem é que ia convidar para um velório?

caixa de comentários:

Feira de Estremoz

 -Daqui lavamos as mãos- disse o coro-,
 e foi então que ela lhes ofereceu os sabonetes. 

memória. curta # 1

uma das boas memórias que guardo tem a ver com água limpa, sabão, e uma toalha lavada trazida com deferência no final de ter tratado e feito um penso a um animal ferido, num domicílio.

15.2.15

Valsa de Domingo



partiram-lhe os dedos, o primeiro de cada pé; depois
serraram o osso, em cada pé; depois consertaram tudo
enquanto ela ainda dormia, e fizeram um penso; a seguir
disseram que ia doer, muito, que só poderia dançar a 
valsa da dor, como a pequena sereia, e que como ela,
um dia se transformaria em espuma do mar; aceitou.

11.2.15

estilo manuelino























 - Onde fuste? És mesmo torsa. 

o sal da terra

Nós éramos os leopardos, os leões; esses que nos
substituíram são os chacais, as hienas; e todos 
os leopardos, chacais e ovelhas continuarão a
acreditar no sal da terra.

Giuseppe Tomasi di Lampedusa/ O Leopardo


10.2.15

A Quinta das três datas



































                       Ao Pedro D., que nunca desistiu.

Quando dou a morada, perguntam-me o lote, a seguir faz-se um silêncio quando digo que aqui não há porta, mas portão, nem número ou andar, nem esquerda nem direita. Acham estranho que alguém viva numa quinta que não esteja dividida em lotese em que a rua é na verdade uma estrada. Também têm dificuldade em encontrar o código postal. E não há carteiro faz anos; a correspondência é trazida duas vezes por semana pelo senhor que aqui trabalha. Nesse aspecto é bem possível que esteja tudo tão imutável como na primeira data inscrita, 1910, o ano da implantação da República, quando terminou a construção do tanque, (feito pelo dono antigo), em que as crianças da família se lembram de vir mergulhar nos Verões de há cinquenta anos, os velhos da vila contam como a pé, e à socapa, atravessavam os campos para aqui chapinharem sem pé, em bandos clandestinos, e onde a certa altura se criaram achigãs.


Durante a construção do tanque foi erguido um muro alto rematado a telha e caiado de branco, e um sistema de canais e de comportas por onde corria a água tirada do poço por uma nora com a ajuda de um muar. O muro secular continua a delimitar a ribeira em cujas margens crescem freixos, caniçais e silvas, e a proteger a área onde era antigamente a horta com os seus criadores, e o pomar. Na união entre o muro e a nora surgiu a pequena casa do hortelão, para guardar utensílios agrícolas, e uma chaminé exterior garantia o almoço aquecido aos trabalhadores que variavam, dependendo da sazonalidade das tarefas. Embora a quinta não se possa considerar grande quando medida pelos padrões das herdades alentejanas, consta que abastecia a vila mais próxima, até meados do século passado. Era frequente a visita de carroças puxadas por mulas, que saíam carregadas de fruta e de legumes para distribuir pelos arredores. Várias outras construções de maiores dimensões e um casão agrícola, prestavam apoio às outras actividades, que incluíam a criação de porcos. Numa delas encimada por um terraço, destacava-se uma enorme chaminé, e no interior uma grande salgadeira e um fumeiro, fariam pensar numa cozinha para conservar as carnes e confeccionar  enchidos. 


Mas nem sempre foi assim. Quando mudou de mãos, por herança, ainda houve a tentativa de manter as mesmas actividades até ser arrendada no princípio dos anos setenta. Com o 25 de Abril o que era arrendamento passou a ser ocupação, que só viria a terminar no final dos anos oitenta. Durante esses anos, a quinta já anteriormente em decadência, esteve praticamente ao abandono. Quando foi recuperada pelo irmão do anterior proprietário, a horta tinha sucumbido à invasão de silvas e caniços pelas margens da ribeira, a nora já não funcionava, e as construções estavam parcialmente em ruínas. 


A reconstrução terminou em 1992. A data da segunda inscrição com o monograma do ferro da nova família, foi gravada na chaminé principal da actual casa, construída a partir da anterior cozinha, à qual foi acrescentado um andar e em cujas paredes ainda se fazem sentir os vestígios da antiga salgadeira. Um projecto de jovem agricultor veio dinamizar novamente a propriedade, os porcos foram substituídos por ovelhas, e a aveia, o trevo, a erva do Sudão e a tremocilha, passaram a ser cultivados alternadamente para pastagem e forragem. Uma área não cultivada foi usada para fazer um montado. Em volta da casa, a antiga aridez deu lugar a um relvado com pinheiros mansos e pimenteiras; ao longo das veredas, plantaram-se loendros, palmeiras-das-canárias, amoreiras, freixos, áceres e choupos. 


Seguiram-se períodos  de mais ou menos actividade, as árvores foram crescendo, os pássaros aproximaram-se, atraídos por abrigo e frescura, tornando encantadora toda a envolvência, mas a horta nunca mais recuperou o dinamismo de outros tempos. Há dois anos começou um novo ciclo: aquela zona foi novamente desmatada, arada e semeada, os freixos podados e a ribeira limpa. O loureiro reganhou perfume em Agosto, a nespereira deu uma cesta de nêsperas em Junho, a nogueira ressuscitou do matagal em Julho, e as oliveiras e marmeleiros surgiram da sombra contra os muros caiados de novo, em Setembro. Replantou-se o antigo pomar: laranjeiras, tangerineiras, macieiras, ameixeiras e diospireiros. Rosas trepadeira cobriram a nora de cachos de flores, em Maio. A beleza da ribeira e o canto dos rouxinóis nas noites de Primavera fizeram repensar a casinha do hortelão. O telhado foi consertado, as paredes rebocadas, e a chaminé que estava a cair foi restaurada. Os canteiros antigos delimitados a tijolo reapareceram por entre terra e folhas mortas como achados arqueológicos, e este ano já vai haver favas. A bica em pedra voltará a encher o lago, e o tanque(onde as mulheres lavavam roupa há muitos anos) irá competir com o som da água na ribeira que ainda corre límpida sobre os seixos.

« (...)para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. » 
Giuseppe Tomasi di Lampedusa/ O Leopardo

Nota: Este texto foi inspirado na excelente crónica de Paulo Varela Gomes, Marfalopublicada no livro Ouro e Cinza, e dedicado ao trabalho continuado de um homem exemplar.

Brasão

Gattopardo pode ser uma citação ao felino selvagem,
que foi violentamente caçado na Itália, até à sua
extinção, em meados do século XIX.
Wikipédia


7.2.15

a velha fossa

Para mim- e persistirei em repeti-lo até morrer, até cair de borco sobre o meu mal-agradecido rosto niilista e estar demasiado fraco para o dizer: melhor nunca ter nascido do que nascer nesta cloaca. Abismo de camas de hospital, caixões, e corações partidos. Sem libertação, sem apelo, sem «transformações», para empregar uma palavra favorita de Xandra, sem sentido para a frente a não ser a idade e a perda, e sem saída a não ser a morte.
Donna Tartt/ O Pintassilgo

6.2.15

quantos quilos vale um link?

Que é feito das antigas enciclopédias das casas dos nossos pais, avós,(bisavós), desses livros encadernados e imprescindíveis folheados com avidez, que careciam de volumes de actualização e guardavam palavras e conhecimentos por ordem alfabética(e muito espaço), nas estantes perdidas nos tempos? Consulto bastante a incompleta e rápida Wikipédia, embora tenha herdado um desses monumentos com o qual fui desistindo de conviver, mas que teimo em conservar. É que ainda não perdi a esperança de nos sentarmos na escada de pedra onde a arrumei por desordem, de propósito para ti, mesmo à mão de colher, nas tardes de Verão de quarenta graus, aproveitarmos para ler à sombra e ao acaso, tantos conceitos antigos(alguns que nem suspeitamos que existem) quantos couberem no degrau onde estivermos, lado a lado.

frutífero


































do teu lado ácido, ficou lucidez e imunidade. 

recrente e requerente




da música na dança e na dança da musica

5.2.15

diário íntimo

fazer confidências acerca de dinheiro é do foro íntimo; virginia woolf desabafa frequentemente no seu diário sobre despesas, comparações entre salários, ganhos, e apertos económicos; duvido que o fizesse online

ceci n'est pas un blog

agora tenho a certeza, isto já não é um blogue; matei-o. 

ciberdúvida

quantos bons livros já foram escritos a partir de blogues, com a pressão das visualizações e dos comentários, e quantos livros maus e medíocres apareceram de facto, escritos a partir de blogues? 

4.2.15

peso específico

Falei hoje ao telefone com um amigo de longa data, e de data longa. A certa altura abordou-se isto dos blogues. Perguntei-lhe se gosta mais de falar ou de escrever, e ele respondeu o que eu já imaginava, gosta muito mais da pergunta nos olhos do que dos olhos na pergunta. Então confessei-lhe que isto dos blogues me desiludiu, que enquanto toda a gente se levanta, toma o pequeno-almoço, bebe um café, e buzina no trânsito, a gente dos blogues se concentra sobretudo naquilo que pensa sobre os outros, quando se levanta, toma o pequeno-almoço, bebe um café, e buzina no trânsito. Ele, após um breve silêncio, concluiu: pois, têm falta de peso específico.