Atalhos de Campo


30.1.15

O estorninho

As malas estavam prontas à porta, quando ouviu o som estranho de alguma coisa a cair, podia ser uma moldura, um prato, um quadro pequeno que não estivesse bem pendurado, e que tivesse deslizado pela parede, até chocar com outro objecto. Voltou atrás para inspeccionar as divisões de onde lhe parecera possível ter vindo o ruído, mas não encontrou nada. Ia estar ausente durante dois dias e tinha horas a cumprir, por isso se apressou a fechar a casa, revendo mentalmente o que deveria ficar desligado, e verificou se não se tinha esquecido dos óculos. Saiu finalmente com a sensação de que tudo estaria em ordem, mas de facto não estava. Tinha caído um estorninho pela chaminé, que fizera tombar uma pinha sobre a grade de metal, e se mantivera quieto no silêncio arrefecido da lareira, mas mal ela dera a segunda volta à chave, já ele se lançava, ainda meio atordoado, contra o vidro enorme que separava a sala do jardim, confundindo-o com o céu que desabara. Foi deixando marcas de sangue, uma e depois outra, e outra, ao fazer tentativas cada vez mais desesperadas para o atravessar, empoleirando-se sucessivamente no sofá e na mesa de jantar. Ao longo da tarde, atraído pelo sol que rondava a casa, tentou escapar-se por todas as janelas do rés-do-chão, e pousando em todos os candeeiros, deixou vestígios da sua passagem, fuligem sangue e fezes, nos vidros, espelhos, molduras e móveis, enquanto o tal ruído era definitivamente derrotado pelo buliço incessante da cidade.


Esgotado o dia nos vários compromissos, regressaram ao hostel para saírem pouco depois a pé, por ruas sinuosas e mal iluminadas, à procura de um restaurante acolhedor nas redondezas, até desaparecerem na atmosfera ecléctica e universal que envolvia aquela parte da cidade, por entre silhuetas noctívagas, restos de frases multilingues, risos abafados pelos cachecóis e pelo frio. Enquanto a noite tomava conta da casa apagada no campo, a passarada recolhera aos seus abrigos em bandos barulhentos de hora de ponta, e só o ladrar dos cães ou o pio de alguma coruja conseguia surdir do vento, que agitava a sombra projectada das árvores numa dança irreal, entre o ecrã caiado das paredes e o oscilar ébrio nos caminhos. Ele escolhera a ventoinha do tecto de um quarto no primeiro andar, para se empoleirar com a cabeça escondida sob uma das asas, contra o corpo enfolado de penas ensanguentadas, a tremer de fraqueza.



Acordar no Bairro Alto, na casa branca das janelas com vista, o branco a desejar mais branco, era sair para a rua soalheira e tranquila, os jacarandás cheios de sombras verdes nos pátios, os jardineiros a tratarem as palmeiras e trepadeiras, escadas e corrimões em ferro cruzando várias travessas, atalhos ao sol entre floreiras e roupa estendida, arcos e calçadas em pedra, becos, lanternas e muros com graffiti. O pássaro não desistira da liberdade, e mal o sol despontara tinha recomeçado a voar para todas as divisões de onde vinha luz do dia. Na casa de banho uma torneira pingava, mas vendo-se reflectido no espelho ao tentar alcançar o outro, o que estava do lado de fora, derrubara dois frascos, a banheira tingira-se de gel azul, assustado derrapara no rolo de papel higiénico que se desenrolara pelo chão fora, voando de seguida para o parapeito, que percorrera a tentar encontrar uma saída, fazendo investidas cruentas, marcadas com insistência ao longo de todo o vidro e nos cantos; no escritório, pousara no computador aberto, e atirando-se contra as paredes fizera oscilar as molduras de um grupo de fotógrafos que ficaram tortas, a ponte de Kertész qual Torre de Pisa, o beijo de Doisneau ainda mais inclinado, René Burri virado para a esquerda, enquanto a janela se transformara numa batalha sangrenta de Cy Twombly.


Mr. Turner que pintava a luz como ninguém inspirando-se nos longos passeios pelas encostas escarpadas junto ao mar, cuspia para os sóis espalhando-os com as mangas dos casacos em poentes fabulosos,  e vivia as tempestades dos quadros atado aos mastros dos veleiros, morreu a grunhir que o sol era Deus, quando o estorninho, embora exausto, ainda experimentava sair pela última divisão do piso de cima, em direcção ao pôr-do-sol. Durante todo o tempo ventoso e agreste das duas horas e meia do biopic de Mike Leigh, tinha tentado empurrar a janela fechada com o bico, e já não conseguindo equilibrar-se nas patas, que escorregavam sobre o mármore, esvoaçara desesperado pela estante, deitando abaixo vários objectos das prateleiras, que se espalharam pelo soalho.


Foi no dia do regresso que o céu lhe pareceu finalmente possível. Empoleirado na janela com as portadas entreabertas como pálpebras pesadas sobre o montado, que se ia toldando ao ritmo da respiração ofegante, tentou ainda ganhar fôlego para o último voo. Ao aterrar na janela oposta, derrubou uma lanterna que o fez dar uma pirueta no ar, as asas a desobedecerem em queda desamparada, ao mesmo tempo que o Tejo, no seu impermeável cor de chumbo, era atravessado em bandeja inútil de betão até à lezíria, como uma bala perdida rumo a sul. Encontrou-o hirto, uma mancha amortalhada no seu próprio luto, um objecto estranho que a assustou quando entrou na sala às escuras e lhe tocou ao de leve, para seguir com horror os vestígios daquele sofrimento, enquanto foi acendendo as luzes.

A esperança tem penas e empoleira-se na alma 
a cantar a melodia mas sem dizer as palavras, 
e o canto nunca pára...
(...)
Emily Dickinson   

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