Atalhos de Campo


24.1.15

Apolo 70

Vai para mais de trinta anos, saí do Centro Comercial na Avenida Júlio Dinis, e deparei com um vendedor de rua que tinha várias gaiolas com pintassilgos ali mesmo à frente assentes sobre o passeio, o que hoje não seria possível porque (felizmente) é proibido comercializar estas aves. Quando me aproximei verifiquei que estavam bastante assustados, não tinham sido feitos para conviver com pernas e pés humanos, mas sim para se empoleirarem no céu. Eu tinha pouco dinheiro, fiquei a admirá-los, admitindo a tentação (que era crescente), de levar um para casa, fascinada por este pequeno pássaro que esvoaçava em pinceladas divinas de branco, vermelho, amarelo e preto, a máscara perfeita a emoldurar-lhe o canto que já tantas vezes ouvira, ave que não admitia, no entanto, grandes aproximações. Era minha essa oportunidade agora e por isso não resisti, escolhi um bem bonito que me pareceu saudável, e fiz o negócio com o senhor. Cheguei com uma surpresa, que silenciosamente se mantivera encolhida no fundo da caixa de papelão em que fora transportada. Havia uma gaiola de caninhas, um trabalho paciente made in Taiwan (ainda por estrear), e foi para aí que o pintassilgo foi viver. Morávamos numa vila a alguns quilómetros de Lisboa, a nossa primeira casa, num prédio cujas traseiras confinavam com uma longa seara e o Tejo, que flutuava vagarosamente no seu enorme leito de palha e se incendiava em fins de tarde junto ao céu. Era nessa paisagem que o pequeno pássaro aguçava o olhar através da cúpula rendilhada, e que todo o tempo tentou atravessar em esforços violentos de evasão, de encontro às grades ogivais da sua prisão domiciliária. No dia seguinte tive a certeza de que morreria, se assim continuasse. Voltei a colocá-lo na caixinha de papelão, desci de elevador para a rua, atravessei o parque de estacionamento e a estrada, meti-me pela seara fora até me aproximar o suficiente da única árvore. Quando abri a caixa, deslizei a mão no escuro até lhe sentir as penas macias, o coração a palpitar descontrolado entre os meus dedos, as asas debatendo-se até que as consegui imobilizar, o bico aberto a tentar defender-se. Com cuidado trouxe-o para aquela tarde subitamente iluminada, levantei o braço em direcção à árvore, abri a mão, e deixei-o voar. Foi então, logo de seguida mal pousou no primeiro ramo, que se virou para mim e inesperadamente começou a cantar, um canto vigoroso, como um hino. Ficámos ali, só nós os dois a ouvi-lo, num júbilo entre gorjeios e trinados, agradecido. Tenho a certeza que ouviste e que ao voltarmos para casa sorrias, no teu mundo amniótico. Fechámos a janela, olhámos para a árvore que de longe nos acenou com os seus braços de vento, e adormecemos nas asas da liberdade. Nascias algum tempo depois, faz hoje trinta e dois anos.

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