Atalhos de Campo


31.1.15

O açucareiro de jade

Defendia com a tampa o seu açúcar
Usada como o escudo de um guerreiro 
O que restara de uma tarde de chá
Com vista para a vereda de amoreiras:
As folhas largas, as jovens gargalhadas
Longas écharpes tecidas, e voando
Pequenos bichos na eira tricotando
Chapéus de sol e nuvens, que o vento
De surpresa ia tapando, e destapando.
O lanche acabou porque choveu
E na alegre debandada
Deixado sobre a mesa, o açucareiro
Guardou essa dádiva do céu.
Quando o encontrei anos mais tarde,
Entre as chávenas do aparador
Tinha em vez de açúcar branco,
Um xarope grosso e incolor.

9 de Outubro de 2012 

o último defeito

o teu cérebro em consonância

30.1.15

o primeiro defeito

o teu útero em rectroversão

O estorninho

As malas estavam prontas à porta, quando ouviu o som estranho de alguma coisa a cair, podia ser uma moldura, um prato, um quadro pequeno que não estivesse bem pendurado, e que tivesse deslizado pela parede, até chocar com outro objecto. Voltou atrás para inspeccionar as divisões de onde lhe parecera possível ter vindo o ruído, mas não encontrou nada. Ia estar ausente durante dois dias e tinha horas a cumprir, por isso se apressou a fechar a casa, revendo mentalmente o que deveria ficar desligado, e verificou se não se tinha esquecido dos óculos. Saiu finalmente com a sensação de que tudo estaria em ordem, mas de facto não estava. Tinha caído um estorninho pela chaminé, que fizera tombar uma pinha sobre a grade de metal, e se mantivera quieto no silêncio arrefecido da lareira, mas mal ela dera a segunda volta à chave, já ele se lançava, ainda meio atordoado, contra o vidro enorme que separava a sala do jardim, confundindo-o com o céu que desabara. Foi deixando marcas de sangue, uma e depois outra, e outra, ao fazer tentativas cada vez mais desesperadas para o atravessar, empoleirando-se sucessivamente no sofá e na mesa de jantar. Ao longo da tarde, atraído pelo sol que rondava a casa, tentou escapar-se por todas as janelas do rés-do-chão, e pousando em todos os candeeiros, deixou vestígios da sua passagem, fuligem sangue e fezes, nos vidros, espelhos, molduras e móveis, enquanto o tal ruído era definitivamente derrotado pelo buliço incessante da cidade.


Esgotado o dia nos vários compromissos, regressaram ao hostel para saírem pouco depois a pé, por ruas sinuosas e mal iluminadas, à procura de um restaurante acolhedor nas redondezas, até desaparecerem na atmosfera ecléctica e universal que envolvia aquela parte da cidade, por entre silhuetas noctívagas, restos de frases multilingues, risos abafados pelos cachecóis e pelo frio. Enquanto a noite tomava conta da casa apagada no campo, a passarada recolhera aos seus abrigos em bandos barulhentos de hora de ponta, e só o ladrar dos cães ou o pio de alguma coruja conseguia surdir do vento, que agitava a sombra projectada das árvores numa dança irreal, entre o ecrã caiado das paredes e o oscilar ébrio nos caminhos. Ele escolhera a ventoinha do tecto de um quarto no primeiro andar, para se empoleirar com a cabeça escondida sob uma das asas, contra o corpo enfolado de penas ensanguentadas, a tremer de fraqueza.



Acordar no Bairro Alto, na casa branca das janelas com vista, o branco a desejar mais branco, era sair para a rua soalheira e tranquila, os jacarandás cheios de sombras verdes nos pátios, os jardineiros a tratarem as palmeiras e trepadeiras, escadas e corrimões em ferro cruzando várias travessas, atalhos ao sol entre floreiras e roupa estendida, arcos e calçadas em pedra, becos, lanternas e muros com graffiti. O pássaro não desistira da liberdade, e mal o sol despontara tinha recomeçado a voar para todas as divisões de onde vinha luz do dia. Na casa de banho uma torneira pingava, mas vendo-se reflectido no espelho ao tentar alcançar o outro, o que estava do lado de fora, derrubara dois frascos, a banheira tingira-se de gel azul, assustado derrapara no rolo de papel higiénico que se desenrolara pelo chão fora, voando de seguida para o parapeito, que percorrera a tentar encontrar uma saída, fazendo investidas cruentas, marcadas com insistência ao longo de todo o vidro e nos cantos; no escritório, pousara no computador aberto, e atirando-se contra as paredes fizera oscilar as molduras de um grupo de fotógrafos que ficaram tortas, a ponte de Kertész qual Torre de Pisa, o beijo de Doisneau ainda mais inclinado, René Burri virado para a esquerda, enquanto a janela se transformara numa batalha sangrenta de Cy Twombly.


Mr. Turner que pintava a luz como ninguém inspirando-se nos longos passeios pelas encostas escarpadas junto ao mar, cuspia para os sóis espalhando-os com as mangas dos casacos em poentes fabulosos,  e vivia as tempestades dos quadros atado aos mastros dos veleiros, morreu a grunhir que o sol era Deus, quando o estorninho, embora exausto, ainda experimentava sair pela última divisão do piso de cima, em direcção ao pôr-do-sol. Durante todo o tempo ventoso e agreste das duas horas e meia do biopic de Mike Leigh, tinha tentado empurrar a janela fechada com o bico, e já não conseguindo equilibrar-se nas patas, que escorregavam sobre o mármore, esvoaçara desesperado pela estante, deitando abaixo vários objectos das prateleiras, que se espalharam pelo soalho.


Foi no dia do regresso que o céu lhe pareceu finalmente possível. Empoleirado na janela com as portadas entreabertas como pálpebras pesadas sobre o montado, que se ia toldando ao ritmo da respiração ofegante, tentou ainda ganhar fôlego para o último voo. Ao aterrar na janela oposta, derrubou uma lanterna que o fez dar uma pirueta no ar, as asas a desobedecerem em queda desamparada, ao mesmo tempo que o Tejo, no seu impermeável cor de chumbo, era atravessado em bandeja inútil de betão até à lezíria, como uma bala perdida rumo a sul. Encontrou-o hirto, uma mancha amortalhada no seu próprio luto, um objecto estranho que a assustou quando entrou na sala às escuras e lhe tocou ao de leve, para seguir com horror os vestígios daquele sofrimento, enquanto foi acendendo as luzes.

A esperança tem penas e empoleira-se na alma 
a cantar a melodia mas sem dizer as palavras, 
e o canto nunca pára...
(...)
Emily Dickinson   

25.1.15

Chá Príncipe

Pode ser branco, preto, verde
Pode ter sido até, uma simples infusão
Servida em chávena esquecida
Nalguma mesa perdida,
Ao fundo de um salão.
Pode ter sido vida,
Como é uma transfusão
Para uma doença fatal
Curada com chá de limão.
Mas sei de outro que é o príncipe,
Do fundo do meu quintal
Servido no bule real,
Que só alguns herdarão.

Lisboa, 12 de Novembro 2011

Ao Príncipe da Polónia

24.1.15

Apolo 70

Vai para mais de trinta anos, saí do Centro Comercial na Avenida Júlio Dinis, e deparei com um vendedor de rua que tinha várias gaiolas com pintassilgos ali mesmo à frente assentes sobre o passeio, o que hoje não seria possível porque (felizmente) é proibido comercializar estas aves. Quando me aproximei verifiquei que estavam bastante assustados, não tinham sido feitos para conviver com pernas e pés humanos, mas sim para se empoleirarem no céu. Eu tinha pouco dinheiro, fiquei a admirá-los, admitindo a tentação (que era crescente), de levar um para casa, fascinada por este pequeno pássaro que esvoaçava em pinceladas divinas de branco, vermelho, amarelo e preto, a máscara perfeita a emoldurar-lhe o canto que já tantas vezes ouvira, ave que não admitia, no entanto, grandes aproximações. Era minha essa oportunidade agora e por isso não resisti, escolhi um bem bonito que me pareceu saudável, e fiz o negócio com o senhor. Cheguei com uma surpresa, que silenciosamente se mantivera encolhida no fundo da caixa de papelão em que fora transportada. Havia uma gaiola de caninhas, um trabalho paciente made in Taiwan (ainda por estrear), e foi para aí que o pintassilgo foi viver. Morávamos numa vila a alguns quilómetros de Lisboa, a nossa primeira casa, num prédio cujas traseiras confinavam com uma longa seara e o Tejo, que flutuava vagarosamente no seu enorme leito de palha e se incendiava em fins de tarde junto ao céu. Era nessa paisagem que o pequeno pássaro aguçava o olhar através da cúpula rendilhada, e que todo o tempo tentou atravessar em esforços violentos de evasão, de encontro às grades ogivais da sua prisão domiciliária. No dia seguinte tive a certeza de que morreria, se assim continuasse. Voltei a colocá-lo na caixinha de papelão, desci de elevador para a rua, atravessei o parque de estacionamento e a estrada, meti-me pela seara fora até me aproximar o suficiente da única árvore. Quando abri a caixa, deslizei a mão no escuro até lhe sentir as penas macias, o coração a palpitar descontrolado entre os meus dedos, as asas debatendo-se até que as consegui imobilizar, o bico aberto a tentar defender-se. Com cuidado trouxe-o para aquela tarde subitamente iluminada, levantei o braço em direcção à árvore, abri a mão, e deixei-o voar. Foi então, logo de seguida mal pousou no primeiro ramo, que se virou para mim e inesperadamente começou a cantar, um canto vigoroso, como um hino. Ficámos ali, só nós os dois a ouvi-lo, num júbilo entre gorjeios e trinados, agradecido. Tenho a certeza que ouviste e que ao voltarmos para casa sorrias, no teu mundo amniótico. Fechámos a janela, olhámos para a árvore que de longe nos acenou com os seus braços de vento, e adormecemos nas asas da liberdade. Nascias algum tempo depois, faz hoje trinta e dois anos.

Pintassilgo


23.1.15

O pintassilgo



Espingarda Carregada- a minha Vida-
Por Cantos- assim fora
Até passar o Dono- Me marcar-
E Me levar embora-

E agora erramos em Bosques Reais-
E perseguimos uma Corça agora-
E cada vez que falo em Sua vez-
As Montanhas respondem sem demora-

E se eu sorrio, uma amigável luz
No Vale se faz ver-
É como se uma face de Vesúvio
Soltasse o seu prazer-

E quando à Noite- já cumprido o Dia-
Guardo a Cabeça do Meu Amo-
Melhor do que Almofada em Penas Suaves
Partilhada- no sono-

Do inimigo Seu- sou-o, mortal-
Não se torna a agitar-
Esse em quem pouse o meu Olho Amarelo-
Ou enfático Polegar-

Embora eu possa viver mais- do que Ele
Ele mais do que eu- deve viver-
Que eu tenho só o poder de matar,
Sem- o poder de morrer-

Emily Dickinson/ Duzentos Poemas

22.1.15

a caricatura e a kalashnikov

Há uns meses recebi um e-mail anónimo a alertar-me para o facto de determinado bloguer ter publicado um post contra mim. Achei estranho ser, logo eu, um alvo para tal cortesia. O mail começava por me felicitar pelo meu blogue, e depois ia directo ao assunto e asseverava que o tal post era, de facto, contra mim. Fui espreitar: havia uma fotografia, um texto desdenhoso, pessoas assim etc., e uma música. Fiquei a olhar para aquilo, que era obviamente para um tipo particular de criatura que nada tinha a ver comigo, a fotografia sinistra, idem, no fundo era uma crítica aos tempos da outra senhora, comparáveis à Idade Média, e à "Santa Inquisição", ao snobismo, aos tiques de classe, e por aí fora, redundante, bilioso. Não me sentindo atingida nem um bocadinho, achei ridículo e voltei sossegadamente para casa. Mas eis que me dei conta de que me tinha esquecido de ouvir a música, e voltei atrás de propósito, curiosa com a banda sonora. Cliquei na setinha que faz avançar, aumentei o som, e ouvi tiros, em rajada, apenas. Não sei quantos mortos, quantos feridos, nem quantos escaparam ilesos, mas uma coisa é certa, hoje sabemos, melhor do que ontem e talvez, o que é arrepiante, pior do que amanhã, que não somos todos charlie, mas somos todos caricaturáveis, o que não devemos é ser abatidos a tiro, só porque somos diferentes.  

21.1.15

chás, tisanas, infusões, etc.

Feira  de Estremoz

Absolut(ea)

This tea, this cup of tea, made of leaves,
made of the leaves of herbs and absolute

almond blossom, this tea, is interpreter
of almond, liquid touchstone which lets us
scent its true taste at last and with a bump,

in my case, takes me back to de yellow time
of trouble with blood testes, and cellular
madness, and my presence required

on the slab for surgery, and all that mess
I don't want to comb through here because
it seems, honestly, a trifle now that steam

and scent and strength and steep and infusion
say thank you that you thank you for then, and now

Jo Shapcott/ Of Mutability
Procedure

je suis chá(rlie)

há quem beba chá e nunca venha a herdar o bule
há quem não beba chá e tenha herdado o bule
há quem deteste chá e parta o bule
há quem goste de chá e preserve o bule
há quem não goste de chá e ame o bule
há quem nunca tenha provado chá
há quem não saiba o que é um bule
há quem faça chá em bules muito antigos
há quem venda o bule
há quem negoceie em bules
há quem venda chás
há quem não compre chá mas compre o bule
há quem roube o bule
há quem roube o chá
há quem ofereça um chazinho
há quem receba uma chazada
há quem diga bule comigo
há quem diga bule sem mim
há quem tenha raiva de quem bebe chá
há quem tenha raiva a casas de chá
há quem tenha raiva a casas com bules
há quem beba chá devagar
há quem emborque chá
há quem nem um chá tenha para beber
há quem finja que bebe chá
há quem lave o bule sem ter bebido o chá
há quem deteste lavar bules
há quem deixe o chá a apodrecer
há quem se esqueça de o beber
 quem morra por um chá
há quem mate por um bule.

20.1.15

My heart's in the highlands,

Queria ter a posição dos claustros
A posição do monge antigo que varre
A posição do moribundo que pergunta as horas
A posição das árvores quando as crianças sobem
A posição dos ramos quando os ninhos nascem
A posição de alguém que já não mora. Queria
Como se tivesse
A posição da casa e alguém me visitasse

Daniel Faria/ Poesia 

my heart is not here

partícula























Lucas 14.11
Pois todo o que se exalta será humilhado;
e o que se humilha será exaltado.

1.1.15

radical livre

prefiro de longe o lugar do morto ao lugar da vítima

cães e gatos

as pessoas que preferem gatos, são curiosas sobre cães
as pessoas que preferem cães, não querem saber nada sobre gatos

Edital

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
                       Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha
                                                    infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos/ Poesia
Adiamento 

a segunda emenda

Motto:
os cães ladram e a caravana passa. 

liberdade

preso por ter cão, e preso por não ter

o princípio dos vasos comunicantes

tiras-me a pressão toda
enquanto regas a horta, não consigo tomar banho