Atalhos de Campo


31.12.15

Teremos sempre 2016



Bruxuleante, como a luz do Sena,
a esperança é uma vela de emergência,
coto colorido, quando a electricidade
falha. Lembrar a vela, procurá-la
depois os fósforos, o trabalho patético
de a acender, reacender, firmar a base
e depois cinco segundos bruxuleantes,
a esperança, e a luz (eléctrica) voltou.

Uma Pequenina Luz/ Pedro Mexia


Que ardam doze velas cintilantes até à entrada de 2016.

2000+15

Quinze anos a mais tornam uma pessoa irreconhecível. Passa-se a linha dos cinquenta e começa-se devagar a peneirar o tempo. Decorreram quinze anos sobre 2000 e sobre mim. O mundo já não é o mesmo, está incompleto, é servido como um prato reaquecido. Isolo-me mais agora, para pensar. Mudei de vida. Gosto do campo. Gostaria de continuar assim, de fazer uma viagem por ano, de visitar a cidade apenas para me abastecer de livros e de música. Escrever é para mim guardar as memórias e esperar que alguém as encontre. Gostava que fosse um neto, uma bisneta. Presentemente ninguém que conheça se interessa muito por isso. Os nossos amigos querem estar connosco, não querem ler-nos. A nossa família também. Escreve, ou publica, quem gosta ou quem precisa de estar sozinho. Parece-me que é isso que nos une a todos, essa vontade de partilhar o que se faz em silêncio. Fazemos diários online, às vezes escrevemos textos preciosos que se perdem rapidamente no tempo. Contrariamente ao que acontece com um livro, um post prescreve quando não é lido quase imediatamente. É essa a ironia dos blogues em relação aos livros, a última página escrita deixa drasticamente de interessar. Um blogue pode ser também um precioso boletim meteorológico: pelos atalhos à chuva percebo que estes dois últimos anos foram de seca. Não me sinto com capacidade para dar o exemplo de nada, apenas porque fui muito mais uma observadora, e me sinto apenas isso, uma espectadora interessada pela minha própria vida.  

30.12.15

a cidade das flores e dos frutos



Buenos Aires será sempre a cidade das flores e dos frutos, a minha cidade de 2015. Mirei-a acima do chão, acima das ruas escalavradas como os meus joelhos de infância. Fitei-a com o olhar selectivo de ver; contemplei-a pelo coração de Borges. A miséria é estática, faz pose, é fotogénica, transitória, espelha-se em montras de botas floridas, casacos de pele de todas as cores, carteiras de luxo, perfumes exóticos. Teria sido fácil prová-lo, mas era também uma intrusão e uma deslealdade. Por isso encarei Buenos Aires como se olha para um livro que é preciso desvendar, e a li como se lê um longo poema de nobres e velhas palavras onde já todos estamos mortos, e onde jardins ondulantes de árvores seculares nos ultrapassarão para sempre. Como um sem-abrigo recente, que quase pisamos, adormecido a meio de um passeio da Recoleta, e outro, que junto aos contentores mexe no lixo espalhado pelo chão, anestesiada com a forte atmosfera impossível de respirar, entro em apneia até chegar a um quiosque de flores onde se detém uma bela rapariga reflectida num ramo de prímulas. E o jovem mendigo, que dorme alheio à sua própria beleza, esqueceu-se do olhar entreaberto, e do intenso cheiro a urina que o envolve e que se agarra às pernas nuas que lhe passam ao lado, evolando-se, por direito próprio do desamparo, nas ondas de um cabelo negro e brilhante. Aqueles continuarão a ser os passeios que Borges pisou, aquelas as casas que sabia de cor, aquele o tango saído de alguma viela, de algum fado já extinto, para que tudo isto se possa passar agora, no momento em que um portegño, numa esquina movimentada, faz um castelo de morangos, com as mãos a cheirar a fruta.



29.12.15

demasiado perto do céu

atalho à chuva

De madrugada os campos estão molhados, baços ainda do orvalho, envoltos ainda na cortina de nevoeiro em que a lua adormeceu. E é com a alegria forte da manhã, com o aquecimento das pedras e dos muros, com o aparecimento luminoso dos galhos mais finos contra o céu ainda húmido, com o som das galochas a rastejar nas ervas tombadas sobre os trilhos, que o sol dá conta que desapareceu um dos jovens pavões; e que o rebanho em fuga conseguiu derrubar a porteira caída para se refugiar numa estrema da quinta; e que uma borrega ficou presa no luar abafado pela manta de fumo do aconchego do mundo, e que, por causa disso, foi atacada numa coxa pelos bichos. Mas sobreviveu.    

28.12.15

flu tua






















mar-de-gente

(...)
A literatura é combater o lugar-comum, a associação previsível. Eleger palavras é perigoso, mas a primeira função do escritor é partir as palavras. Individualizá-las. Os lugares-comuns. Mar de gente: é bonito. Era tanta gente que era um mar. Mas a certa altura transforma-se num casamento eterno. O trabalho de um escritor é separar mar, separar gente, pô-los em circulação e pô-los disponíveis para fertilizarem com qualquer outra palavra. Esta disponibilidade amorosa das palavras dá o tom da escrita.
(...)
Mar de gente devia ser escrito com hífen no meio.
(...)
Gonçalo M. Tavares, em entrevista à Ler; Inverno 2015/2016 
(por Anabela Mota Ribeiro)

um homem que desenha bem



Gonçalo M. Tavares parece ter fugido de um romance de Queneau.
«É verdade. Foi de lá que fugi», dir-me-ia ele agora se pudesse 
saber o que estou a pensar. De certeza que ficaria delirante se 
soubesse que o imagino acabado de sair de umas páginas de Queneau. 
Tenho-o ao meu lado e, por muito real e bom amigo que seja, 
não consigo evitar que me recorde um homem desenhado.

Enrique Vila-Matas/Diário Volúvel

27.12.15

Perséfone e o Galo Capão

Fora devido ao aquecimento global do planeta que Perséfone se decidira a planear a fuga. Começaria a passar muito mais tempo longe da depressão do mundo subterrâneo. Por isso alugou uma casa em segredo numa das colinas da cidade, e rodeou-se de poucos objectos. Estudava com precisão os hábitos humanos, para conseguir passar despercebida. Ainda naquela manhã, ao regar os narcisos já nascidos dos bolbos que plantara, tinha mais uma vez regressado, por um qualquer atalho, aos perversos ardis de Hades. Agora, que estava finalmente por sua própria conta, queria esquecer e colocar-se o mais possível na pele de uma vulgar cidadã do mundo. Decidira portanto que iria celebrar o Natal. O galo assava já adiantado, inundando a cozinha de aroma suculento a mel pimenta e limão, a salada preparada com alface, chicória e cebolinho aguardava o tempero na bancada, o refogado para o arroz árabe estava feito. Tudo no seu tempo, pensou, sem stress, e suspirou de satisfação ao passar pela sala de jantar, com a mesa já posta sobre a toalha de renda antiga, onde os copos pareciam captar toda a luz do sol do fim da manhã, iluminando-lhe o olhar. Agradou-lhe o colorido das flores em pequenos tufos no meio dos frutos, as velas a várias alturas, o brilho acetinado mas gélido dos talheres, o verde jade da toalha sobre a qual assentava a renda branca, como um véu. 

Pegou numa romã do centro de mesa e levou-a consigo, pousando-a na borda da banheira. Era uma espécie de teste. Não se deixaria mais tentar pelo brilho das bagas translúcidas que lhe tinham estalado na boca, como um afrodisíaco de travo amargo. Enfiou-se devagar entre os sais e pétalas de flores da água, e foi mergulhando ao longo da banheira até que a água quente lhe cobrisse também o rosto. Fechou os olhos e sentiu que os cabelos lhe deslizam pelas costas, e que depois flutuavam como se tivesse acabado de morrer afogada. Deixou-se assim ficar, imóvel, elevando ligeiramente a cabeça, enquanto inspirava o vapor perfumado que se libertava à superfície. O gotejar propositado da torneira fazia eco na casa de banho, contribuindo para lhe descontrair o corpo imerso, abandonado em suave torpor. Mas ao entreabrir os olhos, Perséfone encarou mais uma vez a Mulher no Banho de Roy Lichtenstein, que lhe sorria  da parede em frente, e empertigou-se. Imitou-a, e, pegando na esponja natural, iniciou a massajem ao corpo, num gesto lânguido, mas contrariado. Começava a achar insolente aquele sorriso sempre igual, e irritava-a a diferença de idades, pois Perséfone, embora fosse ainda uma deusa, principiara já a sentir o peso dos séculos. O chuveiro de água tépida em jacto sobre o corpo antes de sair da banheira, fê-la despertar. Enrolou-se na toalha branca, que deixou fugir uma fímbria de luz de volta à janela alta, e dirigiu-se para o quarto. Ao atravessar a própria sombra como um pincel molhado, o cabelo foi deixando um rasto salpicado por entre as pegadas dispersas, aguareladas sobre o soalho. A roupa interior de cor preta antecipadamente escolhida, assim colocada na penumbra, pareceu-lhe suspensa sobre o branco lívido da colcha, marcada em esquadria contra o branco cinza das paredes. Era tão negra como o vestido que lhe deslizou pelo corpo magro. Quase se assustou com a imagem nua e desfocada que o espelho ainda lhe devolvia, desfasada em segundos no tempo. Já vestida, deixou o cabelo solto, apenas com risco ao meio, mas escolheu o colar com cuidado. Usaria uma gargantilha em ouro e jade, uma jóia do período pré-colombiano, que lhe assentava bem no pescoço longo e esguio, acentuado pelo decote profundo. Um risco feito com precisão a delinear-lhe os olhos, surgia rapidamente sob as unhas lacadas e ovais, brilhando na extremidade dos dedos compridos. Desenhou o contorno dos lábios e a boca apareceu como uma rosa rubra em botão, prestes a abrir. Estava pronta, e tinha fome. Aspergiu sobre o colo a fragrância preferida, e saiu do quarto a esvoaçar sobre os saltos pretos, em direcção ao galo capão que já deveria estar assado. 

O prato que trouxe servido da cozinha deixou um aroma delicioso no ar. Ninguém tocou à campainha. Perséfone não tinha convidados. Serviu-se do vinho, um néctar dos deuses que acabara de abrir, e almoçou sozinha, devagar e em silêncio. No fim comeu uma pequena porção do arroz doce que preparara de véspera, uma receita milenar que aprendera a fazer com Deméter, sua mãe, e onde estava desenhado com canela, pela própria mão, o cabelo de uma jovem mulher, entrançado num carrapito. Limpou cuidadosamente os lábios, deixando a boca decalcada em várias posições no guardanapo abandonado sobre a mesa, e foi preparar um café expresso aromatizado com baunilha, levando-o para o sofá. Abriu o livro de capa preta que deixara pousado na mesa ao lado, descalçou-se, e, enroscando-se em felicidade, retomou a leitura. Estava a Aprender a Rezar na Era da Técnica. Ainda bem que nenhum Lenz Buchmann lhe tocara à porta para almoçar com ela naquele dia, sorriu com a ironia entre dois capítulos, saboreando o último golo do café. Quando se deitou nessa noite na cama imaculada de lençóis lavados, e apagou a luz, pareceu ouvir nas suas costas o tom de voz semelhante a um gemido seco, do culminar de prazer curto e contido, de um homem. Assombrada reacendeu depressa a luz, mas foi com alívio que verificou que tudo se encontrava como antes. O lugar ao seu lado permanecia vazio, e não havia mais ninguém no quarto. Tranquila, adormeceu em segurança. 

23.12.15

Segue a tua Estrela

historinha de Natal com Menino Jesus

























Agora que passaram anos, bastantes, talvez mais de vinte, fico a pensar na minha reacção, na altura. Bem sei que o stress era muito, que a minha vida era uma ebulição, que por isso me era dado o direito de às vezes me saltar a tampa, mas hoje só posso sorrir, e talvez até achasse alguma graça ao que aconteceu. Não é verdade que tudo perde importância com o tempo, o que se passa é que com o tempo há uma inversão de importâncias. Naquele caso o assunto era sério, muito. Eu tinha encomendado um presépio à minha irmã. Sonhava com imagens em blanc de chine, e deixei-a decidir em tudo, sugerindo apenas simplicidade. Queria figuras de tamanho médio, vidradas a branco leitoso, a Sagrada Família, um burro, uma vaca. Um presépio minimal, portanto. Esperei. Eu sei que os artistas têm as suas idiossincrasias, e o direito à inspiração, por isso só a um mês do Natal é que lhe comecei a lembrar que ainda não tinha presépio e que esperaria por aquele, com alguma ansiedade. Nada. A uma semana do Natal relembrei que o nascimento estava próximo e que era melhor que o São José, dada a sua provecta idade, e o teimoso meio de transporte que usava, se apressasse a chegar ao destino, não fosse haver o azar de a criança nascer no caminho. Que sim, que só faltava mesmo o Menino Jesus. Está certo, pensei, ainda não nasceu, mas apressa lá isso. Que sim que ia fazê-Lo nessa noite. Silêncio. Comecei então a ver estrelas, não só uma, a Estrela, mas várias. Quando, finalmente, o presépio chegou, era véspera de Natal.

Ana Canto

Abri a embalagem com expectativa, e fui desembrulhando as figuras, lindas, uma a uma, encantada com a juventude e radiosa felicidade da Nossa Senhora, com a preocupação e as barbas do São José, apoiado no seu cajado, com a vaquinha deitada placidamente, com o burrinho cansado, a fazer-lhe companhia. Por fim, enlevada com a beleza das figuras, que repousavam sobre a mesa com uma harmonia extraordinária, e quase dando um suspiro de alívio, surge o Menino Jesus. Eu sei que as crianças não nascem lindas, que são enrugadas, vermelhuscas, oblongas, franzidas. Aquele Menino Jesus era tal e qual, e mais, via-se logo que não era da família. Pensei que estava a sonhar, que aquilo não me estava a acontecer, peguei no telefone e num acesso de zanga ouvi-me dizer, mas o que é que aconteceu, o Menino Jesus parece um tição, nem forma tem, vou-te dizer o que parece, parece...parece...uma pila! Recuso-me a pôr este Menino Jesus no Presépio, ficas já a saber que és responsável pelo presépio ficar incompleto! E ficou. Passaram mais de vinte anos, o presépio é o mesmo, e já teve, que me lembre, pelo menos três Meninos Jesus: um em barro quase do tamanho dos pais, tal e qual um cuco, outro em louça, e este, o terceiro, é, há já vários anos, uma figura de presépio convencional.


         

21.12.15

mais logo vamos tomar um copo, e, quem sabe, conversar

- Aos


























- Aos mais assíduos
- Aos que comentam
- Aos que gostam de por aqui passar
- Aos que só entram
- Aos que sabem criticar.
- Aos de quem eu gosto
- Aos que demonstram amizade
- Aos que amam a verdade
- Aos que só cá vieram uma vez
- Aos que já me aturaram
- Aos que ainda não comentaram, 
  por timidez.
- Aos que clicam +




- Aos que vêm espreitar
- Aos que são leais
- Aos que por aqui passam devagar.
- Aos que só vêem a fotografia
- Aos que me lêem
- Aos que eu gosto de ler,
  mesmo com a nova ortografia;
- Aos que gostam de poesia.























- Aos que já choraram 
- Aos que me fizeram chorar 
- Aos que me ajudaram a levantar
- Aos que me fazem pensar
- Aos que sabem brincar
- Aos que se riem comigo
- Aos que já me fizeram chorar a rir.


- Aos mais recentes
- Aos que hão-de vir
- Aos que me encontrarem, 
  quando eu já não existir.
- Aos que ainda sonham
- Aos que fazem sonhar
- Aos que sabem desta arte de navegar;
- Aos que foram ao mar e não perderam o lugar.
- Aos que amam a natureza
- Aos que gostam da palavra teresa
- Aos que inventaram um nome para se mostrar.
- Aos que amam a arte
- Aos que fazem parte 
- Aos de perfil étereo e musical
- E a todos quantos se estimam, deste modo, virtual, 
  UM FELIZ NATAL.


20.12.15

as flores do tempo


























Como se de repente ao coração do Sol
as raízes da luz alguém as arrancasse...
como se de repente as hélices do vento
arranhassem o ar, e o mar estivesse perto...
como se de repente o Mundo entontecesse...

Foi tudo de repente e tudo ao mesmo tempo:
escuridão, rumor, frescura, movimento.

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?

David Mourão-Ferreira



post-it de Natal

tudo aquilo que é absolutamente devastador na minha vida não está escrito

19.12.15

historinha de Natal com amarelo limão

Quando o arroz já estava frio ia fazer companhia aos outros doces de Natal que não paravam de chegar da azáfama na cozinha: pratos de fatias douradas, sonhos vários, entorpecidos na sua cama de açúcar, tâmaras cuidadosamente colocadas em pratinhos de porcelana, o bolo-rei de olhar cristalizado, emproado no seu prato de pé alto enfrentando taças com ameixas, passas, e pinhões, fios de ovos a desmaiar de cansaço sobre mousse de chocolate, broas de mel muito aconchegadas, de pele envernizada. Era então que o meu pai se sentava com um pires de canela ao lado, e com a mesma paciência do geómetra que desenhara mapas durante noites a fio ao estirador, se debruçava agora sobre as travessas, e , perante o nosso espanto, ia fazendo surgir um desenho preciso ao deixar cair, do aparo que eram os seus dedos, linhas perfumadas sobre a superfície daquela pele acetinada e doce. E surgiam palmeiras e coqueiros vergados sobre o mar, céus estrelados de constelações, sóis que pingavam luz em raios ínfimos que se esgotavam nas margens dos pratos, azevinhos que emolduravam sinos que chamavam para a Missa do Galo, velas incandescentes que emergiam de pinhas e laços farfalhudos, a lua mergulhada nos seus quartos escuros de canela espreitando do céu dourado, perfumado com casca de limão. Noutros Natais ganhava asas o desenho geométrico, e triunfavam Amadeos, Almadas, Mirós e Kandinskys. Durante a sobremesa fazia pena encetar aquelas obras de arte elaboradas com esmero e que eram alvo do espanto geral, quando toda a família se reunia para almoçar. A memória que me causará sempre nostalgia do Natal tem a ver com o aconchego e a paz que emanava desses desenhos, porque à medida que a surpresa era riscada pela mão habilidosa do meu pai, e ganhava interjeições de alegria com os nossos oito olhos pousados sobre os seus gestos, a sua figura benevolente ia firmando consistência no estirador do tempo, projectando-se no futuro. E quando terminava, o que mais queríamos era que continuasse a desenhar em infinitas travessas de arroz doce, com aquele suave e inesquecível travo a limão. 

Mantendo a tradição tento desastradamente imitá-lo, rabiscando qualquer coisa que faça jus, como ele fazia, a esse creme divino cuja receita vem de uma bisavó açoreana. Este Natal pediram-me que desenhasse um carrapito.


(Outras historinhas: historinha de Natal com azul Klein; historinha de Natal com Aloe Vera, 2014)

Árvore de Natal, 2015


18.12.15

Pro bono






















































Da afeição

Ofelinha:
(...)
Quanto a mim...
O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse. Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão. Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
(...)
Fernando (Pessoa)
    

17.12.15

O envelope

A minha mãe tinha preparado um envelope para cada filho. Estávamos os quatro,(é raro encontrarmo-nos todos), porque era a festa dos cinquenta anos do meu irmão mais novo. Abri o meu, com alguma curiosidade sobre o que a minha mãe teria achado relevante, entre o que eu deixara para trás, para me entregar. Dentro do envelope estava uma história. A história tinha dois desenhos feitos na escola primária: num deles, a figura central é a minha mãe a cortar a relva no jardim. A minha mãe tem olhos cintilantes e azuis como a água da fonte que está desenhada do lado direito, e como o telhado da casa, que também está pintado de azul. Há canteiros de flores emoldurando o desenho, um Pastor-alemão no canto inferior direito, e uma árvore, com uma caldeira bem desenhada, à esquerda. Não há céu. No verso está escrito, para a Mamã com muitos beijinhos da sua filha, Teresa, sublinhado duas vezes, e no topo um sino vermelho e um azevinho. O outro desenho, que parece ser anterior, representa um moínho de água e um saco de farinha, uma capoeira, dois cães rafeiros, um preto e um castanho, um lago, um touro, uma vaca malhada e um bezerro, uma carroça, uma plantação de milho, pássaros voando entre as nuvens do céu, várias árvores e montes ao fundo, por entre os quais passa um rio. O sol nasce. É igualmente dedicado à minha mãe. Há também uma fotografia minha com o cão Pastor-alemão pela trela, outra com os meus dois irmãos nascidos, a que falta o mais novo, o aniversariante, com a Emília, a nossa empregada, e a filha dela. Passo os Santinhos com dedicatórias, e detenho-me no convite para a Profissão de Fé do António. Fui hoje à procura do António no Facebook, e encontrei só uma pessoa com o apelido invulgar que ele tinha, mas não reconheci nem um traço do rosto daquele que tinha sido a minha paixão de infância. Arrepiei-me com a hipótese de já ter morrido, e desisti de procurar mais. Pego no postal, escrito aos meus pais em Novembro 1971, Via Lourenço Marques, e penso que só voltei a vê-los em 1974. Depois desdobro uma folha recortada de uma revista, e sorrio, quando me aparecem catalogados vários tipos de homem: Os Eternos Amores, António Fagundes, Paul Newman, Marcelo Mastroiani e Frank Sinatra; Os Grandes Baixinhos, Dustin Hoffman, Al Pacino, Woody Allen; Os que entendem as mulheres, Miguel Paiva, Chico Buarque, Djavan; Os novos Gatos, Tom Hanks, Tom Cruise, Maurício Mattar, Michael J. Fox; Os novos Amores, Andy Garcia, Daniel Day Lewis, Almir Sater; Os feios Adoráveis, Émerson Fittipaldi, Nicolas Cage, Gérard Depardieu. É escusado dizer que a revista é brasileira. Não me lembrava de ter deixado entre as minhas coisas nada parecido. Primeiro penso que se enganou. Procuro uma data, encontro 1991, e concluo, com outro sorriso, que a minha mãe, nalgum cabeleireiro, tenha retirado aquela folha e guardado, para mais tarde me oferecer. 

E, por fim, pego num pequeno bloco, que não conhecia. A capa é dura, de tecido, e tem manuscrita,(a letra desenhada entre colunas gregas e arranha-céus traçados à mão, dispostos como ameias de uma fortificação), a palavra - APONTAMENTOS -. Sinto que está prestes a desmanchar-se, e folheio com muito cuidado, emocionada, enquanto vão surgindo belos desenhos de jóias feitos a lápis pelo meu avô paterno, folha após folha: alfinetes de gravata, brincos, pregadores, pormenores dos fechos, a ouro finíssimo, e pedras preciosas.     

Da alma



Tu não estás cá, ouço.
Consigo ouvir, ouço
Estás a ver, ouço
Tu não vês, ouço.
Muitas vezes
Tacteio e osso.
Sinto, digo.
Digo vejo.
Inspiro
E osso
O suspiro,
No fundo.

16.12.15

Passagem para a noite (10)


Soledad



Soledad
Antes que o sol se vá
Como um pássaro perdido
Também te direi adeus
Soledad, soledad
Também te direi a Deus

Terra
Terra morrendo de fome
Pedras secas, folhas bravas
Ai quem te pôs esse nome
Soledad, soledad
Sabia o que são palavras...
Antes que o sol se vá
Como um gesto de agonia
Cairás dos olhos meus 
Soledad

Indiazinha
Indiazinha tão sentada
Na cinza do chão deserta
Que pensas, não pensas nada
Soledad, soledad
Que a vida é toda secreta

Como estrela
Como estrela nestas cinzas
Antes que o sol se vá
Nem depois não virá Deus
Soledad, soledad
Nem depois não virá Deus
Pois só ele explicaria
A quem teu destino serve
Sem mágoa nem alegria
Um coração tão breve
Também te direi adeus
Soledad

Cecília Meireles/ Soledad

A doação

Do que peço ao teu corpo
ao menos dá-me o dobro

Do que te exija à alma
por junto me dês nada

David Mourão-Ferreira/ Contrato

15.12.15

O carrapito

Tudo terminara, mas o quadro permanecia impassível, pendurado no mesmo sítio, sobre a escrivaninha antiga. Um carrapito. Mãos hábeis, dedos longos, tinham esculpido e entrançado o tempo. Chegaria aonde? Passava a cintura, pela certa, as pontas claras desfiavam vários anos, lá no alto a raiz encanecia. Fitando-nos, o carrapito impunha-se, sobrevivera, sobreviveria aos tempos. Amanhecera solto. Escovado, primeiro do lado direito, depois do lado esquerdo, todo brilho, todo electricidade estática relinchando lima e alfazema, sacudido num gesto rápido para a frente, e depois noutro gesto rápido para trás, e depois cuidadosamente dividido por meadas, trabalhadas com destreza e domadas como crinas rebeldes, mechas presas apressadamente com ganchos como bridões, frenando a rédea livre do sonho. E era aqui, no último relance do olhar furtivo contra o espelho, que entrava a mão que fixara o gesto, já pronto. Um simples carrapito. Tinha sido tão fácil, mas nós não conseguíramos fazê-lo, não conseguíramos ultrapassar a paixão de o ver galopar. Por amor. 

Sobre um quadro de Graça Morais.  

Natal ?

- Em suaves prestações, ao longo do ano.

14.12.15

«A água em todas as fontes»























Nítido e leve ramo de oliveira:
Rijeza firme do tronco
As pálidas folhas como ponta de lança
E o pequeno fruto negro
Compacto e brilhante

Sophia de Melo Breyner Andresen/ 
Sobre um Desenho de Graça Morais


 

13.12.15

Da Graça.

A oferenda

Domingo. Tinham acabado de assistir à missa. O meu filho era ainda criança, suponho que não ultrapassaria os cinco anos de idade, e a tia-avó, mal passaram a porta da igreja, enquanto lhe largava por momentos a mão para abrir a carteira, ia dizendo, querido, deixa-me só tirar uma moeda para dar àquele senhor, costumo sempre dar-lhe qualquer coisa à saída da missa. Então ele, que permanecera muito calado, fixou nela os olhos maravilhosos como duas amêndoas doces, e perguntou, mas se aquele senhor é pobre, porque é que a tia não deixa que seja ele a escolher?

Olha, choveu uma flor






















12.12.15

A esmola

Era aos Sábados de manhã que à nossa porta desfilava o cortejo de miséria e desgraça. Velhos andrajosos, descalços, homens semi-paralisados agarrando fortemente um cajado, cegos apoiando-se no braço de alguém tímido, de olhos postos no chão, doentes ofegantes de peito tísico e olhar fundo, gente magra, esquálida, a que há muito desaparecera a massa muscular pela fome, curvada perante si própria e subjugada pela doença, iniciava cedo a ladainha, Bom diá sinhóra!, e estendia as mãos secas e nodosas, agradecida por qualquer coisa, um bocado de pão, uma conserva, farinha, dinheiro. Esperavam, de olhar vazio, o tempo que fosse preciso, tempo que era uma espécie de pressão silenciosa, quase uma ironia. Eu tomara a cargo as esmolas, e corria entre a casa e o portão para trazer mais qualquer coisa, uma moeda, roupa usada, uns sapatos. Havia a taça das moedas com o orçamento do dia que ia gerindo ao longo da manhã, mas a certa altura o dinheiro acabava, e eu corria para pedir mais. Tive ao longo da minha vida muitas saudades desses pobres, da sua dignidade, da sua delicadeza. Como criança que era, temia-os, porque, sem saber ainda, temia sobretudo a sua pobreza, a sua má sorte, o seu soçobro. Um dia disseram-me que teria que ir estudar para muito longe, para outro continente, para um continente em que as suas mãos estendidas não teriam cabimento, e eu nesse dia soube que haveria uma manhã de Sábado em que eles apareceriam como sempre, e depois de esperarem se iriam embora, e que talvez ainda voltassem uma ou duas vezes, até que desistiriam, sem uma palavra, sem um lamento, com a mesma parcimónia com que um dia tinham aparecido. 

Passagem para a noite (9)


























Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo

Sophia de Mello Breyner Andresen/Os Espelhos




Pedido urgente a Miss Smilenska:

Miss Smilenska:


Agradecemos que se dirija com a maior brevidade possível, e esteja onde estiver, à caixa de comentários do "post restante" anterior, com o título enigmático - Dançam?

Contactar: Flor do Campo ,ou A Flor do meu Segredo, Chefe de Segurança da quinta "Sonho do Alentejo Profundo".
Muito obrigada (é melhor vir escondida debaixo da colcha da cama). 

11.12.15

Dançam?

Rui Chafes (os sapatos, apenas...)


Rui Chafes, Prémio Pessoa 2015

O equilibrista

Era a caminho da madrugada. Eu estava sentada no hall, sem sono ainda. Ele apareceu em pijama, e disse-me, são cinco horas, não te vens deitar...foi outra vez o blogue? O blogue já acabou, respondi. Não é preciso que o blogue acabe, o que é preciso é equilíbrio. Ele tinha razão. Tudo o que eu fizera na vida com entusiasmo fora resultado de desequilíbrio, uma espécie de labirintite da alma... Fui-me deitar, mas não dormi, a pensar que fizera quase tudo com entusiasmo; e o resto? O resto, não fizera.


Olaia























(...)
Oh, as flores da paciência 
e da paixão
mortas sobre a mesa.
Alimentos do fogo no mover da mão
reflexos e refluxos da pobreza
de Deus
na minha vida.

Armando Silva Carvalho/Os Elementos

7.12.15

A mulher é uma colher*

A mulher é haste e taça
Entre os dedos levitação
A mulher é o corpo e é a arte
A mulher é graça e até em Marte
A mulher é uma colher.

A mulher é ergonómica astronómica gastronómica
Ponto de pérola em açúcar
é estrada em ponto no prato
Mas do ar chega atrasada
Em ponto cruz é cruzada
E mesmo quando é espada
A mulher é uma colher.

A mulher é estrela no céu e na boca
É sabor no céu divino
A mulher é sina e é destino
Se é pequena é cafeína
Aos pulos no coração
Se é grande e é de sopa 
Aquece mesmo sem roupa
A mulher é uma colher.

A mulher é da sobremesa o botão
Que desabotoa o olhar
A mulher é uma visão
Até a fruta chegar
A mulher é uma colher.

A mulher é relicário 
É líquido amniótico é cordão
Virada ao contrário é barriga
É forte que protege e abriga
Um e outro coração
A mulher é uma colher.

A mulher é lenda é toada é cantiga
É flor é pé e ponto
Bordada na curva da vida
A mulher é uma rapariga 
De fita azul no cabelo
A mulher é o Sete-Estrelo
Mesmo antes de adormecer
A mulher é uma colher.

A mulher é Vitória é Liberdade
Em proa de embarcação
É de Willendorf é de Milo é de Vénus
A mulher é um sudário 
Gravado na concha da mão
A mulher é muito antiga 
A mulher é uma colher.

A mulher é rasa de água e de sono
É o remédio o mito e a cura
A mulher enquanto dura
É rosa em qualquer estação
Só para outra rosa perdida
E mesmo quando deixou de ser
A mulher é uma colher.



*Publicado em 3/11/14, num atalho ao sol 
Dedicado a todos os homens que amam as mulheres.
  

o amor

 
(...)
As nuvens passam e dispersam-se.
Serão essas as faces do amor, 
esfumadas coisas que não se recuperam?
É por isto que perturbo o meu coração?
(...)
Sylvia Plath/Olmo

5.12.15

Passagem para a noite (8)



O pôr do Sol de pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
estagnou em redor da aldeia.
Os badalos recolhem a tristeza
tão dispersa da tarde. A lua nova
é uma pequena voz vinda do céu.
Enquanto vai anoitecendo
torna a ser campo a aldeia.

O pôr do Sol que não cicatrizou
ainda magoa a tarde.
Abrigam-se as cores trémulas
nas entranhas das coisas.
No quarto vazio
a noite há-de encobrir os espelhos.

Jorge Luis Borges/Campos Entardecidos

Crossing-over