Atalhos de Campo


19.12.14

os súbditos

I
No seu grave recanto os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até à alba em seu severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Depois dos jogadores se terem ido,
Depois do tempo os ter consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é toda a  terra.
Como o outro, este jogo é infinito.
































II
Ténue rei, sesgo bispo, encarniçada
Dama, torre directa e peão ladino
Sobre o negro e branco do caminho
Buscam e travam sua batalha armada.

Não sabem que a mão assinalada
Do jogador governa o seu destino,
Não sabem que um rigor adamantino
Lhes sujeita o arbítrio e a jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(A sentença é de Omar) de outro tabuleiro
De negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador e este a peça.
Que Deus atrás de Deus a trama tece
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luís Borges/ Xadrez

4 comentários:

  1. Atenas

    En la primera mañana de mi primer día en Atenas me fue dado este sueño. Frente a mí, en un largo anaquel, había una fila de volúmenes. Eran los de la Enciclopedia Británica, uno de mis paraísos perdidos. Saqué un tomo al azar. Busqué el nombre de Coleridge; el artículo tenía fin pero no principio. Busqué después el artículo Creta; también concluía pero no empezaba. Busqué entonces el artículo chess. En aquel momento el sueño cambió. En el alto escenario de un anfiteatro, abarrotado de personas atentas, yo jugaba al ajedrez con mi padre, que era también el Falso Artajerjes, a quien le habían cortado las orejas y que fue descubierto, mientras dormía, por una de sus muchas mujeres, que le pasó la mano por el cráneo, muy suavemente para no despertarlo, y que fue matado después. Yo movía una pieza; mi antagonista no movía ninguna, pero ejecutaba un acto de magia, que borraba una de las mías. Esto se repitió varias veces.
    Me desperté y me dije: estoy en Grecia, donde todo ha empezado si es que las cosas, a diferencia de los artículos de la enciclopedia soñada, tienen principio.

    JLB, in Atlas

    votos de uma ótima sexta.

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    1. Agora Kublai Kan já não precisava de mandar Marco Polo em longas expedições: retinha-o a jogar intermináveis partidas de xadrez. O conhecimento do império estava escondido no desenho traçado pelos saltos angulosos do cavalo, pelas travessias diagonais que se abrem às incursões do bispo, pelo passo arrastado e circunspecto do rei e do humilde peão, pelas alternativas inexoráveis de cada partida. O Grão Kan tentava concentrar-se no jogo: mas agora era o porquê do jogo que lhe escapava. O fim de todas as partidas é perder ou ganhar: mas o quê? Qual era a verdadeira aposta? Ao xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pela mão do vencedor, fica um quadrado preto ou branco. À força de desmaterializar as suas conquistas para as reduzir à essência, Kublai chegara à operação extrema: a conquista definitiva, de que os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a um pedaço de madeira aplainada: o nada...

      Italo Calvino/ As Cidades Invisíveis

      Obrigada pela partida, acho que empataram...

      Boa noite, Mil, com melhores sonhos que o Borges

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  2. Kubla Khan

    Or, a vision in a dream. A Fragment.

    In Xanadu did Kubla Khan
    A stately pleasure-dome decree:
    Where Alph, the sacred river, ran
    Through caverns measureless to man
    Down to a sunless sea.
    So twice five miles of fertile ground
    With walls and towers were girdled round;
    And there were gardens bright with sinuous rills,
    Where blossomed many an incense-bearing tree;
    And here were forests ancient as the hills,
    Enfolding sunny spots of greenery.

    (...)

    Samuel Taylor Coleridge

    (faltava a segunda peça de ligação entre os dois textos, o de Borges e o de Calvino)

    obrigado AdC.

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    1. (...)
      Claro que os de Alexandria bem sabiam
      que tudo não passava de palavras e cenário.

      Mas o dia era quente e poético,
      o céu azul, de um transparente azul,
      o Estádio de Alexandria um triunfo
      de harmoniosa concepção artística,
      a magnificência dos cortesãos extraordinária,
      Cesárion todo ele graça e beleza
      (filho de Cleópatra, sangue da estirpe de Lago) -
      e os Alexandrinos congregaram-se na cerimónia,
      entusiasmavam-se, e começaram a aclamar
      em grego, em egípcio, alguns mesmo em hebraico,
      encantados pelo soberbo espectáculo:
      embora soubessem muito bem o que valia aquilo,
      que vãs palavras eram essas Coroas.

      (1912)
      C. Cavafy / Reis de Alexandria

      Belo texto, obrigada Mil, e boa noite

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