Atalhos de Campo


15.12.14

o teu jardim criativo



Quando os faróis do jipe apontaram na curva para aquele enorme pano de linho caiado, (rematado por uma barra em abertos e ponto cheio), que se desenrolara havia gerações em forma de muro a cercar o laranjal, sabíamos que já tínhamos chegado. E era em frente, nos arcos iluminados do aqueduto, que se desenhavam as repetições dos dias e das noites, na água sustentada por arcos perfeitos, que nascera e correra um dia por entre pedras bravias, até ser sequestrada e domada pela nora e pela muralha. Era normal que da casa se desprendesse o som de um piano, que nenhuma campainha ousaria interromper, porque havia sempre alguém para abrir a porta, mas o dia era de festa, e o piano a brincar, paciente com os pequenos dedos que teclavam ao princípio da noite, entretinha-se a balbuciar qualquer coisa. Despir o casaco no escritório frio, era aceitar dois meninos Jesus, e de caminho colocá-los na mesa de entrada para libertar a outra, onde ficariam as sobremesas e a jarra com as ervas perfumadas do jardim, ou colocar mais uma moldura sobre o piano. A mesa onde ficou a figura do Menino antigo, vestido de cetim, tinha atrás uma tela já muito gasta, a minha santa diáfana, o meu altar, como lhe chamaste, (tão gasta que parecia um fresco, ali aparecida para guardar ex-votos). Nela coabitavam um Santo António cor de laranja, uma Iemanjá vestida de mar, flores secas em raminhos, velas, e uma taça oval com pé, onde um Menino Jesus que não respeitara as proporções, repousava sobre flores, frutos de rosa, e pequenas pedras. Uma delas era uma pedra que cabia na concha da mão, perguntaste-me o que eu sentia, e o que eu sentia só veio no outro dia de manhã, quando ainda sentia a pedra oval na concha da minha mão. E foram as conversas entre as quatro gerações, as travessas com iguarias, os talheres alinhados sobre os panos antigos, as luzes sobre os quadros nas paredes, a cozinha ligada com a sala, os amigos, o fogo no chão, e as viagens da vida até ao cante alentejano, que chegou com o acordeão e a viola, arrastando planícies até à celebração, ali onde cantavam homens e mulheres, erguido com a força dos votos de muitos anos de vida. Mas a música é do mundo, e já pelo café os sons de Beethoven, Chopin e Debussy, convidaram à concentração em volta do piano. Enquanto os pianistas se revezavam para dar a vez a Elis, Jobim, Chico Buarque e John Lennon, e os pais adormeciam, as crianças queriam o Jingle Bells: sentadas no chão, aquecendo-se umas às outras, ou deitadas em pufes com as mães, todas eram de todos, e o mais pequenino ao teu colo, acreditava que era o Menino Jesus.

À Zé, pela noite mágica.  

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