Atalhos de Campo


26.12.14

historinha de Natal com Aloe Vera

Era Natal. As flores do aloe fugiam do chão frio como foguetes e as bagas maduras dos espargos lançavam-se dos canteiros como berlindes incandescentes, enquanto os seus passos na escada se aproximavam rápidos, até a chave desenrolar a fechadura por dentro e a porta se abrir num estalido metálico. Naquele dia um casal de meia-idade trouxera uma gata de dezanove anos à consulta - branca e preta - lembrava-se, os opostos meticulosamente desenhados no pêlo ainda sedoso apesar da idade. Está a morrer, disseram, e como a tratou tão bem queremos que morra aqui. Ao examinar a gata, com a ficha ao lado, avaliou cuidadosamente o estado clínico e concluiu que a situação era de facto crítica, viveria horas, talvez nem chegasse a um dia. Queremos que morra de morte natural, como se estivesse em casa, quente  e aconchegada, mas não conseguimos assistir. Concordou que faria isso o melhor que lhe fosse possível, porque não valia a pena fazer mais nada. A gata ficou, na sua própria cama, enrolada nas mantas que trazia. O ar condicionado mantinha a temperatura da sala a vinte e um graus, mas a hipotermia exigia um fornecimento extra de calor. Colocou-lhe um saco de água quente e foi vigiando as reacções nos intervalos das consultas. Regressou à meia-noite, depois da ceia de Natal, para trocar o saco e reavaliar a situação. Como a temperatura ambiente fora mantida e o estado era estacionário, voltou no dia seguinte bem cedo. Enquanto tratava da gata, ainda viva, ouviu em sobressalto um ruído que lhe pareceu vir da porta da rua. Procurando fazer o mínimo barulho, aproximou-se ao máximo do vidro espelhado, sem que fosse vista. Um homem desgrenhado que  tentava domar o cabelo pastoso usando um pente de plástico, dera por finda a luta, para de seguida ajeitar a camisa suja, por baixo do casaco amarrotado. E quando ele finalmente passou as mãos magras pelo rosto e cabelo, ela verificou que as suas unhas tinham o rebordo negro e irregular ao contrário das suas, limadas e rigorosamente limpas. Nessa altura os seus rostos quase coincidiram, os olhos dela pousados nos dele que apenas viam o próprio rosto emoldurado pelos prédios em frente, onde uma estrela de Natal acesa ainda brilhava, esquecida numa janela. Manteve-se a observá-lo em silêncio até que ele deu por concluída a toalete e se foi embora. Podia tê-lo convidado a entrar, para usar  casa de banho, mas teve medo. Quando saiu reparou nos cartões enrolados no canteiro onde ele havia dormido. 

Mais tarde, quando voltou pelo meio do dia, o animal acabara de morrer. Desligou o ar condicionado e ao abandonar a clínica constatou que aquilo que fora uma cama improvisada entre a parede e o aloe tinha miraculosamente desaparecido. Os donos da gata nunca telefonaram.               

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