Atalhos de Campo


10.12.14

a falar sozinha

Desde os dois meses que falo sozinha. Claro que comecei por palrar, depois gatinhei sobre as palavras, balbuciei, que é como quem escorrega, e isso aconteceu muitas vezes,( aliás nunca deixei de escorregar, mesmo quando já articulava muito bem), e caí bastante, até que aprendi a andar. Admito que poucas vezes consegui deslizar, mas tive deslizes quando não estava à espera. Tornou-se um hábito divertido falar comigo em *alta voz* pelas ruas, que assim se tornavam atalhos, atravessando a ponte que liga os dois lados do cérebro num instante, a cantarolar ou a sorrir, entre dentadas numa maçã. Alguém me observou com espanto, alguém comentou, alguém troçou ou abanou a cabeça, mas eu nunca dei muita importância, e, distraidamente, voltava a pegar no assunto, após o breve silêncio que durava a travessia da passadeira dos peões. Mas nunca confessaria isto por escrito, não fosse ter lido uma crónica de João Pereira Coutinho, em A Folha de 20/10/2014, que me deixou feliz: soube eu que em Oxford as pessoas costumam falar sozinhas, que têm esse belo e saudável hábito, como ele diz, que sorriem, ou avançam gesticulando com os seus problemas. E foi então que imaginei um enorme sussurro sobre a cidade, consentido e benevolente, que ao flutuar no ar, o aquecia, e era como ter entrado, de repente, num enorme café acolhedor, só para fugir do frio.    

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