Atalhos de Campo


31.12.14

2014

Dedico estes atalhos do ano de dois mil e catorze ao meu filho: pelos dias em que fui feliz, e em que ter mudado de vida não me trouxe arrependimento; pelos dois gatos que adoptei num ferro-velho e que vejo a subir às árvores, pelos borregos que vi nascer e me chamam quando atravesso os campos, pelo canto dos pássaros de madrugada, pela chuva a bater no chão; pelos momentos em que corri para fotografar a luz, e em que pude ouvir música no volume máximo, durante a noite, sem ter vizinhos a reclamar; pela possibilidade de salvar duas vacas do matadouro e doze galinhas e perus da panela; pelas couves e alfaces esburacadas, para poder ver mais borboletas; pelo perfume das rosas, a cor dos gladíolos e o azul das anémonas; pelo som da água a correr no lago onde as carpas comem à mão; pelos passeios com os cães ao fim da tarde; pela última chama, da última brasa, a arder no silêncio; pela lua como aparição e o tecto imenso da noite organizado em constelações; pelas horas intermináveis de pesquisa, pela hipótese de juntar textos, imagens e música, e de deixar este registo de um ano, que se tornou a revisitação desse lugar estranho onde caem folhas, que é o passado.

A todos quantos acompanharam estes percursos, e assim contribuíram para lhes dar vida, um agradecimento especial e votos de um 2015 maravilhoso.    

  

30.12.14

Tivemos sempre Paris

Certa tarde, foram passear à beira do Sena. Tencionava apanhar o metro 
em Châtelet a fim de ir trabalhar. No boulevard du Palais, passaram por 
uma cabine de fotos instantâneas. Jacqueline precisava de fotografias 
para um novo passaporte. Ele esperara-a no passeio.(...)
Patrick Modiano/ No Café da Juventude Perdida



Enquanto esperava pelo criado, no châtelet, ouvindo correr a água
do sena na minha cabeça( isto é, sentia a água bater contra
os arcos da ponte do châtelet, enquanto as lanchas carregadas
passavam com as luzes acesas, na tarde sombria do Inverno)...
Nuno Júdice/ Episódio de Café

delaunay

a vida resume-se a círculos órficos, bonecas russas, e caixas tupperware

a sépia

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget(1925)a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase que lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.

Nuno Júdice/ Fotografia
Guia de Conceitos Básicos

Morreu, portanto vive.

Pouco antes de morrer, o artista escreveu no seu diário:«Agora quero dirigir-me para além da arte- para além da sensibilidade- da vida.Quero entrar no vazio. A minha vida deve ser como a minha sinfonia de 1949, um acorde contínuo, libertada do princípio ao fim, limitada e ao mesmo tempo eterna, porque ela não tem começo nem fim...Desejo morrer e quero que possam dizer de mim: Morreu, portanto vive.»
Yves Klein
Hannah Weitemeier/klein

diálogo entre azuis

29.12.14

carimbos



historinha de Natal com azul Klein

O azul klein era um pássaro em que ela acreditava. Todas as noites passava pela janela do pintor com aquela luz acesa, luz de estirador, bem entendido, até que conheceu a luz. A luz era suja, e o pintôr tinha uma tezôra de pudar para árvores azuis e paízagens da côr do roza do antónio carneiro, mal precentia um rebento qalqer pudava, e pudou tanto qe acabou a curtar a própria mão e a caza ficou ás escuras 

  Ouve outros omãis qe davam pulus grãdes, e um qe pulô tantu qe saiu pêlo tôpu. esqecime da decor-acção do natal.   

o último parágrafo foi qase tôdo emprestado ao nuno bragança, menos a partir do esqecime; o azul é de Yves Klein 

28.12.14

deixa-me contar-te um verão

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um a um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa 
às suas voltas escuras

José Tolentino Mendonça/Deixa-me Dar-te O Verão

Moinhos de vento


26.12.14

historinha de Natal com Aloe Vera

Era Natal, as flores do aloe a fugirem do frio como foguetes, as bagas maduras dos espargos a lançarem-se dos canteiros como berlindes incandescentes, os seus passos na escada a aproximarem-se rápidos, até a chave desenrolar a fechadura por dentro, e a porta se abrir num estalido metálico. Naquele dia um casal de meia-idade trouxera uma gata de dezanove anos à consulta, branca e preta, lembrava-se, os opostos meticulosamente desenhados no pelo, ainda sedoso. Está a morrer, disseram, e como a tratou tão bem, queremos que morra aqui. Ela examinou a gata, consultou a ficha, avaliou cuidadosamente o estado clínico, e concluiu que a situação era de facto crítica, viveria horas, talvez nem chegasse a um dia. Queremos que morra de morte natural, como se estivesse em casa, quente  e aconchegada. Sim faria isso, porque não valia a pena fazer mais nada. Deixaram a gatinha. O ar condicionado mantinha a temperatura da sala a vinte e um graus, mas a hipotermia exigia um fornecimento extra de calor. Colocou-lhe um saco de água quente, foi dando as consultas e vigiando as reacções nos intervalos. Regressou à meia-noite, depois da ceia de Natal, para trocar o saco, e reavaliar a situação. Como a temperatura da sala fora mantida, e o estado era estacionário, voltou no dia de Natal, bem cedo. Enquanto tratava da gata, ainda viva, ouviu um som vindo da porta da rua. Em sobressalto foi ver o que se passava. Tentando fazer o mínimo de barulho, aproximou-se ao máximo do vidro espelhado. Um homem lutava com o cabelo, desgrenhado e pastoso, usando um pente de plástico, para de seguida ajeitar a camisa suja, por baixo do casaco amarrotado. Quando ele passou as mãos magras pelo rosto e pelo cabelo, verificou que as unhas tinham um rebordo negro e irregular. Manteve-se ali em silêncio, até que ele se foi embora. Podia tê-lo convidado a entrar, para usar a casa de banho, mas teve medo. Quando saiu, reparou nuns cartões enrolados no canteiro onde ele tinha dormido. Ao meio-dia, a gata acabara de morrer. Desligou o ar condicionado, e ao abandonar a clínica, constatou que aquilo que fora uma cama improvisada por trás do aloe, já tinha desaparecido. Os donos da gata nunca telefonaram.               

headache



24.12.14

Header


in memoriam

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira/ Obra Poética 
Ladainha dos Póstumos Natais 

23.12.14

Feliz Natal




biutiful

Voltava da praia, tomava um banho quente e tinha o hábito diário de me sentar num bar sobre a piscina, a beber uma coca-cola e a ler ao pôr-do-sol. Nos primeiros dias não reparei, mas ao longo do mês começou a ser evidente: o bar abria às sete da tarde, eu era a única cliente, e tocava sempre a mesma música, you are so beautiful to me. Não me lembro do rosto do rapaz que todos os dias me preparava o copo elegante com muito gelo e limão, se as mãos lhe tremiam quando o colocava sobre a mesa, mas lembro-me do sol a esvair-se, do livro abandonado no colo, e do ar perfumado dos pinheiros, que vinha de nascente.  

you can leave your hat on

22.12.14

a noite mais longa

Ontem foi a noite mais longa do ano. Ouvi o canto dos galos à meia-noite. Primeiro começou o da quinta em frente, depois respondeu o nosso, e seguiram-se então várias vozes, vindas de pontos isolados, assinalando as casas na planície adormecida. Se as galinhas se deitam cedo, que dizem os galos uns aos outros?     

sublimação


20.12.14

a galinha e a guilhotina

Quanto aos animais serem demasiado imbecis e estúpidos para falarem, considere esta sequência de acontecimentos. Quando Albert Camus era ainda rapazito, na Argélia, a avó mandou-o ir buscar ao quintal uma das galinhas do galinheiro. Ele obedeceu e ficou a vê-la a cortar-lhe a cabeça com uma faca e a aparar o sangue numa tigela para não sujar o chão. O grito de morte dessa galinha fixou-se de tal maneira na memória do rapazito que, em 1958, escreveu um ataque violentíssimo à guilhotina. Como resultado, em parte, dessa polémica, a pena capital foi abolida em França. E diz-me agora que a galinha não falava?

J.M.Coetzee/ Elizabeth Costello

colóquio

























Todos os dias lhes tento poupar um dia de vida, sei que pode parecer ridículo, ter pena de galináceos, mas é um facto: voltei a ter a minha capoeira de menina, quando queria ser veterinária , e não deixava matar nada. Um dia fui veterinária, e agora voltei a ser menina. Estes não vão morrer.     

19.12.14

a primeira emenda

este blogue, salvo indicação em contrário, nada tem a ver com (agri)cultura

familiaridade




os súbditos

I
No seu grave recanto os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até à alba em seu severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Depois dos jogadores se terem ido,
Depois do tempo os ter consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é toda a  terra.
Como o outro, este jogo é infinito.
































II
Ténue rei, sesgo bispo, encarniçada
Dama, torre directa e peão ladino
Sobre o negro e branco do caminho
Buscam e travam sua batalha armada.

Não sabem que a mão assinalada
Do jogador governa o seu destino,
Não sabem que um rigor adamantino
Lhes sujeita o arbítrio e a jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(A sentença é de Omar) de outro tabuleiro
De negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador e este a peça.
Que Deus atrás de Deus a trama tece
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luís Borges/ Xadrez

manhã submersa (2)


18.12.14

Namoro III


Cartas de amor, promessas, juras, noites de insónia a escrever com um aparo à luz da vela...palavras como amante, amor, divina, querida, adorada, criança, coração, crença, súplica, saudade, ardente, confissão, desejo, ternura, fé, lamento, separação, ausência, confiança, doença, consolo, solidão, verdade, beijo; vou lendo uma carta de Mozart a Constanze Weber, ao som de Pace, pace, mio dolce tesoro, e depois outras, de outros: cartas de amores que terminaram ou que se fortaleceram pela vida; cartas de amor tão parecidas, escritas pela mesma pessoa a pessoas diferentes, como se o mundo fosse acabar, e afinal não acabou. 

Namoro II

Para Louise Colet
Croisset, noite de sábado, uma da manhã

Dizes-me coisas muito ternas, querida Musa. Eh bien, recebe em troca muitas mais coisas, ainda mais ternas, do que possas imaginar. O teu amor entra em mim como uma chuva morna, e sinto-me ensopado até ao fundo do meu coração. Não possuis tudo o que é necessário para te amar - corpo, mente, ternura? És uma alma simples e mente forte, muito pouco poética, e excessivamente poeta; não há nada em ti que não seja bom, e és como o teu peito, branco e suave ao toque. Aqueles que conheci va, não se te comparam, e duvido que os que desejei te igualem. Tento por vezes imaginar o teu rosto quando fores velha, e suponho que te amarei tanto como agora, talvez ainda mais.
Gustave Flaubert


(...)
Disseste que chegara para mim o tempo de recolher o fruto de uma vida inteira de fadigas e que o último amor de uma mulher era o mais belo. As tuas previsões realizam-se, criança, e esqueço-me inteiramente dos sofrimentos que outrora julgava inevitavelmente associados ao afecto. Continuo a sofrer muito e com frequência, mas nunca por sua causa. Quando ele não tem um tostão para me comprar um ramo de flores, levanta-se antes da aurora e percorre duas léguas a pé para mo colher nos jardins dos arredores. Essa pequenina coisa é o resumo de toda a sua conduta. Ele serve-me, enleva-me, agradece-me. Oh, diz-me que és feliz e eu também o serei. Essa tão bela frase dos dois seres que se amam na terra e fazem um anjo no céu é de Latouche.(...)                              
George Sand
Cartas de Amor/Alfred de Musset e George Sand

Namoro



16.12.14

Amizade abstrata

Em 1911, Wassily Kandinsky assiste empolgado a um concerto de Arnold Schönberg, e escreve-lhe uma carta que será o começo de uma longa amizade. Kandinsky, que era oito anos mais velho, reconhece na música que acabara de ouvir, as suas novas tendências na pintura. Schönberg agradece-lhe, respondendo que a arte deverá manifestar o inconsciente e Kandinsky acha que pintura deverá libertar-se da lógica e da figuração. Ambos são conhecedores de pintura e de música: Schönberg também era pintor, e Kandinsky compusera pequenas peças musicais para acompanhar os seus traçados pictóricos. Ambos estavam de acordo em que a música deveria transmitir de forma pictórica o inconsciente, e a pintura de forma musical a atonalidade. Desta afinidade resultou uma correspondência abundante, com postais e cartas, acompanhadas por xilogravuras, esboços e fotografias, mantida durante vários anos, sobretudo de 1911 até à Guerra de 1914. Uma amizade consonante, mantida pela dissonância.

porque já não existem

em memória das vítimas de Peshawar


Então cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias:
"Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação;
é Raquel que chora por seus filhos e recusa-se a ser
consolada, porque já não existem."
Mateus 2:17-18

15.12.14

o teu jardim criativo



Quando os faróis do jipe apontaram na curva para aquele enorme pano de linho caiado, (rematado por uma barra em abertos e ponto cheio), que se desenrolara havia gerações em forma de muro a cercar o laranjal, sabíamos que já tínhamos chegado. E era em frente, nos arcos iluminados do aqueduto, que se desenhavam as repetições dos dias e das noites, na água sustentada por arcos perfeitos, que nascera e correra um dia por entre pedras bravias, até ser sequestrada e domada pela nora e pela muralha. Era normal que da casa se desprendesse o som de um piano, que nenhuma campainha ousaria interromper, porque havia sempre alguém para abrir a porta, mas o dia era de festa, e o piano a brincar, paciente com os pequenos dedos que teclavam ao princípio da noite, entretinha-se a balbuciar qualquer coisa. Despir o casaco no escritório frio, era aceitar dois meninos Jesus, e de caminho colocá-los na mesa de entrada para libertar a outra, onde ficariam as sobremesas e a jarra com as ervas perfumadas do jardim, ou colocar mais uma moldura sobre o piano. A mesa onde ficou a figura do Menino antigo, vestido de cetim, tinha atrás uma tela já muito gasta, a minha santa diáfana, o meu altar, como lhe chamaste, (tão gasta que parecia um fresco, ali aparecida para guardar ex-votos). Nela coabitavam um Santo António cor de laranja, uma Iemanjá vestida de mar, flores secas em raminhos, velas, e uma taça oval com pé, onde um Menino Jesus que não respeitara as proporções, repousava sobre flores, frutos de rosa, e pequenas pedras. Uma delas era uma pedra que cabia na concha da mão, perguntaste-me o que eu sentia, e o que eu sentia só veio no outro dia de manhã, quando ainda sentia a pedra oval na concha da minha mão. E foram as conversas entre as quatro gerações, as travessas com iguarias, os talheres alinhados sobre os panos antigos, as luzes sobre os quadros nas paredes, a cozinha ligada com a sala, os amigos, o fogo no chão, e as viagens da vida até ao cante alentejano, que chegou com o acordeão e a viola, arrastando planícies até à celebração, ali onde cantavam homens e mulheres, erguido com a força dos votos de muitos anos de vida. Mas a música é do mundo, e já pelo café os sons de Beethoven, Chopin e Debussy, convidaram à concentração em volta do piano. Enquanto os pianistas se revezavam para dar a vez a Elis, Jobim, Chico Buarque e John Lennon, e os pais adormeciam, as crianças queriam o Jingle Bells: sentadas no chão, aquecendo-se umas às outras, ou deitadas em pufes com as mães, todas eram de todos, e o mais pequenino ao teu colo, acreditava que era o Menino Jesus.

À Zé, pela noite mágica.  

natal


13.12.14

Cantiga Medieval

literatura de cordel, ( Séc. XVI)

































O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes, em Portugal. Alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, também usadas nas capas.(...) Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas, para conquistar possíveis compradores.

[retirado da Wikipédia]

12.12.14

Requiem para um sonho

ecologia




estufim entre a poesia e a prosa

A Lactuca sativa L., vulgo alface(variedade francesa), espreguiça-se mal o sol nasce, esticando os braços languidamente, para deixar cair, num arrepio, a terra que lhe suja o vestido. E só depois abre os olhos, que aveludam as manhãs de verde pálido, sonhando com massagens em azeites sublimes, ácidos balsâmicos, sal em flor, e camas aromáticas de manjericão. É toda ela nouvelle cuisine, decoração   minimal, espaço no prato, subtileza, e escolha cuidadosa dos acessórios, da luz indirecta, do lounge music. Cultiva amizades exóticas, mas é fiel aos companheiros da geração de 70, a salsa, o cebolinho e o coentro. Adora protagonismo, revistas de moda, guia Michelin, e venera Christian Millau e Henri Gault. Nunca passa sem capeline no Verão, e banho turco, no Inverno. Mas o seu sabor é ainda mais delicioso a acompanhar arroz de bacalhau, frango assado no forno, bife à portuguesa, empadão de carne, alheiras de Mirandela e carne de porco à alentejana, à luz do sol ou na penumbra, sobre uma toalha branca, com um cesto de pão fresco, um jarro de vinho e um prato de azeitonas, mas sobretudo um bom fado.      

11.12.14

Obrigada

Deve-se aprender a prestar homenagem tanto como a sentir desprezo. Todo aquele que abriu novas vias e aí conduziu muitas outras pessoas descobre, com surpresa, quantas dessas pessoas são desajeitadas e pobres na expressão do seu reconhecimento e como até é raro que esse reconhecimento chegue sequer a manifestar-se. É como se, de cada vez que uma pessoa quer falar, alguma coisa lhe entrasse na garganta e a fizesse engasgar e emudecer. A maneira como um pensador chega a sentir a acção dos seus pensamentos e a sua força transformadora e revolucionária é quase uma comédia. Por vezes, chega a parecer que aqueles que experimentaram essa acção, no fundo, se sentiram ofendidos e, com receio de perderem a sua autonomia, não soubessem exteriorizar esse receio senão com grosserias. São necessárias gerações só para se conseguir inventar uma convenção cortês para exprimir agradecimento. E só muito tarde é que chega o momento em que a gratidão adquire uma espécie de espírito e genialidade. É geralmente nesse momento que se encontra alguém que é o grande receptor da nossa gratidão, não só pelo bem que ele próprio fez, mas também e sobretudo pelo tesouro de coisas elevadas e excelentes que os seus antepassados acumularam a pouco e pouco.

Nietzsche/Aprender a prestar homenagem
A Gaia Ciência

recorte no gelo

10.12.14

dois agradecimentos

Um dia estava na Fnac a folhear o Ulisses, numa tradução brasileira acabada de sair, e passou por mim um homem que comentou en passant: isso é uma chatice. Ainda tive tempo de o olhar de perfil: era alto, magro, moreno, de meia idade, e vestia sobriamente. Seguiu o seu caminho e não o voltei a ver. Prossegui a consulta, agora com a minha incerteza prévia a aumentar a cada minuto, até ao desconforto. Discretamente recoloquei o livro no escaparate e fui à procura de um menos chato. Mas, de vez em quando, assaltava-me uma dúvida, uma vergonha por não ter sequer um único livro do Joyce, nem que fosse só na prateleira. Até que há dias, com um post de Rentes de Carvalho, fiquei mais descansada: não só li uma opinião negativa sobre os livros, mas também sobre o homem; e não é que eu tenha ilusões sobre os autores, acredito muito mais nas obras, mas neste caso fiquei com uma espécie de confirmação, que me deu imenso jeito, agora que o meu tempo está, de facto, contado. 

Passagem para a noite (4)

a falar sozinha

Desde os dois meses que falo sozinha. Claro que comecei por palrar, depois gatinhei sobre as palavras, balbuciei, que é como quem escorrega, e isso aconteceu muitas vezes,( aliás nunca deixei de escorregar, mesmo quando já articulava muito bem), e caí bastante, até que aprendi a andar. Admito que poucas vezes consegui deslizar, mas tive deslizes quando não estava à espera. Tornou-se um hábito divertido falar comigo em *alta voz* pelas ruas, que assim se tornavam atalhos, atravessando a ponte que liga os dois lados do cérebro num instante, a cantarolar ou a sorrir, entre dentadas numa maçã. Alguém me observou com espanto, alguém comentou, alguém troçou ou abanou a cabeça, mas eu nunca dei muita importância, e, distraidamente, voltava a pegar no assunto, após o breve silêncio que durava a travessia da passadeira dos peões. Mas nunca confessaria isto por escrito, não fosse ter lido uma crónica de João Pereira Coutinho, em A Folha de 20/10/2014, que me deixou feliz: soube eu que em Oxford as pessoas costumam falar sozinhas, que têm esse belo e saudável hábito, como ele diz, que sorriem, ou avançam gesticulando com os seus problemas. E foi então que imaginei um enorme sussurro sobre a cidade, consentido e benevolente, que ao flutuar no ar, o aquecia, e era como ter entrado, de repente, num enorme café acolhedor, só para fugir do frio.    

8.12.14

a contar, vindo do céu

ao Xilre


flores na cidade

Isto é um poema
fala de amor
ou do medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes
fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele e nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias de meninas
esvoaçando sem vontade 
na direcção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até à hora final
fala do vómito que advém
dos gestos repetidos
Fala do vómito que advém
dos gestos gastos
prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terramoto
Fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde tocava a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é um poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas 
na palavra loucura.

Matilde Campilho/Principado Extinto 

reflexões



7.12.14

Passagem para a noite (3)

Pavoas Mortas
Rembrandt Harmensz.van Rijn
1639
(...)
Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.

Tenho uma criança profunda em todos os lugares.
(...)

Herberto Helder/ Lugar
Poesia Completa

«Uma cauda cheia de sóis»



























O pavão manteve-se imóvel, como se tivesse 
acabado de sair de algum monte encharcado de 
sol para constituir uma visão para todos eles.
Flannery O'Connor
A Pessoa Deslocada



6.12.14

Passagem para a noite (2)



desassossego

Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, pois que regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.
Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego


Os tambores rolaram à beira da estrada e os clarins pendiam nulos nas mãos lassas, que os deixariam se ainda tivessem força para deixar qualquer coisa.
Mas, de novo, na consequência do prestígio, soavam altos os alaridos findos, e os cães tergiversavam nas áleas vistas. Tudo era absurdo, como um luto, e as princesas dos sonhos dos outros passeavam sem claustros indefinidamente.
Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego

xpto


5.12.14

voando sobre um ninho de cucos

Às vezes ponho-me a pensar como seria a *Internet*, nomeadamente as redes sociais, se grandes escritores já desaparecidos pudessem fazer parte deste mundo virtual. Tenho a certeza que Fernando Pessoa aderiria desde o primeiro momento, que acharia maravilhoso digitar ideias à velocidade da luz até altas horas da noite, publicando posts atrás de posts, sem precisar de ver ninguém. Inventei-lhe um nickname, O Emboçado, cogitei se optaria por ter mais um heterónimo, O Vanguardista, ou se enveredaria pelo ocultismo(encontrando parceiros ocultos por todo o lado), ou por por ambos, ou por mais ainda, multiplicando-se num milagre semelhante ao milagre dos peixes. Virginia Woolf seria a bela Mata Hari, capaz de engendrar aparecimentos, desaparecimentos e metamorfoses, como a partida que pregou enviando um telegrama falso (que neste caso seria um e-mail), para um navio de guerra inglês fundeado em Weymouth, fazendo-se passar com os amigos do Grupo Bloomsbury (neste caso seguidores do blogue) por uma delegação de diplomatas abissínios, (pintando-se de negro e envergando roupas exóticas), ao ponto de receber honras de hino nacional e bandeira, com o devido castigo quando o embuste foi descoberto, o que provavelmente hoje não aconteceria. E Óscar Wilde, o Dorian Gray, não aproveitaria, dadas as suas tendências sedutoras, para se infiltrar em chats, usando várias máscaras de juventude para não ser reconhecido, e com isso dar largas com sucesso, e sem punição, às suas tentações?

Passagem para a noite (1)






4.12.14

a pensar com os meus botões




Comportamo-nos finalmente como personagens, e não como pessoas. 
Isto é uma espécie de Carnaval sem dia próprio, e eu nunca gostei de carnavais.
Ah, mas faltava-me um botão, aquele suplente, que está cosido por dentro da fralda das camisas, que é muito importante: se nos matarem, morre só o duplo, sempre ficamos nós abotoadinhos; se quisermos morrer, matamos só o suplente, esse que vive a fingir. Se quisermos matar alguém é fácil, e ninguém nos acusa de homicídio.
Tudo tem uma vantagem.   

veleidade



3.12.14

O ciclista acidental

Foi ali na Schwarzenbergplatz, em Viena, há dois anos e meio, numa manifestação favor de mais ciclovias: tirou o creme de protecção ecrã total, criteriosamente protegeu-se dos raios solares de um Junho quente, e, à fresca, partiu com elegância e equilíbrio. Quando reparei, o Marechal Karl Philipp, que venceu Napoleão na Batalha de Leipzig em 1813, seguia também em pelomontado no seu cavalo.




2.12.14

Sr. Sade, aqui a fruta está toda nas árvores

Até aqui, no campo, se segreda sobre o marquês, que parece que morreu faz hoje 200 anos, e vejam o que Annie Le Brun, investigadora de Sade, escreve sobre os jardineiros em *A Filosofia na Alcova*, todos eles são jovens, ricos e belos, até o jardineiro, de 18 ou 20 anos, que se vai colher como um fruto no pomar, quando dele se tem necessidade. É aqui que há uma pequena diferença, a jardineira sou eu, que na verdade, nunca gostei de Sade, nem na idade própria, era só o que faltava...

Nota: informação retirada do artigo *Sade Divino, Diabólico* de           
      António Loja Neves, último Expresso Atual

sonata para ratatouille, em forma ebulição controlada



Sugestão 1, em forma taninos suaves: servir com Tinto 
Scala Coeli 2010 e, de preferência, com outra música.
Sugestão 2: se queimar o jantar, não deixe de beber o 
            vinho.
Sugestão musical: Rach 3 Opus 30, como?... esse mesmo.

Bijuteria para Giuseppe Arcimboldo