Atalhos de Campo


25.11.14

O que há depois?



Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...


A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...


O que há depois? Depois?...O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?


Que importa? Que te importa, moribundo?
-Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!...

Florbela Espanca/Sonetos
A um moribundo

2 comentários:

  1. Alma intranquila, como só uma grande poetisa consegue transmitir com tanta beleza.
    Eu que não sou de poesias até me comovo com esta fantástica sensibilidade.
    Beijos.

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    1. Só imagino a Manuela Azevedo dos Clã a cantar este poema, num voo de igual sensibilidade.

      Beijos.


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