Atalhos de Campo


7.11.14

Kodachrome

Há dias em que tenho saudades da minha Nikon analógica, de colocar o filme e de o fazer deslizar com os dedos até prender, do som da máquina a rebobinar, da corrida para trocar de rolo, da focagem, da regulação da abertura, do obturador, da velocidade, da forma como as minhas mãos gostavam de a ter nas mãos, do peso da mala, da espera pelas provas de contacto, da surpresa, do ritual. Está guardada, imprestável nos dias que correm, imprestável para fotografar para o blogue, imprestável como outras iguais, nesta ânsia do imediato, da partilha, da aclamação, do elogio; nesta correria em que o bom substitui o óptimo, porque a urgência é implacável, as imagens correm aos milhões por todo o lado, não se contemplam, consomem-se. Por isso me recuso a comprar outra, fotografo com o telemóvel, porque tenho essa noção de precaridade da imagem, do desgaste a que está sujeita, da banalização. Mas não perdi a esperança de voltar a fotografar com ela, de arranjar uma câmara escura, e de, no meu silêncio, fotografar para ninguém, apenas pelo amor à imagem, como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria, e deixou centenas de fotografias e de rolos por revelar por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após a sua morte, com excelentes fotografias, que ela nunca viu.

Sem comentários:

Enviar um comentário