Atalhos de Campo


20.11.14

Kind of blue

Olhaste-me fixamente num tom de azul que não deixava margem para dúvidas: havia nele uma mensagem cifrada, que nem mesmo a nossa longa cumplicidade conseguia descodificar na íntegra. Esse azul temível, que noutros tempos tivera consequências, reaparecera agora, invasivo e de mau prognóstico, pela manhã. Dizem que hoje há máquinas que descodificam o olhar, que todo esse azul para além das palavras não quer olhar para ninguém; que se enquista na indiferença e na apatia, e é sempre grave. Há dez anos, quando te encontrei, sei que me seduziste pelo teu bom gosto, pela rapidez do raciocínio, pela memória prodigiosa, pelo teu grafismo; e, se há homens gráficos, tu és um deles. A minha paixão foi também ela gráfica, platónica e assolapada. Vivi numa espécie de pecado pré-mortal, e paguei bem por isso: desencadeaste ciúmes (gráficos), fobias, invejas, misantropias, atrasos, noitadas, insónias, penúria, e hábitos cómicos, como ver o horóscopo de manhã,(que felizmente já perdi). Contigo aprendi a explorar em mim uma outra dimensão, a humildade perante uma nova medida de tempo e de espaço, mas também a parcimónia, o resumo, e a correcção. Aprendi que o tempo se passava de maneira diferente para os dois, e com os anos fui notando algum cansaço, alguma perda de brilho, algum desgaste. Agora dizem-me que estás nos cuidados intensivos, que tiveste uma espécie de AVC, mas garantem-me que vai tudo correr bem, que vale a pena esperar, que virás melhor do que nunca, para continuarmos esta tarefa, esta solidão partilhada de tantos anos, em prol do último esquecimento, e do esquecimento último.

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