Atalhos de Campo


26.11.14

as folhas no chão

Vivias acima da copa das árvores, das praias, das casas dos aldeamentos turísticos e das buzinadelas nas filas de trânsito, a voar, e hoje, por razão nenhuma(sei que gostarias que eu dissesse isto), hoje tenho de repente uma boa razão para as nossas vidas, quando só tínhamos vinte e muito poucos anos: hoje a glicínia cansou-se, desistiu de sustentar o Verão e deixou cair todas as folhas aos meus pés, enquanto tu, que há tanto tempo lhe desobedeceste, me deixaste todos estes anos pendurada no parapeito da nossa inquietude, das nossas fugas pelo ar, das nossas aventuras de amigos(em carros anárquicos por entre atalhos fotográficos), e das surpresas vertiginosas, como a da tua aula de treino de aterragem quando andavas a tirar o brevet, que me deixou as pernas a tremer. A última vez que te vi foi no dia dos meus vinte e um anos, quando me apareceste com um livro que me pedia um sorriso por escrito. Ontem peguei nele, nesse livro que inexplicavelmente se partiu em dois, os sonetos da Florbela Espanca, e ali naquele poema que me apontavas, eu era a moribunda, para que tu, finalmente, vivesses.

Ao meu amigo Guido Ventura, que morreu num dia de Verão.

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