Atalhos de Campo


3.11.14

A mulher é uma colher

A mulher é haste e taça
Entre os dedos levitação
A mulher é o corpo e é a arte
A mulher é graça e até em Marte
A mulher é uma colher.

A mulher é ergonómica, astronómica, gastronómica
Ponto de pérola em açúcar
É estrada em ponto no prato
Mas do ar chega atrasada 
Em ponto cruz é cruzada
E mesmo quando é espada
A mulher é uma colher.

A mulher é estrela no céu e na boca
É sabor no céu divino 
A mulher é sina e é destino
Se é pequena é cafeína
Aos pulos no coração
Se é grande e é de sopa
Aquece mesmo sem roupa
A mulher é uma colher.

A mulher é da sobremesa o botão
Que desabotoa o olhar
A mulher é uma visão
Até a fruta chegar
A mulher é uma colher.

A mulher é relicário
É líquido amniótico é cordão
Virada ao contrário é barriga
É forte que protege e abriga
Um e outro coração
A mulher é uma colher.

A mulher é lenda é toada é cantiga
É flor é pé e ponto
Bordada na curva da vida
A mulher é uma rapariga
Com fita azul no cabelo
Mesmo antes de adormecer
A mulher é uma colher.

A mulher é Vitória é Liberdade
Em proa de embarcação
É de Willendorf é de Milo é de Vénus
A mulher é sudário
Gravado na concha da mão
A mulher é muito antiga
A mulher é uma colher.

A mulher é rasa de água e de sono
É o remédio o mito e a cura
A mulher enquanto dura
É rosa em qualquer estação
Só para outra rosa perdida
E mesmo quando deixou de ser
A mulher é uma colher.

Teresa Borges do Canto

2 comentários:

  1. Adorei e deixo aqui uma referência interessante: http://www.artic.edu/aic/collections/artwork/37761

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  2. Gostei muito dessa extensão ao poema, verifiquei que o Guggenheim tem uma página em que há referência às primeiras esculturas de Giacometti, que aos vinte anos estudou as culturas primitivas africanas, em que a colher era associada à mulher como símbolo de fertilidade, (tal como a Vénus de Willendorf do período paleolítico) , e transformou a ideia em magníficas esculturas em bronze. Desconhecia essa *metáfora* de Giacometti, que talvez tenha sentido o mesmo que eu, quando no final de um almoço, olhei para uma colher e vi nela reflectida uma casa inteira, um jardim, e uma vida.
    Obrigada pelo excelente comentário.

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