Atalhos de Campo


16.10.14

O urânio empobrecido



Às vezes sinto-me como uma ex-combatente da Guerra do Golfo, o sangue pesado, os linfócitos a entupir os vasos ou amotinados nos gânglios, as plaquetas reféns, imprestáveis para impedir que o sangue extravase, os diques a rebentarem, como em África nas cheias do rio Incomati, os eritrócitos mortos nas trincheiras, o corpo exausto, entregue a uma palidez exangue. Então procuro o céu, naquele ponto em que ele é maior, mais lato, mais virado ao mar, e lembro-me de um conto de Tabucchi. Lembro-me daquele militar que sabia adivinhar o futuro pela forma das nuvens no horizonte, e que a um mês de morrer citava de cor o livro principal de Estrabão.

2 comentários:

  1. My guardian angel is afraid of the dark. He pretends he's not, sends me ahead, tells me he'll be along in a moment. Pretty soon I can't see a thing. "This must be the darkest corner of heaven," someone whispers behind my back. It turns out her guardian angel is missing too. "It's an outrage," I tell her. "The dirty little cowards leaving us all alone," she whispers. And of course, for all we know, I might be a hundred years old already, and she just a sleepy little girl with glasses.

    Charles Simic, The world doesn't end

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    1. Obrigada Xilre, e aos anjos que guardam
      Obrigada a Tabucchi, que inventou as« Nuvens»
      Obrigada a quem mo deu a conhecer

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