Atalhos de Campo


4.10.14

Música para comboio e orquestra



(...)
E era com um movimento amoroso, de carícia, que
o comboio começava a correr por entre os pilares
dos alpendres, serpenteando por entre as clareiras
ferradas dos desvios, se lançava nas trevas, tor-
nando-se a mesma coisa que o ímpeto que Federico
até agora havia sentido dentro de si. E, como se
libertar-se da sua tensão na corrida do comboio
o tivesse tornado mais leve, pôs-se a acompanhar
os solavancos esboçando a música de uma canção
que precisamente esses solavancos lhe faziam vir
à mente:«J'ai deux amours... Mon pays et Paris...
Paris toujours...»
(...)
Italo Calvino/ A Aventura de Um Viajante
Os Amores Difíceis

2 comentários:

  1. Era bem natural que, para mim tão profundamente modelada pelo espirito da França, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisação franco-latina se resume em synthese deslumbradora.
    Chamava-me Paris. E Paris não era, já se vê, a cidade luxuosa e alegre do boulevard, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspiração ao gozo material da vida.
    Paris era a terra sagrada d'onde brotára para a especie humana a primeira scentelha da Liberdade.
    Paris era a patria, pelo menos moral―d'aquelles espiritos de que a minha alma colhêra, n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa e inspiradora.
    Todos os que eu intellectualmente mais amára tinham ido alli receber a consagração suprema da gloria ou da desgraça, ás vezes de ambas ellas.
    (...)
    O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa, de tudo que me dá força para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche de bençãos a minha existencia laboriosa e triste...

    Maria Amália Vaz de Carvalho, Pelo mundo fora

    (Setenta e cinco anos antes de Italo Calvino: palavras próximas, idêntica demanda.)

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    1. Não admira que Josephine Baker, (cuja música deu origem à divagação de Federico), se tenha
      apaixonado por esse lado da Paris alegre e frenética dos années folles, e se tenha distinguido
      como estrela na Folies-Bergère, mas também nesse outro apelo tão forte, a luta pela liberdade
      na resistência francesa. E tudo isto se descobre numa bela viagem de comboio, com bons livros,
      pelo mundo fora.
      Obrigada Xilre

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