Atalhos de Campo


20.10.14

Mimetismo e ilusão

Não é sem espanto que encontro um malmequer com folhas parecidas com as da roseira a crescer encostado a ela, e a aproveitar a sua portecção; que verifico que entre as verbenas crescem, rentes ao chão, ervas rasteiras que lhe são semelhantes; que todos os dias descubro novos casos, alguns que me passaram despercebidos porque a semelhança entre os imitadores e os imitados é extraordinária. Sei que isso acontece com determinados animais, sobretudo com insectos, mas não desconfiava que se pudesse passar também com as plantas. Então descalço as luvas de jardinagem e vou à procura de ervas daninhas noutro lado,  e sim, descubro a versatilidade das plantas em matéria de ilusionismo, darwinianamente comprovada, a confirmar as minhas suspeitas: o arroz dito vermelho, e desobediente, que contamina os arrozais porque quando o vão arrancar deixa cair as sementes,(ao contrário do outro, que foi seleccionado para as conservar) semeando-se a si próprio; o capim-arroz, infestante que é dominante, passou a parecer tal e qual arroz; o trevo subterrâneo que só germina quando lhe apetece, deixando sempre umas sementes em modo de espera, perpetuando a sobrevivência perante condições adversas; o maracujá que produz imitações de ovos de borboleta nas folhas, uma espécie de truque que parece dizer, já não temos mesa, e assim se livra das lagartas. Pior ainda, quase tudo geneticamente resistente a herbicidas. Não é com espanto que  concluo que o mimetismo pode ser também uma forma de superioridade.

Sem comentários:

Enviar um comentário