Atalhos de Campo


27.10.14

Café Müller com Sylvia Plath


Eram noites de silêncio apaziguado
Aquelas em que de repente me aparecias
Descalça, cabelo desalinhado
Num sonambulismo magoado
Contra mesas e cadeiras, tu batias.
Eram longos os dedos das palavras
Que de olhos fechados proferias
De outros, alfabéticos e calados
Percorrendo insones teclados,
Filão ininterrupto, tu tecias.
E nesse movimento desvairado,
Só nas paredes paravas, e morrias
Para recomeçar de novo esse bailado,
Porque em nenhum lado tu cabias.
Era assim que já sobre a madrugada
Ao meu colo, exausta, adormecias
Com a promessa de sossego combinado
Que só o encontro marcado prometia.
E se foram nossos tempos desencontrados
Quis o destino que acertássemos neste dia.

Teresa Borges do Canto
Lisboa, Outubro de 2011
em memória de Sylvia Plath(n. 27/10/1932)

2 comentários:

  1. Juntando-me à homenagem, numa outra perspectiva.

    Durante anos, Sylvia Plath, desenhou. quase como uma forma de terapia para sublimar a sua depressão: It gives me such a sense of peace to draw; more than prayer, walks, anything. I can close myself completely in the line, lose myself in it.

    Em Outubro de 1956 escrevia à mãe, sobre a sua nova forma de arte: I’ve discovered my deepest source of inspiration, which is art: the art of the primitives like Henri Rousseau, Gauguin, Paul Klee, and De Chirico. I have got out piles of wonderful books from the Art Library (suggested by this fine Modern Art Course I’m auditing each week) and am overflowing with ideas and inspirations, as I’ve been bottling up a geyser for a year.

    Num livro publicado há um ano, a filha, Frieda Hughes, reúne os desenhos, extractos do diário e cartas evocativas de Plath. Para além de extraordinária poetisa, os desenhos mostram que Plath foi também uma artista plástica de sólidos méritos. A depressão acabaria por levar a melhor, quando ela tinha apenas trinta anos.

    Para ela, que escreveu:

    I write only because
    There is a voice within me
    That will not be still

    o desenho foi a outra forma que encontrou para acalmar a sua infindável voz interior e apresentar uma tranquilidade ausente, tão longínqua, dos seus poemas.

    Bom dia e parabéns pelo belíssimo texto.

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  2. Tive esse livro precioso nas mãos, e acabei por não o comprar na altura. Acredito que um dia qualquer destes ele me vai de novo descobrir, se é que não o fez já.
    Lembro-me de ter ficado impressionada exactamente pelo talento que aqueles desenhos revelam, a sensibilidade de alguém que não se limita a reproduzir, mas que dá uma identidade poética ao que com ela se cruza. Onde teria chegado nunca saberemos, infelizmente.
    Boa tarde

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