Atalhos de Campo


10.10.14

As manhãs da I.

Geralmente a I. chega por volta das nove horas da manhã, uma vez por semana. Sei sempre que acabou de chegar porque os cães ladram quando ela estaciona o Renault 4L branco,  junto ao alpendre da casa. A I. pega no seu ferro com caldeira a vapor (não gosta de passar com o meu, que é um bom ferro, mas não tem caldeira), diz bom dia enquanto abre a porta, e sobe a escada para se dirigir à divisão onde passa a ferro. A I. é uma mulher de meia-idade, de estatura média, um pouco roliça, pele branca, sorriso simpático, e que se veste com cores alegres. Não é muito faladora, o que eu acho uma grande qualidade, mas às vezes fala ao telemóvel. Quando vim para cá morar ela já aqui trabalhava há uns anos, ao seu ritmo,(que é o ritmo dos montes isolados), talvez por isso não seja de muitas falas, talvez por isso eu saiba poucas coisas sobre a I. Como não me consigo concentrar para trabalhar no escritório enquanto ela cá está, aproveito a breve estadia da I. para também limpar e organizar, às vezes no jardim, outras vezes dentro de casa. É impossível dar ordens à I., que só quer fazer o que fazia dantes, por isso o lema que adoptei em relação a esse assunto foi o seguinte: ela finge que faz e eu finjo que ela faz, e foi assim que ela passou a ser absolutamente imprescindível. Nos dias em que não está tão lacónica, pode dizer: Ontem fiz crepes de fiambre, na Bimby, e eu não lhe consigo provar a minha feroz indiferença por tal máquina dizendo apenas que fiz frango assado no forno; ou que: A minha filha é tarada por sapatos, e eu não lhe consigo dizer que teria vergonha de assumir tal tara; às vezes, como hoje, diz: O cão vomitou aqui, e eu vou apanhar e lavo,(mas não me importo), prefiro ser eu a limpar esse tipo de coisas. Ao fim da manhã a I. vai-se embora no seu 4L,(tão sorridente como chegou), a pensar que eu não pareço ser uma doutora e que é uma pena eu falar tão pouco, e eu fico aqui a cismar que ela não parece ser uma empregada.

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