Atalhos de Campo


30.10.14

Duna 45



No teu olhar onde beberam
girafas, gnus, chacais,
pousou agora um milhafre
atento ao sol elíptico do fim da tarde.
A Norte das tuas costas
um enclave de flamingos
continua a largar as suas penas.
E há a Grande Duna,
e um enorme deserto.

Teresa Borges do Canto
16 de Setembro de 2013

O abraço


29.10.14

Caos Calmo

Acabo de apurar que há na net 2180 sites que mencionam «quiet chaos». Tentei abrir alguns, mas eram todos demasiado pesados e o meu telemóvel não conseguia. O único que consegui abrir foi este, e agora tenho uma definição de caos calmo: uma caça que nunca mais acaba, uma caça na qual de um momento para o outro, o caçador se pode transformar em presa. O que é que isto tem a ver com a minha vida? Pode ser interessante reflectir sobre esta questão. Mas primeiro pode ser interessante reflectir sobre a maneira como vim aqui ter.

Sandro Veronesi/ Caos Calmo(2008)

das visualizações

Quando Veronesi escreveu *Caos Calmo*,(publicado em 2008), a certa altura Pietro Paladini, o personagem principal e narrador, (interpretado no filme homónimo, por Nanni Moretti),  digitava várias palavras no Google, e copiava os resultados para um bloco, como eu fiz hoje, (apenas para alguns valores), comparando com os dele:

Devil:  30 400 000, agora:   289 000 000
God:    63 900 000, agora: 1 590 000 000
Death: 115 000 000, agora: 1 650 000 000
Sex:   183 000 000, agora: 1 830 000 000 

De maneira tosca, poderíamos à partida concluir que, de há seis anos para cá, os internautas (portugueses) estão menos do que 10 vezes mais, interessados no diabo, quase vinte e cinco vezes mais, interessados em Deus, mais  do que catorze vezes mais que em 2008, interessados na morte, e nestes seis anos, apenas dez vezes mais, interessados em sexo. E vale o que vale. 

Fac-Símile

26/9

Os meus pensamentos estão tão afastados de Deus. Mais valia Ele não me ter criado. E os sentimentos que incubo ao escrever neste diário duram aproximadamente meia hora e parecem-me um logro. Não quero estes sentimentos artificiais e superficiais estimulados pelo coro de vozes. Hoje demonstrei ser uma glutona- ávida de bolinhos de aveia integral e de pensamentos eróticos. Nada mais resta dizer acerca de mim.

Flannery O'Connor/ Um Diário de Preces





Reparo que ultimamente tenho tido poucas conversas com Deus; tenho andado mais a falar sozinha entre os homens, e a dizer algumas tolices. 

28.10.14

momento constrangedor


O futuro: passar por isto, na blogosfera.


aniversário com o google

Impossível não acreditar, se o Google me deu ontem os parabéns de manhã, mal abri o computador. O dia foi passando, e de facto ficou provado que fazia anos. Começaram a chover telefonemas, mensagens, dois telefones a tocar ao mesmo tempo, há anos em que não compreendes, de facto existes. Mas a certa altura o telemóvel tocou, eu não pude atender (porque falava no outro telefone, o fixo), e insistiu mais que uma vez. Depois fui eu que liguei para aquele número(para dar os parabéns a mim própria, como digo por graça), e era um senhor meu ex-cliente, já com muita idade, que me disse que ficava com pena se não tivesse conseguido falar comigo, porque nunca se esquecia do dia dos meus anos, e pediu se me podia telefonar de vez em quando. Eu lembrei-me que ele também tinha feito anos, aproveitei para lhe dar os parabéns, para lhe perguntar se estava bem, ao que me respondeu que sim, mas que dormia cada vez pior, que acordava muitas vezes durante a noite e, preocupado, ia verificar se a mulher respirava.   

27.10.14

antípodas

se existe uma blogosfera, eu devo estar nos antípodas

Café Müller com Sylvia Plath


Eram noites de silêncio apaziguado
Aquelas em que de repente me aparecias
Descalça, cabelo desalinhado
Num sonambulismo magoado
Contra mesas e cadeiras, tu batias.
Eram longos os dedos das palavras
Que de olhos fechados proferias
De outros, alfabéticos e calados
Percorrendo insones teclados,
Filão ininterrupto, tu tecias.
E nesse movimento desvairado,
Só nas paredes paravas, e morrias
Para recomeçar de novo esse bailado,
Porque em nenhum lado tu cabias.
Era assim que já sobre a madrugada
Ao meu colo, exausta, adormecias
Com a promessa de sossego combinado
Que só o encontro marcado prometia.
E se foram nossos tempos desencontrados
Quis o destino que acertássemos neste dia.

Teresa Borges do Canto
Lisboa, Outubro de 2011
em memória de Sylvia Plath(n. 27/10/1932)

de estimação

há pessoas que em vez de animais de estimação, preferem ódios de estimação (pet hate)

25.10.14

o campo de refugiados e os refugiados no campo

Aventurando-se do campo para um distrito vizinho, os refugiados expõem-se a um tipo de incerteza que descobrem ser difícil de suportar depois da rotina diária do campo, estagnante e congelada mas confortavelmente previsível. A poucos passos do perímetro do campo, eles encontram-se num ambiente hostil. O seu direito de ingresso no «lado de fora» é, na melhor das hipóteses, um assunto em debate, podendo ser contestado por qualquer transeunte. Em comparação com esta solidão externa, o interior do campo pode muito bem passar por um refúgio seguro. Só o imprudente e o aventureiro desejariam deixá-lo por tempo considerável, e bem poucos ousariam concretizar esse desejo.

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido

sonata para parafusos e sol



É preciso uma habilidade especial, uma agilidade
única, para aproveitar um dia de sol.

24.10.14

Exactidão

(...)
Eu nunca tinha contado a morte dessa mosca, a sua duração, a sua lentidão, o seu medo atroz, a sua verdade.

(...)
A exactidão da hora da morte remete para a coexistência com o homem, os povos colonizados, com a massa fabulosa dos desconhecidos do mundo, as pessoas sós, aquelas da solidão universal. A vida está em toda a parte. Da bactéria ao elefante. Da terra aos céus divinos ou já mortos.
(...)

É tudo.

Marguerite Duras/ escrever

uma galinha













Jamais confiaria em alguém
capaz de cortar o pescoço
a uma galinha.

Desabitada




(...)
Dizemos:
- Esta sim, tem um quintal e uma mulher com uma faca. Talvez seja possível vivermos aqui, rente ao gume afiado da faca.
  Olhamos o mundo. A cintilação da faca cega-nos.
  O rosto da mulher esvai-se no branco dos muros.
  Perdemo-nos, quando um animal inclina a cabeça para a terra e espera. Mas no fim dessa espera não há nada. O animal inclina-se para a terra, morre.
  A mulher colhe um árum. Talvez nos olhasse de frente, se uma lágrima suja de terra escorregasse pelo rosto. Mas não. A solidão das coisas e dos seres torna-os únicos, intocáveis.
(...)

Al Berto/ O Anjo Mudo
A Casa Desabitada


Relatividade



Há pessoas a quem, em pouco tempo, ficamos a dever
um grande percurso.

23.10.14

Animais Doentes

Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.

Alexandre O'Neill/ Poesias Completas
Animais Doentes

Do comportamento das galinhas

Quem estiver a observar atentamente um galinheiro, repara
no seguinte: há as galinhas que só dão bicadas, as que dão e
levam bicadas (que são a maioria), e as que só levam bicadas.

22.10.14

O Meu Tio da América



Quando vi *O Meu Tio da América*, ainda não tinhas
nascido. Alain Resnais admirava Henri Laborit,
o filósofo, que fazia o papel de narrador. Laborit
dedicou-se ao estudo do comportamento, e no filme
comparava experiências feitas com ratos para de-
monstrar e classificar o comportamento dos homens.
Ficou-me deste filme a angústia, de que o mundo
podia ser afinal uma enorme gaiola, sem solução.

21.10.14

Aos meus amigos

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia

primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa



não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção

José Tolentino Mendonça/ Baldios
Sobre um improviso de John Coltrane

20.10.14

Testosterona

A hormona de todas as guerras, das pequenas e das grandes.

Dolly





Não se trata da Dolly Parton, mas de terem conseguido em 1996 clonar o primeiro mamífero a partir de uma célula  mamária de uma ovelha de raça Finn Dorset de seis anos,( a ciência nem sempre teve bom gosto nas comparações), nem da ovelha Dolly ter o seu eterno descanso à vista de todos, no Museu Real da Escócia; mas de ter sido eutanasiada aos seis anos como se tivesse doze,( porque ficou rapidamente com a idade biologica da dadora), e da vitória da vida, mas também da ciência, porque afinal a ciência serviu para comprovar que às vezes é complicado mexer com a vida.

Mimetismo e ilusão

Não é sem espanto que encontro um malmequer com folhas parecidas com as da roseira a crescer encostado a ela, e a aproveitar a sua portecção; que verifico que entre as verbenas crescem, rentes ao chão, ervas rasteiras que lhe são semelhantes; que todos os dias descubro novos casos, alguns que me passaram despercebidos porque a semelhança entre os imitadores e os imitados é extraordinária. Sei que isso acontece com determinados animais, sobretudo com insectos, mas não desconfiava que se pudesse passar também com as plantas. Então descalço as luvas de jardinagem e vou à procura de ervas daninhas noutro lado,  e sim, descubro a versatilidade das plantas em matéria de ilusionismo, darwinianamente comprovada, a confirmar as minhas suspeitas: o arroz dito vermelho, e desobediente, que contamina os arrozais porque quando o vão arrancar deixa cair as sementes,(ao contrário do outro, que foi seleccionado para as conservar) semeando-se a si próprio; o capim-arroz, infestante que é dominante, passou a parecer tal e qual arroz; o trevo subterrâneo que só germina quando lhe apetece, deixando sempre umas sementes em modo de espera, perpetuando a sobrevivência perante condições adversas; o maracujá que produz imitações de ovos de borboleta nas folhas, uma espécie de truque que parece dizer, já não temos mesa, e assim se livra das lagartas. Pior ainda, quase tudo geneticamente resistente a herbicidas. Não é com espanto que  concluo que o mimetismo pode ser também uma forma de superioridade.

Sonata de Outono

19.10.14

imagem 19.





Eu não te digo nada: só talvez
um qualquer vento, aragem
de nuvem ignorada,
escassez
de palavra, e esta imagem
que tanto gostaria demudada.

Ou, não dizendo, digo
um perfume, um susto, uma agonia,
algo em que os olhos localizam
perigo,
algo feroz, mortiço, só fatia
da vida que os dias fertilizam.

Pedro Tamen/Rua de Nenhures

utensílio

Pedi-lhe que a deixasse assim como a tinha colocado,
talvez para não se esquecer dela, ou para me fazer 
lembrar o que fora uma árvore, num outro tempo.

18.10.14

Dual


























Gosto desta palavra, gosto mesmo muito;
por ela caí sete vezes, e levantei-me oito.

Ética & Nética

Havendo formas de diversão na existência, uma delas é o tempo passado à conversa. Ora também nisto parece haver uma maneira de nos relacionarmos e comportarmos com os outros que tem um certo bom tom, quer para falar o que se deve e acerca do que se deve, quer para ouvir o que se deve e acerca do que se deve. Faz também diferença quem são os outros com quem falamos, o que há para dizer e de quem ouvimos o que têm para dizer.

Aristóteles/ Ética a Nicómaco

16.10.14

O urânio empobrecido



Às vezes sinto-me como uma ex-combatente da Guerra do Golfo, o sangue pesado, os linfócitos a entupir os vasos ou amotinados nos gânglios, as plaquetas reféns, imprestáveis para impedir que o sangue extravase, os diques a rebentarem, como em África nas cheias do rio Incomati, os eritrócitos mortos nas trincheiras, o corpo exausto, entregue a uma palidez exangue. Então procuro o céu, naquele ponto em que ele é maior, mais lato, mais virado ao mar, e lembro-me de um conto de Tabucchi. Lembro-me daquele militar que sabia adivinhar o futuro pela forma das nuvens no horizonte, e que a um mês de morrer citava de cor o livro principal de Estrabão.

15.10.14

a moral e a história

-Não sou, nunca fui, não serei, uma rabuda; antes ser turca, disse a pega.
-A pega-turca e a rola-rabuda...humm, concordou a rola.
E foi assim que trocaram de apelido, o que não interessava muito para a história, nem mudava o ecossistema, mas consta que a pega não prescindiu da sua bela e longa cauda negra a baloiçar pelos campos, e a rola ficou exactamente igual a todas as rolas.

a turca e a rabuda

                                                                                                                        
Falo, respectivamente, da rola e da pega, vidas muito diferentes, hábitos diferentes, roupa diferente, restaurantes diferentes,  conversas diferentes, timbres de voz diferentes, classes sociais diferentes. A rola vive nas árvores próximas da casa, com um olho no campo; a pega faz o contrário, por isso durante a tarde aproxima-se para espiar o jardim; salta de ramo em ramo, escondida, mas reconheço-lhe o crocitar, como se fossem duas pedras a friccionar uma na outra, seguido de pausa de segurança, e de nova raspadela. No outro dia observei uma coisa insólita, uma dança de galho em galho, entre uma rola e uma pega, no pinheiro mesmo à minha frente. Depois percebi que a rola tentava defender o seu berço minimal sem grande sucesso, enfrentando as investidas da persistente pega. Estiveram naquilo durante bem dez minutos, ora tu ora eu, até que voaram, inexplicavelmente, em direcções opostas. Ah, esqueci-me de referir no início: um dos restaurantes preferidos da pega-rabuda, é a casa da rola-turca.

Sexo, verdades, e vídeo



De quantas verdades se faz uma mentira?

José Eduardo Agualusa/ As Mulheres do meu Pai

14.10.14

A realidade e a ficção

Ofereceste-me O Horizonte de Modiano, mas eu não tinha A Sopa de Grão com Nabiças para te oferecer,(de resto estava tudo impecável). Tenho até logo à noite para remediar isso, quando já tiver lido trinta páginas, e chegares com o Expresso do último sábado com um dia de atraso; e o horizonte por um fio.
Terça-feira, 14 de Outubro de 2014.  

Palíndromo

Hannah, sempre achei que eras um perigo.

Em memória de Hannah Arendt

13.10.14

A Balada e a Valsa



A balada diz, fiz um poema com esta música
A valsa diz, não havia uma aragem, e a música espalhou-se por todo o navio negro
A balada diz, faz sentido, é um poema de amor, esta música é como fazer amor
A valsa diz, como uma imposição do céu, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor
A balada diz, é tão maravilhoso, escuta...acho que é a coisa mais sensual que eu já ouvi 
A valsa diz, ela chorava por se lembrar daquele homem de Cholen, o seu amante, e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado
A balada diz, escuta é como sexo, é tão belo
A valsa diz, com um amor que ela não vira, porque se perdera na história
A balada diz, é como a minha filha, ou qualquer coisa viva
A valsa diz, como a água na areia
A balada diz, eu adoro, a música sente-se, sente-a
A valsa diz, e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada ao mar.
A balada diz, é melhor que um poema, a música vence-nos.

Anne Sexton/ Balada Opus 23 Nº1 Chopin
Marguerite Duras/ Valsa Opus 64 Nº2 Chopin
Texto:O Amante/ Marguerite Duras (1984)
Filme:O Amante/Jean-Jacques Annaud(1992)

Conservadora

As tradições não são relíquias que guardamos na gaveta por mero gosto estético ou simples idiossincrasia pessoal. As tradições são nossas porque se tornaram nossas. E o facto de continuamente as termos considerado vantajosas e valiosas permitiu que as legássemos de geração em geração como se de uma herança colectiva se tratasse. Ao serem úteis e benignas para nós é razoável pensar que elas também o serão para aqueles que virão depois de nós.

João Pereira Coutinho/ Conservadorismo 


12.10.14

A janela discreta


Abro a janela todos os dias; reparo nas janelas ali ao lado, se também estão abertas, se as luzes ainda estão acesas, no que leram, se ouviram música ou viram televisão, que filme foram ver, se foram às compras, se jantaram fora, se têm uma nova/o namorada/o, se a vida lhes corre bem ou se andam entediados, taciturnos, irritados. Preparo a minha janela com cuidado, escolho um tema, uma ideia, uma música, uma imagem, uso as minhas rosas, uma árvore sem dono, uma sombra, uma nuvem; escrevo um pequeno texto, às vezes só uma frase, que pode ser uma provocação, ou uma preocupação. Sou fiel às estações do ano, não há papoilas em Setembro. E é assim que eu faço todos os dias, como todos nós, confessando, para esconder a verdade.   

11.10.14

O "período" e o contabilista

Já desapareceram ambos, felizmente; eram os piores dias do mês.

Moda


Gosto de me despir no Verão e vestir no Inverno.
São as pessoas que despem ou vestem a cidade.
É o campo que veste ou despe as pessoas.

Pragmática

Nunca escondi a idade, pelo contrário, sempre me foi útil
para distinguir quem estava verdadeiramente interessado em
mim.

10.10.14

As manhãs da I.

Geralmente a I. chega por volta das nove horas da manhã, uma vez por semana. Sei sempre que acabou de chegar porque os cães ladram quando ela estaciona o Renault 4L branco,  junto ao alpendre da casa. A I. pega no seu ferro com caldeira a vapor (não gosta de passar com o meu, que é um bom ferro, mas não tem caldeira), diz bom dia enquanto abre a porta, e sobe a escada para se dirigir à divisão onde passa a ferro. A I. é uma mulher de meia-idade, de estatura média, um pouco roliça, pele branca, sorriso simpático, e que se veste com cores alegres. Não é muito faladora, o que eu acho uma grande qualidade, mas às vezes fala ao telemóvel. Quando vim para cá morar ela já aqui trabalhava há uns anos, ao seu ritmo,(que é o ritmo dos montes isolados), talvez por isso não seja de muitas falas, talvez por isso eu saiba poucas coisas sobre a I. Como não me consigo concentrar para trabalhar no escritório enquanto ela cá está, aproveito a breve estadia da I. para também limpar e organizar, às vezes no jardim, outras vezes dentro de casa. É impossível dar ordens à I., que só quer fazer o que fazia dantes, por isso o lema que adoptei em relação a esse assunto foi o seguinte: ela finge que faz e eu finjo que ela faz, e foi assim que ela passou a ser absolutamente imprescindível. Nos dias em que não está tão lacónica, pode dizer: Ontem fiz crepes de fiambre, na Bimby, e eu não lhe consigo provar a minha feroz indiferença por tal máquina dizendo apenas que fiz frango assado no forno; ou que: A minha filha é tarada por sapatos, e eu não lhe consigo dizer que teria vergonha de assumir tal tara; às vezes, como hoje, diz: O cão vomitou aqui, e eu vou apanhar e lavo,(mas não me importo), prefiro ser eu a limpar esse tipo de coisas. Ao fim da manhã a I. vai-se embora no seu 4L,(tão sorridente como chegou), a pensar que eu não pareço ser uma doutora e que é uma pena eu falar tão pouco, e eu fico aqui a cismar que ela não parece ser uma empregada.

Uma casa perdida no campo

9.10.14

Da misoginia

Uma fragilidade como outra qualquer, disfarçada como 
sofisticação e, curiosamente, exibida como qualidade. 

Da (i)mortalidade

(...)
O olhar do homem foi já muitas vezes descrito. Pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, por outras palavras: como se a transformasse em coisa.
O que nem sempre se sabe é que a mulher não fica desarmada por esse olhar. Se é transformada em coisa, ela observa, pois, o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o ferreiro que se serve dele para espetar um prego. O ferreiro vê o olhar maldoso do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no dedo polegar.
(...)
Milan Kundera/ O Livro do Riso e do esquecimento

(...)
Reparem, eu não sou deste século. Isso vê-se. Isso ouve-se. Alcancei o meu objectivo com um instrumento rombo. Usei um martelo na vida doméstica e quem está de pé pode observar o resultado. E na vida do Kenny. O facto de ainda ser um martelador não deveria ser nenhuma surpresa.
(...)
Philip Roth/ O Animal Moribundo 

Salva

Fui buscar a salva de esmolas do século XVII, sabes, aquela
de uma colecção importante, para recolher a tua esmola diária.

8.10.14

Alerta amarelo

O sorriso (e)terno das árvores

Para uma sabedoria vegetal: renunciarei a todos os meus terrores
em troca do sorriso de uma árvore.

Cioran/ Silogismos da Amargura
O Escroque Do Abismo

































Nota: escrevi no meu arquivo fotográfico - Árvore/Cioran 

7.10.14

fenómeno intelectual

-Um poente é um fenómeno intelectual. - Disse-me
 Pessoa na página 228.

Certas tardes também, pensei eu, com o que tinha
à mão. Depois marquei a página com uma nuvem, e
fechei o livro.

Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Fotografia tbc

Joana


Jeanne d'Arc au bûcher
Música: A.Honegger
Libreto: P.Claudel
(...)
Uma seara sem fim crescerá sobre o pequeno campo de
Domrémy e haverá uma Lorena no céu quando o Sena ar-
der como uma vela nas mãos do tempo. A minha emoção
foi sem reserva como de cada vez que esse apelo, sen-
do de uma pureza que poucas vezes vi e todavia alguns
tocaram na terra, incarna tão cruelmente em música e
palavra como nesta oração bailada de Claudel-Honegger.
(...)
Eduardo Lourenço

The Queen is Dead

Quando perguntam a Morrissey que memórias guarda de Portugal há oito anos, ele responde na entrevista a Mário Rui Vieira, do Expresso/Atual: Não vai gostar do que vou dizer, mas a minha única recordação é horrível. Estávamos no Porto e vimos um borrego esfolado na janela de um restaurante. Ficámos em choque pelo menos durante quarenta minutos. Penso que nunca vi nada tão horripilante. E era para atrair as pessoas para o restaurante! Foi como ver uma criança esfolada.

Compreendo o que diz Morrissey, é horrível e digno da Idade Média, e ainda sinto mais isso agora que convivo com estes animais diariamente. As ovelhas que estão na pastagem, e eram borregas no ano passado, ainda me reconhecem, porque se lembram da minha voz quando as recolhia e lhes dava um suplemento de ração no Inverno. Já me aconteceu ir a uma frutaria de bairro onde era cliente habitual em Lisboa, e oferecerem-me(saído debaixo do balcão), um cabrito esfolado, com a maior naturalidade; é claro que nunca mais lá voltei.

E continua:(...) No início deste ano, foi divulgado que o príncipe William disparou contra 78 pássaros, portanto, como pode ver, aqueles de nós que não matam têm uma batalha em mãos. O príncipe William, claro, é um idiota. Penso que isso é do conhecimento geral.

Eu também acho que a rainha morreu.

6.10.14

terra queimada





A terra queimada é arada de novo, vem um tractor de manhã e regressa à noite, move-se em elipse e desenterra o silêncio; andei sobre os torrões e sobre o ar escondido, a terra a mostrar o avesso contrafeita, o que não foi queimado talvez tenha fugido, (ou ficou cortado ao meio), e o homem segue o seu trilho e aprofunda o corte, impiedoso e decisivo, enquanto a alfaia geme nas articulações. De longe até parece domada e aceitar - em breve teremos tremocilha a despontar, para que a primavera olhe de amarelo, de vertical e de espantar - do lugar do morto a versatilidade.

entre parêntesis



"How small a thought it takes to fill a whole life"
Ludwig Wittgenstein(1946)
Musica de Steve Reich(1995)

Proverb é uma peça lírica escrita por Steve Reich 
para 3 sopranos e 2 tenores, baseada num aforismo
do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein.     
Uma única frase é repetida ao longo dos catorze
minutos da música, com interrupções e diálogos no  
feminino e masculino, reconstruindo o tempo que
um pensamento leva para acompanhar uma música,
a facilidade com que preenche uma vida, ou trans-
cende uma imagem.

5.10.14

hoje é o dia do Senhor

Isaías 7: 18-25

18 Naquele dia assobiará o Senhor às moscas que há no extremo dos rios do Egipto, e às abelhas que estão na terra da Assíria.
19 E  elas virão, e pousarão todas nos vales desertos e nas fendas das rochas, e sobre todos os espinheirais, e sobre todos os prados.
20 Naquele dia rapará o Senhor com uma navalha alugada, que está além Rio, isto é, com o rei da Assíria, a cabeça e os cabelos dos pés; e até a barba arrancará.
21 Sucederá naquele dia que um homem criará uma vaca e duas ovelhas;
22 e por causa da abundância do leite que elas hão-de dar comerá manteiga; pois manteiga e mel comerá todo aquele que ficar de resto no meio da terra.
23 Sucederá também naquele dia, que todo o lugar em que antes havia mil vides, no valor de mil siclos de prata será para sarças e para espinheiros.
24 Com arco e flechas entrarão ali; porque as sarças e os espinheiros cobrirão toda a terra.
25 Quanto a todos os outeiros que costumavam cavar com enxadas, para ali não chegarás, por medo das sarças e dos espinheiros, mas servirão de pasto para os bois, e serão pisados pelas ovelhas. 

Hoje não é o dia do animal

4.10.14

Música para comboio e orquestra



(...)
E era com um movimento amoroso, de carícia, que
o comboio começava a correr por entre os pilares
dos alpendres, serpenteando por entre as clareiras
ferradas dos desvios, se lançava nas trevas, tor-
nando-se a mesma coisa que o ímpeto que Federico
até agora havia sentido dentro de si. E, como se
libertar-se da sua tensão na corrida do comboio
o tivesse tornado mais leve, pôs-se a acompanhar
os solavancos esboçando a música de uma canção
que precisamente esses solavancos lhe faziam vir
à mente:«J'ai deux amours... Mon pays et Paris...
Paris toujours...»
(...)
Italo Calvino/ A Aventura de Um Viajante
Os Amores Difíceis

3.10.14

« The Truth The Dead Know »



Gone, I say and walk from church,
refusing the stiff procession to the grave,
letting the dead ride alone in the hearse.
It is June. I am tired of being brave.

We drive to the Cape. I cultivate
myself where the sun gutters from the sky,
where the sea swings in like an iron gate
and we touch. In another country people die.

My darling, the wind falls in like stones
from the whitehearted water and when we touch
we enter touch entirely. No one's alone.
Men kills for this, or for as much.

And what of the dead? They lie without shoes
in their stone boats. They are more like stone
than the sea would be if it stopped. They refuse
to be blessed, throat, eye and knucklebone.

Anne Sexton(1962)

Nota: Verifiquei que as duas versões, a escrita e a dita pela
própria não coincidiam, o que leva a pensar que Sexton terá
voltado a escrever alguns dos versos, acentuando assim a sua
melancólica musicalidade.   

« Duas árvores de avanço »









O amor continua muito alto,
Muito acima, muito fora
Da vida, muito raro
E difícil: maravilhoso
Quando devia ser fiel.
Fiel em cada dia,
Paciente e natural em cada dia,
Profundo e ao mesmo tempo aéreo,
Verde e simples,
Como uma árvore!

Alexandre O'Neill/ Poesias Completas