Atalhos de Campo


12.9.14

O silêncio do luar e os olhos da noite

São quatro horas da manhã, e há um borrego no campo a balir com insistência, enquanto os cães ladram. Usas a lanterna, para tentar perceber o que se passa, a ovelha recém parida só cuida de um dos borregos, o outro chama, deitado, e ainda mais vulnerável entrega-te o luar na sua brancura angustiada carregado de pios de coruja, sons inquietos e ameaçadores, queixumes, estalidos, medos, enquanto os vultos das ovelhas imóveis e irregulares se destacam como relevos de  sombra com dois pequenos pontos brilhantes, dezenas, virados para ti, a devolver o foco de luz que lhes apontas, como olhos da noite. Dormes mal até teres a certeza de que nada aconteceu, e de perceberes que o luar te ensina a sentir o rebanho, e a interpretar o seu silêncio.