Atalhos de Campo


11.9.14

Mannahatta

Pedia qualquer coisa de particular e perfeito para a minha cidade,
E eis que me surgiu o seu nome indígena.

Agora vejo o que há num nome, numa palavra:líquido, robustez, rebeldia, música, auto-suficiência,
Vejo que a palavra da minha cidade é uma palavra vinda de outros tempos,
Porque vejo essa palavra aninhada em ninhos de baías, soberba,
Rica, densamente orlada de navios à vela e a vapor, uma ilha com dezasseis milhas de comprimento, solidamente fundada,
Inúmeras ruas apinhadas, altas construções de ferro, esguias e fortes, leves que se erguem esplêndidas para os céus límpidos,
Marés rápidas e amplas, por mim tão amadas ao entardecer,
As correntes marítimas, as ilhotas, e perto das grandes ilhas, as elevações, as vilas,
Os inúmeros mastros, os vapores brancos que percorrem a costa, as barcaças, os barcos, os negros transatlânticos com formas perfeitas,
As ruas no centro da cidade, as casas de negócio dos corretores e as casas de negócio dos mercadores marítimos e dos cambistas, as ruas junto ao rio,
Os imigrantes que chegam, quinze a vinte mil por semana,
As carroças que recolhem as mercadorias, a raça viril dos cocheiros, os marinheiros de rostos morenos,
O ar estival, a intensa luz solar e as nuvens que flutuam lá no alto,
As neves do inverno, as campainhas dos trenós, o gelo quebrado no rio, que sobe e desce com a corrente da maré-cheia ou da maré-baixa,
Os trabalhadores da cidade e os mestres, bem proporcionados, com rostos belos e que nos olham de frente,
Os trottoirs cheios de gente, os veículos, a Broadway, as mulheres, as lojas e a montras,
Um milhão de pessoas- de maneiras livres e soberbas - vozes francas- acolhedoras- os jovens mais corajosos e cordiais,
Cidade de águas apressadas e refulgentes! cidade das cúpulas e mastros!
Cidade aninhada em baías! a minha cidade!

Walt Whitman (1855)