Atalhos de Campo


21.9.14

Convite para jantar

O que resta das minhas casas
são estes sacos de pó com etiquetas,
que guardo em prateleiras brancas do Ikea
por ordem decrescente de sentimentos,
ou de desgostos,
ou talvez pela cor,
O pó das cidades é mais escuro
e depende das ruas,
vivi numa rua de pó negro com nome de santa.



Olho para esta paisagem de costas voltadas,
no relógio está a passar uma ovelha
com o seu novo borrego,
entre as duas e as cinco da tarde.
São horas de começar a varrer o outono,
é preciso escondê-lo da troça do verão.
O jantar é uma galinha branca
que ainda anda aos tombos na minha cabeça,
presto-lhe a última homenagem
com um avental do Four Seasons
e batatas velando em volta,  
antes da cremação.





A mesa espera com velas
e rosas em jarras altas,
que a noite vai espiando
pelas janelas acesas.
A música morreu na toalha branca
com os copos preparados
para os amigos que não chegam,
ou talvez já se tenham ido embora,
ou talvez nunca tenham existido. 
Quem morará nesta casa
tão limpa, tão brilhante, tão serena,
tão só,
em que as formigas roubaram
as sementes ao tempo.