Atalhos de Campo


30.9.14

o que nos sobra

Aproximou-se de mim, apoiou a cabeça nos meus joelhos e olhou para cima, para me dizer com aquele olhar suplicante de quem sabe que o tempo se esgota: toma, é teu o meu melhor tempo (e não tenho muito). Eu fiz-lhe uma festa na cabeça, e ela sentou-se ao cimo da folha, à espera. Depois, enquanto eu hesitava com o caminho das palavras, percebeu que ia demorar; deu duas voltas, começou a raspar para se aninhar, enrolou três linhas para fazer uma cama, e adormeceu. Eu não me zanguei com ela, afinal só tinha ainda escrito uns rabiscos, recomecei mais abaixo, e deixei-a a dormir no papel amarrotado. De vez em quando suspira e espreguiça-se, entreabre um olho com paciência, então isso vai?, parece perguntar com as pestanas. E passa mais meia hora, meia hora de cão não tem grande importância, pensam as pessoas,  e depressa se esquecem disso. Sei que tu queres que eu escreva bola e depois atire, que escreva festa comprida ao longo do pêlo, e depois faça, que escreva migalha na ponta dos dedos, e depois dê. Agora é a vez do outro olho, um berlinde pronto a entrar neste jogo. Ainda não? Agora escrevo Não, em silêncio. É que estou aqui com um problema, como é que vou explicar isto, estamos as duas com meia-idade, mas  vai haver um dia em que tu não vais mais adormecer aí, nesse sítio, que me está a dar tão mau jeito... 
Então digo: Vamos. E depois escrevo limpo, com as costas das mãos.